Foto Lisa Hermes

LISTA

20 artistas em 2020

13 jan 2020, 12h23

2020 traz consigo o nascimento de uma nova década. Não que estejamos lá muito esperançosos com o futuro, mas é preciso manter a arte como um farol para seguirmos em frente – principalmente aquela que está se produzindo agora, a partir das contingências do presente.

A SP-Arte convidou especialistas para indicar e comentar a pesquisa de artistas que acompanham e que, para eles, serão destaque em 2020. Participaram os curadores Bernardo Mosqueira, Fernanda Brenner, Júlia Rebouças, Luisa Duarte e Thiago de Paula Souza. Como resultado, temos um elenco diversificado de vinte artistas, que reflete a pluralidade de geografias, práticas e temáticas artísticas que hoje estão em plena ebulição.

Entre apostas incertas, em listas que mais costumam excluir do que incluir, esperamos que apresentar os seguintes artistas seja positivo ao enfatizar poéticas que podem nos servir de inspiração neste novo ano.



Agrippina R. Manhattan (São Gonçalo, 1996) é artista, professora e travesti. Ela articula arte, educação, curadoria e pesquisa enquanto partes estruturantes de um pensamento poético, relacionando questões da palavra, da história da arte, da norma e posturas emancipatórias de ensino. Manhattan tem um pensamento elaborado sobre as relações entre eu e x outrx na formação de disputas e colaborações. Escolheu seu nome e inventou a si mesma, como escolhe um título para um trabalho ou encontrando a tradução do que sente em poesia. 



Aleta Valente (Rio de Janeiro, 1986) é artista visual e ativista. Não iremos compreender o nosso tempo sem compreender os usos das redes sociais. Consciente disso, a artista faz do Instagram espaço para o seu trabalho, doando um novo sentido para a ideia de selfie e problematizando o consumo público do corpo feminino. Ela criou a personagem/performer Ex-Miss Febem, que expressa questões políticas e estéticas que emergem da prática feminista em imagens/fotografias/memes postados em seu perfil.



Anna Costa e Silva (Rio de Janeiro, 1988) é artista visual e trabalha a partir de situações construídas entre pessoas, que propõem reformulações dos tecidos sociais e afetivos tendo o encontro como principal matéria. Muitos de seus trabalhos partem de partituras ou premissas para relações não ordinárias. Outros flertam (ainda que extrapolem muito) com a ideia de cinema ou teatro, contando com colaborações de atores, atrizes e artistas em geral, e que se materializam ou não em instalações, filmes, sons, ou situações efêmeras, embaralhando experiência e memória. 



Clara Moreira (Recife, 1984) é artista visual. Sua pesquisa artística desenvolve-se no uso do desenho figurativo, utilizando minuciosa técnica com lápis de cor, mesmo em grandes formatos, com detalhes rigorosos feitos sempre à mão livre. Nesses desenhos, Clara pesquisa as relações entre corpo, natureza, sonho, solidão. Cada obra parece funcionar como um verso de um poema que se elabora de forma dilatada no tempo. Fez mais de sessenta cartazes de filmes e festivais de cinema no contexto da produção independente do cinema brasileiro.



Daniel Jablonski (Rio de Janeiro, 1985) é artista visual, professor e pesquisador independente. Ele transita livremente entre o ambiente da academia e do campo das artes visuais. Suas obras são projetos de longo prazo, de formatos tão variados quanto palestras ou grandes instalações, que testam os limites da metodologia de pesquisa no dia a dia do artista, a fim de pensar livremente sobre questões estruturantes da vida em sociedade, da política e também dos afetos. Atualmente coordena o curso de “Histórias da Arte Moderna e Contemporânea” no Masp.



Davi de Jesus do Nascimento (Pirapora, 1997) é artista visual. Do Rio São Francisco vem a metafísica que ampara sua produção e que toma corpo em desenhos, experiências, performances, instalações. Trabalha coletando afetos da ancestralidade ribeirinha e percebendo “quase-rios’’ no árido. Um de seus maiores interesses na prática primária da pintura é a terra. Utiliza o corpo como instrumento de medida do mundo. Define-se como corpo-médium, confrontado e confundido com a natureza. “Uma natureza aquática, barrenta e silenciosa; que pode ser lida como isca, peixe e pedra”. 



Denilson Baniwa (Mariuá, 1984) é artista visual natural do povo indígena Baniwa, do Rio Negro, interior do Amazonas. Na juventude, o artista iniciou a sua trajetória pelos direitos dos povos indígenas. Transitando pela sociedade não-indígena, Baniwa é um artista antropófago, pois apropria-se de ícones ocidentais para comunicar o pensamento e a luta dos povos originários em diversos suportes e linguagens como telas, instalações e performances. Em seus trabalhos, cruza o universo indígena e as mais recentes tecnologias de forma singular.



Denise Ferreira da Silva (Rio de Janeiro, 1963) é pesquisadora e artista visual. Com extenso currículo acadêmico, atualmente é diretora do Instituto de Justiça Social da University of British Columbia, Canadá. Seus escritos teóricos e prática artística abordam as questões éticas do presente global e suas base metafísica e epistemológica na filosofia moderna. Seu trabalho, com bastante repercussão internacional, trata de questões relativas às ideias de raça, de nação, de sexualidade e de diferença em um mundo marcado pela herança do colonialismo e pelo cataclismo global.



Gokula Stoffel (Porto Alegre, 1988) é artista visual. Em sua prática, Stoffel procura materializar imagens mentais a fim de investigá-las em possíveis desdobramentos pictóricos em objetos e espaço. Ela aplica técnicas dessa mídia em materiais industriais remanescentes, pedaços de vidro e tipos de tecidos variados, a fim de criar colagens espaciais fragmentadas. Sua preocupação com o lugar e a função que a imagem ocupa na atualidade se evidencia em pinturas e em esculturas que replicam a dinâmica do “scroll” das telas digitais.



Guerreiro do Divino Amor (Genebra, 1983), radicado no Rio de Janeiro, é artista visual, com mestrado em arquitetura. Sua pesquisa explora as Superficções, forças ocultas que interferem na construção do território e do imaginário coletivo. O artista constrói um universo de ficção científica a partir de fragmentos de realidade, tomando forma de filmes, publicações e instalações. Ficção e hiper-realismo se mesclam em uma leitura original, avessa ao “bom gosto”, sobre o nosso presente distópico. Divino Amor utiliza o exagero e o absurdo para tensionar os poderes políticos, econômicos, midiáticos e religiosos.



Janaina Wagner (São Paulo, 1989) é jornalista de formação e artista visual. Desenvolve suas pesquisas em diversas mídias, como vídeo, fotografia, livros, desenho, instalações, cenografia e pintura. Ela utiliza ferramentas como a apuração de fatos/dados, pesquisa iconográfica, edição e decupagem para criar colagens audiovisuais e narrativas que misturam um viés sociológico a elementos fantásticos. Atualmente é aluna do Le Fresnoy, uma das escolas mais interessantes da França, com um foco específico em experimentação audiovisual e novas mídias.



Jota Mombaça (Natal, 1991) é ensaísta, artista e performer. Sua escrita influenciou e tem influenciado uma geração através da contundência com que cria conceitos. Seu trabalho joga com os limites da humanidade e da monstruosidade, trata da importância da ficção visionária e das tensões entre ética, estética, arte e política nas produções de conhecimentos do sul globalizado – apontando que a luta anticolonial-decolonial não pode ser apenas mais uma moda, mas sim um novo horizonte ético. A artista será uma das participantes da Bienal de Sidney em 2020.



Juliana dos Santos (São Paulo, 1987) é artista visual e arte-educadora. Com trabalhos em vídeo, performance, fotografia e multimídia, Juliana investiga a corporeidade e a musicalidade afro-diaspóricas. Sua pesquisa se dá na intersecção entre arte, história e educação, com interesse pela maneira como artistas negrxs se engajaram em práticas abstratas para lidar com os limites da representação. Realizou a primeira individual em 2018, como artista/docente convidada na residência artística da Academia de Belas Artes de Viena, e estará no próximo “Abre alas”, importante mostra anual d’A Gentil Carioca.



Linga Acácio (Fortaleza, 1985) é pesquisadora, artista visual e cineasta. Desde 2012, atua como diretora de fotografia em longas e curtas metragem. Sua pesquisa se contamina com a performance e com a dissidência de gênero e das implicações entre corpo e espaço nos processos de resistência anticolonial. Acácio frequentemente parte da sua Fortaleza natal para desenvolver projetos em mídias variadas que lidam com a questão da permanência em contextos e territórios em transformação. Um caso interessante de um trabalho formalmente e politicamente potente.  



Manoela Medeiros (Rio de Janeiro, 1991) é artista visual. Sua pesquisa utiliza diferentes mídias, principalmente escultura, pintura, performance e instalações, que articulam relações entre linguagem, natureza e ruína. Manoela cria deslocamentos em espaços, materialização de ciclos e ecossistemas, construção de uma realidade complexa dentro da qual a distinção entre natureza e cultura desaparece. Em uma produção que caminha na contramão do espetacular, a artista faz uso da arquitetura para endereçar outras relações com o espaço e o tempo. 



Marcela Cantuária (Rio de Janeiro, 1991) é artista visual. Apropria-se de imagens de backgrounds diversos buscando criar pontos de contato entre temporalidades e imaginários acerca de figuras femininas e protagonismo político. Considerando uma perspectiva feminista, socialista e mágica, suas composições buscam dar visibilidade para uma gama de personagens e narrativas historicamente sufocadas pelas chamadas narrativas oficiais, com especial interesse por aquilo que acontece nas latitudes latino-americanas.



Rafael Bqueer (Belém, 1992) é um artista, educador e carnavalesco. Transita por linguagens como a performance, vídeo, fotografia, entre outras práticas a partir das investigações sobre: arte política e interseccionalidades, decolonialidade, gênero e ativismo como Drag Queen em boates LGBTQI+. Sua obra investiga como as diferentes formas de presença dos corpos podem estabelecer perturbações na dimensão política, ou seja, na dimensão da disputa ou negociação do real. O artista realiza, neste ano, sua primeira mostra individual em instituição, no Museu de Arte do Rio (MAR). 



Emerson Munduruku (Santarém, 1991) é biólogo, mestre em ecologia, arte-educador e artista visual. É militante de direitos LGBTQI+ e indígenas. Reside em Manaus, território industrial no meio da Amazônia Central, onde vive a drag monstra Uýra Sodoma, uma entidade em carne de bicho e planta. Através de materiais orgânicos na maquiagem e figurinos, encarna uma “A árvore que anda”. Em fotografias das caracterizações e performances, denuncia as violências aos sistemas vivos e (re)conta histórias de encantaria existente na paisagem cidade-floresta.



Ventura Profana (Salvador, 1993) é compositora, escritora e artista visual. Doutrinada em templos batistas, a artista também se apresenta como pastora missionária e cantora evangelista, que profetiza a multiplicação e abundância da vida negra e travesti. Suas releituras de narrativas bíblicas, que foram historicamente apropriadas por projetos políticos de embranquecimento populacional e concentração de poder, questionam as implicações do deuteronomismo no Brasil através da difusão das igrejas neopentecostais. Ventura foi uma das participantes da última edição do programa Bolsa Pampulha (2019).



Yuli Yamagata (São Paulo, 1989) é artista visual. Trabalha essencialmente com costura e parte de tecidos ordinários encontrados em armarinhos e lojas populares para construir um universo visual bastante peculiar e autêntico. Operações de reversão de sentido e deslocamento são comuns em seu trabalho. Yamagata mistura com fluência e humor referência tão díspares quanto o design da Bauhaus e as roupas de lycra de cores vibrantes dos praticantes de “crossfit”.  


Artistas Relacionados