Contra-horizonte

Desde o Renascimento, com a fundação de um regime narrativo e histórico da arte, elegeram-se os princípios fundamentais que enunciavam, por ordem predicativa, a relação de um sujeito sobre um dado objeto. O Homem Vitruviano, a ideia de um enlace comum, de uma humanidade posta no centro do universo e o corpo humano como métrica das demais coisas no mundo vieram a definir, em linhas gerais, as narrativas pictóricas da arte — de modo que as questões da pintura estivessem sujeitas ao olhar totalizante dessa humanidade. O horizonte, por exemplo, ligado à invenção da perspectiva, teria pactuado a relação entre o ponto de vista desse olhar e um ponto de fuga situado no fundo do quadro. A linha do horizonte, posta na altura dos olhos do espectador, traça o limite desse campo narrativo visual, conforme previsto nos primeiros tratados da perspectiva. No entanto, horizonte, perspectiva e linha de fuga compõem uma narrativa de mundo estático, sob um regime de olhar totalizante, de modo que se pressuponha o mundo como dado, concebido e condicionado a um único modo de ver. Não há, porém, um mundo acabado. Não há um sujeito aqui e um mundo ali, entre os quais se possa transitar. As experiências de mundo não estão, por assim dizer, finalizadas à priori das experiências da vida. A ideia de um mundo inacabado — um mundo em devir —, em diálogo com os atuais debates da antropologia e da arte, possibilita pensar sua constante reelaboração a partir de outros modos de vê-lo e vivê-lo, contrários às narrativas pré-estabelecidas pelo sujeito europeu. Enquanto a perspectiva e o ponto de vista representam uma visão idealizada desse mesmo mundo e da dominação estética de seus apelos, buscar estímulos de abertura sensível a ele implica confrontar narrativas plenamente constituídas ao longo da história da arte que, agora, nos relevam suas persistentes contradições. Curadoria Yago Toscano

Endereço

São Paulo

Rua Brigadeiro Galvão, ArteFASAM Galeria São Paulo

São Paulo, Brasil - Brasil

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