Vamos chamar o vento
Anualmente ventos fortes varrem o deserto do Saara, na África, e carregam centenas de milhões de toneladas de poeira numa travessia Oceano Atlântico adentro, aterrando na América do Norte, Caribe e América do Sul, mais precisamente na Floresta Amazônica. A poeira do deserto é rocha triturada, extremamente fina, que tem em sua composição fósforo e nitrogênio, nutrientes importantes para a biodiversidade e que trazem fertilidade ao solo. Ela ainda é responsável por 80% da chuva da região amazônica. Vez por outra, os fortes ventos volteiam o continente europeu, trazendo uma tempestade de barro que colore os céus de marrom e tudo o mais que se encontre pela frente. É neste momento que as micropartículas ficam visíveis a olhos nus. A polinização é um processo fundamental para a existência e manutenção da biodiversidade, pois um terço das plantas cultivadas dependem dela para se reproduzirem e produzirem frutos. A transferência de grãos de pólen ocorre de várias maneiras, sendo a anemofilia a transladação feita pelo vento, ocorrendo tipicamente nas gramíneas. Vamos chamar o vento. Esta é uma evocação dessa força que une o deserto africano e a selva brasileira, que fertiliza solos, que dispersa agentes poluidores, que gera movimento e energia. Evocamos o vento nesta exposição que arregimenta os trabalhos mais recentes de Carolina Colichio, que por sua vez formam o que Anna Tsing conceitua como assembleia. A assembleia que compõe esta exposição abrange obras que surgem da observação, apropriação e imaginação de seres não humanos e paisagens. Elementos naturais como sementes, cera de abelha, madeira, linho e argila relacionam-se com concreto, cola e tinta a óleo criando objetos de naturezas híbridas. Cristiana Tejo

Endereço
Rua Cruzeiro, ArteFASAM São Paulo
São Paulo, Brasil - Brasil


















