Palavra impecável
Palavra impecável ensaio crítico - Manuela Saldarriaga H. Eu vi um Quetzal. Para a cultura originária guatemalteca, o Quetzal veio primeiro do fôlego e logo do sopro dos deuses a uma árvore de embaúba. Na literatura mesoamericana, a ave cantava à liberdade e à fertilidade. Após a colonização, tem sido vista com o vermelho vibrante da ferida em seu peito e se comunica com o silêncio. Em náhuatl, quetzal significa pluma e cóatl, serpente. Sua conjunção, Quetzalcóatl, dá sentido a esta e outras culturas do continente, a conhecida “serpente emplumada". Porque, como escreveu a poeta Chantal Maillard, «nenhum conceito pode ser imaginado se não por meio da imagem de algo singular». Para os maias tz’utujil, a aparição da ave em ascensão ao vulcão San Pedro, em Santiago Atitlán, é também comunicação divina. Mas não a única. O vulcão, junto com seus irmãos Tolimán e Atitlán, e o lago homônimo, requerem do recolhimento para escutar o fogo que habita terra adentro. Na cosmovisão indígena, desde um tempo mítico e não quantificável, os espíritos protetores da natureza se manifestam. A Cordilheira Vulcânica Centroamericana é conhecida como um antigo vórtice de poder perceptível no sossego da contemplação. Assim, com a palavra refugiada, as populações indígenas atendem e propagam a história telúrica que jaz em seu interior. Fazer a tentativa de pronunciar uma palavra impecável é uma necessidade vital de guardar dentro do corpo —ou da cumbuca— toda essa energia. E que depois flua como serpente emplumada. É um sentido dinâmico o dos significados, assim como a expressão do espírito, mas quando tudo alce voo (e que assim seja) contenha sempre a honestidade radical e a ternura calorosa do ninho.

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