Miguel Afa: ENTRA PRA DENTRO
Meu camarada Afa decidiu sacralizar a sala de parto de tudo que é lindo no Brasil, os quintais. Do quintal da tia Ciata até o fundo de quintal, esses micro-universos são como as flores, bonitas para olhos desatentos, mas essenciais para quem sabe que elas, as plantas, é que são as verdadeiras criadoras de toda a vida. Toda a vida é um efeito colateral do trabalho de algum quintal, não importa se em Roma, em Lisboa ou em Atlanta nos backyardigans (a criadora da série também era preta!) no Brasil, em Belford Roxo. Se todo camburão tem um pouco de navio negreiro é porque toda senzala tem um pouco de Reino do Congo e a qualquer hora nóiz vamo parir outro Lumumba, outro Mandume, outra Kimpa Vita. Em muito da arquitetura africana o mundo precisa ser um quintal, pergunte ao povo Dagara se a comunidade não é isso? Quando Pirundo discutiu com o passarinho na Terra dos Meninos Pelados de Graciliano Ramos, eles entraram no mó debate porque pra uns teatro era prédio, pra outros teatro era gente! Quintais são teatro vivo, palco da experiência que inaugura na gente a vontade de viver! A Nasa com seus foguetes foi até a Lua, meninos grandes com bilhões disponíveis brincam disso agora, enquanto crianças sabem que o universo de verdade mora dentro de uma semente. Gil Scott-Heron já perguntou - o branquelo tá lá na lua e daí? O que muda pra nóiz? Quem sabe o valor de um quintal, se pergunta por que não tem uma cidade em volta dele? Por que quem deveria proteger matou 5 meninos inocentes num bairro igual ao meu? Com a pele parecida com a minha? Toda a vida em sua magnífica importância se deu num pedacinho de chão fora da casa onde uma mãe gritou Entra pra dentro, e entramos, pois os que entraram pra fora muitas vezes nunca mais voltaram. Esse é o tamanho do universo que Miguel Afa teve a coragem de retratar em sua série intitulada - ENTRA PRA DENTRO. Quintais importam!

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