Beeple, "The First 5.000 Days" (detalhe).
Ensaio

Do que falamos quando falamos sobre NFTs

Barbara Mastrobuono
16 mar 2021, 15h37

No dia 11 de dezembro de 2019, Temetrius Jamel “Ja” Morant, com dezenove anos, enterrou uma bola de basquete durante um jogo na Phoenix Arena, no estado de Arizona (EUA), garantindo a vitória para o seu time Memphis Grizzlies. Para quem perdeu o jogo de dois anos atrás é possível assistir os highlights da partida em diversas páginas do Youtube. Também é possível comprar, por $240.000,00, o “momento” registrado em NFT no mercado virtual NBA Top Shot.

Acima: Beeple, "The First 5.000 Days" (detalhe).

Momento colecionável de passe de Ja Morant à venda no site NBA Top Shot. Cada "momento" consiste de um vídeo do passe, as estatísticas do jogador e outras informações relativas à temporada, servindo como uma versão digital dos cartões colecionáveis de jogadores.

Momento colecionável de passe de Ja Morant à venda no site NBA Top Shot. Cada "momento" consiste de um vídeo do passe, as estatísticas do jogador e outras informações relativas à temporada, servindo como uma versão digital dos cartões colecionáveis de jogadores.

O NFT (Non-Fungible Token, em inglês) é, explicado de forma simples, um token que representa a propriedade sobre um item sem par. Criptografados pela tecnologia blockchain, os NFTs lembram em sua essência uma escritura, uma forma representativa de posse que pode ser transferida à medida que o item em questão é revendido. A diferença que vem com a tecnologia do século 21 é que, por meio do blockchain, é possível traçar um rastreio infalível ao dono daquele item e verificar quando e onde ele trocou de mãos. 

Em um paralelo bastante brasileiro, podemos pensar na “grilagem”, tradição de falsificação de escrituras, que se constitui na exposição dos documentos ao contato com grilos, garantindo-lhes uma aparência mais antiga e, assim, facilitando a posse de terras alheias por meio de documentos falsos. Em suma, o blockchain e a subsequente criptografia do NFT são à prova de grileiros virtuais. E, embora uma gama infinita de itens possa ser certificada com o NFT, desde coisas concretas, como propriedades ou edições especiais de tênis, à colecionáveis virtuais, como os lances de basquete comercializados na NBA Top Shot, recentemente temos visto uma movimentação intensa no ambiente da criptoarte, pontuada pela venda da primeira obra NFT na casa de leilão Christie’s, arrematada por $69.346.250,00 (a obra em questão se chama The First 5.000 Days, do artista Beeple).

Blockchain é um sistema de registro de informações que torna difícil ou impossível alterar, hackear ou trapacear o sistema. Um blockchain é essencialmente um registro digital de transações que é duplicado e distribuído por toda a rede de sistemas de computadores.

Beeple, "The First 5.000 Days". Obra vendida por $69,346,250 em leilão na Christie's.

Beeple, "The First 5.000 Days". Obra vendida por $69,346,250 em leilão na Christie's.

Além da obra de Beeple, têm sido registrados diversos movimentos na casa dos milhões em compras de obras NFT, como é o caso dos vídeos feitos pela cantora Grimes. Mas o que é tão atraente na ideia de obras NFT? O NFT é um certificado e não uma qualidade da obra em si. O debate sobre os critérios de monetarização de obras de arte já vem dominando discussões há séculos, assim como os questionamentos acerca da transição entre mídias e a validade delas — o famoso “mas isso é arte?” que domina corredores de museus e galerias desde a inserção de qualquer arte não-figurativa nos espaços expositivos e nos livros de história da arte. Também não há nada de novo na compra de uma obra de arte que não seja física: performances podem ser compradas e integrar acervos particulares ou museológicos. O NFT parece partir de um princípio simples: o item tem valor por ser único, e por pertencer a alguém. “Possuir a coisa real verificável sempre terá mais valor do que não a possuir”, resume o FAQ sobre NFTs do ethereum.org.  

Também vemos surgir a questão da reprodutibilidade versus original. Na versão do mundo da arte do exercício filosófico se uma árvore cai na floresta e ninguém está perto para ouvir, será que faz som?, se uma obra é reproduzida de forma idêntica, a noção do original ainda faz sentido? Talvez o que seja mais valioso sobre a obra NFT é o fato de ter uma autoria verdadeiramente verificável. A aplicação de blockchain ao pensamento crítico sobre arte e, simultaneamente, ao mercado dialoga com a ansiedade de capturar o “verdadeiro”, o “real” e o insubstituível. Vivemos no mundo do deepfake, onde a imagem — mesmo filmada — não é mais atestado de realidade. A moral de qualquer noção de “realidade” foi substituída pela nomenclatura desgastada do “controle da narrativa”, fazendo com que o negacionismo — político, geográfico, científico — vire um fator ativo na realidade física da vida das pessoas: libertado do antro do discurso, agora é imbuído da autoridade de criar políticas públicas que determinam, inclusive, se as pessoas vivem ou morrem.

O NFT, dessa forma, segue a lógica daquilo que é verdadeiro, ao se entender que o fato de algo ter sido criado por si só já o faz verdadeiro, seja lá o que isso signifique. Embora a veracidade de obras de arte sempre tenha sido uma grande questão não só no mercado de compra e venda como também para aquisições de acervos, a dimensão com a qual o assunto é capturado no caso da NFT parece maior que uma simples questão de autoria. A obra virtual pode ter diversos formatos, desde desenhos a vídeos ou, ainda, a momentos marcantes de nossa vivência social, como é o caso da comercialização de memes específicos. Os memes são um exemplo particularmente interessante: sua autoria e relevância social se dão pela via da criação coletiva, e justamente pelo fato de serem tão facilmente replicados. Empregar um dispositivo como o blockchain para protagonizar a autoria de um meme não seria, por esse ponto de vista, ir de encontro ao próprio objetivo do meme? A certificação NFT, portanto, parece ter mais valor pela captura do momento de criação e pelo registro de que algo foi criado do que pela relevância de seu autor.

Em 2019, por exemplo, a performance “Atoritoleituralogosh” de Cristiano Lenhardt passou a integrar o acervo da Pinacoteca de São Paulo por meio do Prêmio Aquisição SP-Arte.

Para quem quer aprender mais sobre as diversas facetas do NFT, o FAQ da plataforma Ethereum é uma bibliografia bastante completa.

Site ethereum.org, que serve como mercado virtual para a compra e venda de critpoarte com NFT.

Site ethereum.org, que serve como mercado virtual para a compra e venda de critpoarte com NFT.

No outro lado da moeda metafórica e literal, vemos a atuação do NFT dentro do mercado da arte. Junto com a habilidade de manter um registro de transações, é possível que o artista cobre royalties em cima de cada venda de uma única obra. Similar ao que acontece com os direitos autorais na indústria editorial e fonográfica, quando um autor recebe uma porcentagem em cima de cada exemplar vendido de seu livro ou música, agora o artista tem a opção de obter lucro direto em cima da revenda de seu trabalho. Seth Siegelaub e Robert Projanski, que em 1971 criaram um contrato de venda para artistas conhecido como The Original Transfer of Work of Art fazendo polêmica ao exigir que artistas recebam 15% do valor de venda sobre cada transação em cima da mesma obra, ficariam agora orgulhosos. O artista começa a recuperar a agência sobre sua atuação no mercado, que se viu reduzida nas últimas décadas devido ao inchaço das infraestruturas necessárias para divulgação e comercialização da arte. “[O NFT] é também uma resposta do mercado de arte e um desdobramento curioso sobre a cultura do artista capaz de mediar o acesso à sua produção com menos intermediários.” constata o jornalista Cauê Madeira. Afinal, quando a obra vendida existe apenas no universo virtual, não são necessários uma transportadora, um seguro ou mesmo um espaço expositivo. A habilidade de acompanhar a jornada de sua obra pelo mundo também dá ao artista um controle e uma voz maior em relação às coleções que seus trabalhos podem vir a integrar. 

"The Original Transfer of Work of Art", também conhecido como "Artist's Contract", criado por Seth Siegelaub e Robert Projansk em 1971.

"The Original Transfer of Work of Art", também conhecido como "Artist's Contract", criado por Seth Siegelaub e Robert Projansk em 1971.

A inserção da estética popular dentro do circuito institucionalizado da arte é algo que vem se repetindo ciclicamente desde que o mundo é mundo. Vale lembrar que a criação dos museus de arte moderna na década de 1950 suscitam o mesmo nível de choque que sentiríamos hoje com a abertura de um Museu de Memes (no âmbito físico, claro — no mundo virtual essa façanha já vem sendo desbravada há tempos). A compra e venda de “arte virtual” na forma de memes em nada se difere das aventuranças de Andy Warhol com sua lata de sopa Campbell’s. Mas algo muito particular chama a atenção nas obras que estão sendo devoradas por cifras milionárias no mercado. Afinal, o que o primeiro tweet de Jack Dorsey, fundador do Twitter, uma remasterização do clássico meme Nyan Cat, e a bola de basquete enterrada por Ja Morant em 2019 têm em comum? 

 

Primeiro tweet de Jack Dorsey à venda como NFT.

Primeiro tweet de Jack Dorsey à venda como NFT.

Todos capturam um momento do tempo, uma parcela da História Humana Como A Conhecemos. Cristalizam pontos cruciais de nossa trajetória coletiva globalizada em um momento extremamente particular de nossa história, em que a própria ideia de futuro nos parece cada vez mais improvável e impossível. Nos tornamos, assim, colecionadores de nossa própria trajetória, imbuindo valor ao efêmero na esperança de que possamos catalogar todos os passos que damos daqui para a frente. Quando abro o site da NBA Top Shot a primeira frase que surge aos meus olhos é “Seja dono dos melhores momentos da história da NBA”. Em entrevista com a Eileen Kinsella, da Artnet News, o colecionador Twobadour (não é seu nome real) fala sobre a experiência de ter comprado The First 5.000 Days. “Como você está se sentindo agora que acabou?” pergunta Kinsella, se referindo ao acirrado leilão na plataforma virtual da Christie’s. “Isso vai ser uma peça de um bilhão de dólares algum dia.” responde Twobadour. “Isso tem o potencial de ser a obra de arte desta geração. Estamos muito felizes por fazer parte da história, e ainda estamos digerindo o fato de que fazemos parte da história.”


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Barbara Mastrobuono é editora, tradutora e pesquisadora. Trabalhou em casas editoriais como Editora 34 e Cosac Naify, e atuou como coordenadora editorial da Pinacoteca de São Paulo. Entre os títulos que traduziu estão “Tunga, com texto de Catherine Lampert; “Poesia Viva”, de Paulo Bruscky, com texto de Antonio Sergio Bessa; e “Jogos para atores e não autores”, de Augusto Boal. Defendeu sua dissertação de mestrado pelo departamento de Teoria Literária da USP. Atualmente é editora-chefe da SP-Arte.

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