Fazenda de mineração de criptomoedas instalada na China
Reportagem

Qual o dano ambiental das NFTs?

Barbara Mastrobuono
1 abr 2021, 13h25

O mundo da arte carrega consigo o orgulho e o estigma de jogar luz (com mais ou menos sucesso) sobre problemas muitas vezes ignorados pela sociedade. Ultimamente, temos ouvido muito falar em NFTs e criptoarte, mas pouco se tem dito sobre como as empreitadas do mercado de arte no mundo do blockchain tem ajudado a trazer atenção em larga escala ao impacto dessa forma descentralizada de economia sobre o meio ambiente.

As criptomoedas são moedas que funcionam no mundo virtual, sendo as principais o Bitcoin e o Ether. Enquanto o Bitcoin é aceito em diversas plataformas, o Ether só transita no blockchain Ethereum, atuando como sua moeda oficial. Existem duas formas de conseguir essas moedas: pela casa de câmbio, assim como qualquer outra moeda internacional, ou por meio da mineração. E é na mineração que reside o problema.

Acima: Fazenda de mineração de criptomoedas instalada na China

Sebastião Salgado "Mina de Ouro Serra Pelada"

Sebastião Salgado "Mina de Ouro Serra Pelada"

Assim como na mineração física, onde as pessoas garimpam por ouro e outros materiais naturais valiosos, a mineração virtual requer que o indivíduo invista dinheiro em uma estrutura própria para explorar recursos naturais a seu favor. Os danos ambientais da mineração física são vivos em nossa memória – eternizados por ensaios fotográficos como o de Sebastião Salgado sobre a devastação na Serra Pelada. A mineração virtual ainda atua abaixo do radar da população geral, mas os danos que causam ao meio ambiente são inegáveis.

Para conseguir extrair moedas do universo virtual, cada minerador precisa solucionar complexos quebra-cabeças matemáticos criados pelo blockchain. Uma vez resolvidos, o minerador recebe as moedas – uma estrutura narrativa similar a de um videogame. Porém, para resolver os quebra-cabeças, cada minerador precisa de um computador montado especificamente para esse fim, com componentes que podem produzir até 27 milhões de soluções matemáticas por segundo. Os computadores, é claro, residem no mundo real e funcionam à base de energia. E não qualquer tipo de energia, mas especificamente energia fóssil. Um estudo da Universidade de Cambridge estima que o uso de Bitcoins utiliza, anualmente, a mesma quantidade de energia fóssil que a Argentina inteira. Ou, em escala comparativa, uma única transação em Bitcoin se utiliza de até 290 quilos de CO², o mesmo de 72 mil e-mails enviados, 1.44 milhões de buscas no Google, 120 mil horas de vídeos do YouTube ou 8,5 quilômetros de um voo da aeronave Boeng 747-400.

Outra consequência é uma expansão às praticas extrativistas coloniais dos países do Norte Global em relação ao Sul Global. As fazendas de mineração, como são chamados os aglomerados de máquinas que extraem as moedas virtuais, estão migrando para países em que a energia é mais barata, como o Irã e a China, construindo uma atuação predatória sobre o consumo de energia destes países. O Irã contabilizou um aumento significativo no seu uso de energia nos últimos três anos, além de atividades ilegais de instalações de fazendas de mineração. No país, o uso de energia elétrica é gratuito para mesquitas e prédios governamentais. Em 2019, viralizaram imagens de fazendas ilegais montadas dentro de mesquitas.

Em 2019, foram descobertas fazendas de mineração de criptomoedas instaladas ilegalmente dentro de mesquitas no Irã
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Em 2019, foram descobertas fazendas de mineração de criptomoedas instaladas ilegalmente dentro de mesquitas no Irã

Como isso afeta o mundo da arte? Simples: as comercializações das obras NFTs que tem mobilizado recursos financeiros de colecionadores nos últimos meses são primordialmente realizadas via Bitcoin e Ether, em mercados como OpenSea, Nifty Gateway e SuperRare. A compra da agora notória obra de Beeple, “The First 5,000 Days”, por $69 milhões na casa de leilão Christie’s, será paga, pela primeira vez, por Bitcoins em vez de dólares.

Reisinger Andre, "Bury" Obra de arte com NFT carbono-negativo vendida no leilão Carbon Drop para angariar fundos e visibilidade à busca de NFTs verdes

Reisinger Andre, "Bury"
Obra de arte com NFT carbono-negativo vendida no leilão Carbon Drop para angariar fundos e visibilidade à busca de NFTs verdes

Não é de se espantar que isso tem desagradado os artistas, que não previam o impacto ambiental negativo que a venda de suas obras via criptomoedas teria no consumo de energia fóssil. E, enquanto a comercialização de obras pela blockchain traz benefícios aos artistas como trabalhadores da cultura, tais como maior estabilidade financeira durante a pandemia, participação no lucro de revenda e maior controle sobre quais coleções seu trabalho vai integrar, a notícia negativa sobre os danos causados não tem sido bem recebida. Embora a atividade relacionada à criptoarte e NFTs seja apenas uma parcela da movimentação comercial nos blockchains, o fato das vendas terem recebido atenção da grande mídia e aumentado a especulação em cima das obras de arte fez com que elas aumentassem radicalmente por essas mesmas plataformas, criando uma superdemanda pelas criptomoedas.

Sara Ludy "Fire Beach", 2014 Obra de arte com NFT carbono-negativo vendida no leilão Carbon Drop para angariar fundos e visibilidade à busca de NFTs verdes

Sara Ludy "Fire Beach", 2014
Obra de arte com NFT carbono-negativo vendida no leilão Carbon Drop para angariar fundos e visibilidade à busca de NFTs verdes

Enquanto a resposta de alguns artistas têm sido manterem-se integralmente alheios ao movimento, outros procuram aceitar a nova realidade como um desafio. Lançado pelo analista Jason Bailey, o site Green NFTs angaria fundos para financiar a pesquisa de NFTs verdes, com menos impacto sobre o meio-ambiente. O artista Memo Akten lançou um site que calcula os impactos naturais de cada NFT– mas, após uso indevido de sua pesquisa para assediar produtores de NFT, Akten transformou o portal em um índice para sites que procuram ativamente por soluções à integração verde das artes dentro da economia das criptomoedas. E, agora no mês de Março, artistas como Beeple e Sarah Lundy e outros nomes se juntaram ao marketplace NiftyGateway para criar o Carbon Drop, leilão no qual cada artista vendeu uma NFTs carbono-negativa e cujo lucro foi doado para a Open Earth Foundation.

Home do site CryptoArt.wtf do artista Memo Akten no qual seria possível calcular quanto de carbono foi necessário para criar NFTs específicas. Depois de mal-uso reportado de sua plataforma, Akten a transformou em um diretório para aqueles que desejam conhecer melhor as alternativas verdes para criptoarte.

Home do site CryptoArt.wtf do artista Memo Akten no qual seria possível calcular quanto de carbono foi necessário para criar NFTs específicas. Depois de mal-uso reportado de sua plataforma, Akten a transformou em um diretório para aqueles que desejam conhecer melhor as alternativas verdes para criptoarte.

O fenômeno das NFTs tem reavivado discussões do mundo da arte que já se desdobraram ao longo dos séculos em diversos formatos: a importância da figura do artista como criador em cima do valor da obra em si; o impacto da reprodutibilidade sobre o original; a volatilidade da especulação sobre o valor de obras de arte; entre outras discussões sobre o sistema da arte que tem sido exploradas por artistas desde Warhol e Duchamp, aos membros da arte postal como Paulo Bruscky.

Muito mais interessante tem sido acompanhar o desdobramento em tempo real da reação da classe artística à sedimentação de um novo sistema econômico e como os artistas podem posicionar-se dentro dele. Desacompanhados dos gatekeepers tradicionais, os artistas ocupam a posição de agentes diretos sobre como escolhem integrar esse novo sistema econômico, que assim como o velho, carrega em si consequências de predações ambientais e coloniais. E parece que essa construção coletiva dirá muito mais sobre como a arte ocupa os espaços de discussão atuais – seja na tentativa de integrar o sistema por suas próprias regras, seja na criação de obras que o denunciem – que a já conhecida retórica canonizada sobre tiragens versus originais.

 


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Barbara Mastrobuono é editora, tradutora e pesquisadora. Trabalhou em casas editoriais como Editora 34 e Cosac Naify, e atuou como coordenadora editorial da Pinacoteca de São Paulo. Entre os títulos que traduziu estão “Tunga, com texto de Catherine Lampert; “Poesia Viva”, de Paulo Bruscky, com texto de Antonio Sergio Bessa; e “Jogos para atores e não autores”, de Augusto Boal. Defendeu sua dissertação de mestrado pelo departamento de Teoria Literária da USP. Atualmente é editora-chefe da SP-Arte.

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