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Colecionar arte

Como comprar obras de arte? Galeristas indicam

Ane Tavares
18 out 2021, 15h04

A pergunta é, em teoria, bastante fácil, mas comprar obras de arte vai além do simples ato de aquisição e nos traz uma série de questões:  por onde começar? Como avaliar uma obra?  Qual a melhor forma de pesquisar artistas?  Como definir o tipo de colecionador que quero ser? São muitos os caminhos.

O colecionismo acompanha o dinamismo e a velocidade do mundo globalizado que vivemos e pode nos ajudar a compreender a história, o passado e presente, e a vislumbrar uma projeção de futuro. Para o filósofo alemão Walter Benjamin, “colecionador de verdade é aquele que tem um modo quase místico de se ligar a esses objetos, uma intimidade”.

A cada edição, a SP–Arte fomenta debates sobre o tema em uma programação gratuita com especialistas do circuito de artes visuais nacional e internacional. E desta vez, trazemos, também, dicas fundamentais de alguns dos principais galeristas do país para quem quer começar a colecionar, mas não sabe por onde, e ainda quais são as três perguntas imprescindíveis que um colecionador deve fazer antes de adquirir uma obra.

Luisa Strina
Fundadora da Galeria Luisa Strina

Para iniciar uma coleção é fundamental formar um repertório: visitar exposições em galeria e museus, ler artigos e resenhas em revistas como ArtForum, Select, Frieze Magazine, ArtReview,  Mousse entre outras, acompanhar a cena de arte local e internacional, e desenvolver relações com galeristas.   Se tiver interesse em uma obra mas não conhece o artista, pergunte a qual geração pertence, sua trajetória profissional (onde já realizou exposições, se a obra está em coleções importantes), qual é o contexto do trabalho. Finalmente, não se limite a tentar entender o que a obra “significa”. Algumas das melhores obras são aquelas que guardam uma certa ambiguidade, adquirindo diferentes sentidos na medida em que convivemos com elas.

 

Márcia Fortes
Sócia fundadora da Fortes D’Aloia & Gabriel

Há três perguntas essenciais para se fazer antes de comprar uma obra de arte. Para a obra: Por que você me chama? Para si mesmo: Eu gosto do que essa obra faz comigo? Para o galerista: Quanto custa?

A primeira libertação é justamente da ideia de “colecionismo”. A pessoa precisa libertar-se da pressão provocada pelo verbo “colecionar”, para então sentir-se confortável para se relacionar com arte de forma espontânea e autônoma. Às vezes, queremos comprar uma obra de arte por motivos independentes do compromisso de formar uma coleção, e é preciso ter autoconfiança para de fato comprá-la e ser feliz. O prazer provocado pela aquisição de uma obra que nos acende uma reação autêntica e pessoal é imbatível, supera tudo! Considero importante mostrar para as pessoas, para qualquer pessoa, que ela não precisa “entender” de arte para se relacionar com arte, e adquirir arte se assim desejar. Assim como não precisamos entender de cinema para apreciar um filme.

Agora, há imenso prazer no colecionismo também, e quem sentir-se mordido por esse desejo deve sim tratar de realizá-lo. Eu recomendo a contratação de uma consultoria profissional, que seja por um período. Dessa forma, cada aquisição se desdobra em um diálogo de pontos e contrapontos, ideias e perspectivas. É importante estabelecer o debate em torno de questões como o perfil da coleção que se quer montar, o relacionamento entre as obras na coleção, o intuito na formação desse conjunto de obras. A convivência próxima com galeristas representantes de artistas de interesse também gera trocas intelectuais legítimas e importantes. Nesse caso, é a amizade com galeristas que engendra a boa coleção. E há galeristas que trabalham de forma comprometida na formação de coleções, para além de seus artistas representados.

Aqui no Brasil, formaram-se nos últimos anos alguns grupos de consultoria de arte que vem se profissionalizando de forma muito séria e bacana. Mas, a meu ver, o ápice dessa cadeia de relações é a possibilidade de se trabalhar corpo a corpo com um curador! Poder contar com alguém que tenha a prática de alinhavar referências, que traga propostas inesperadas de pontos de vista, é a experiência mais enriquecedora.

Claro que entendo também se a pessoa concluir que não está nem aí para formatar sentido à coleção, e resolva comprar o que lhe der na telha, quando lhe der vontade, porque a arte afinal é isso, é liberdade de expressão e de ação!

 

Pedro Mendes
Sócio fundador da Mendes Wood DM

Keep the focus: enveredar por vários territórios é divertido mas saiba o que você gosta, qual o foco da sua busca.  O mundo da arte é vasto e quem tudo quer nada tem. Arte não é uma linha reta, então estude muito. Ler a história da arte moderna é imprescindível para entender o pós guerra e a atualidade.  Siga as melhores galerias: aquelas  que estão posicionando seus artistas em coleções públicas e privadas na América Latina e no mundo.

 

Jaqueline Martins
Fundadora da Galeria Jaqueline Martins

Visitar museus e galerias é um passo importante e essencial, assim como assinar as newsletter dos museus e galerias, acompanhar a programação das exposições é um começo simples, gratuito e muito eficiente. Eu digo sempre que o mais legal é que sequer precisamos fazer um investimento financeiro inicial para se aproximar e desfrutar desse complexo e maravilhoso sistema que é a arte contemporânea. Ao fazer uma aquisição, vale se perguntar se estou comprando porque esse artista esta na moda ou de fato essa obra vai agregar  valor cultural, estético e ou financeiro a minha coleção.

 

Daniel Roesler
Diretor da Nara Roesler

Eleja um tema que te apaixona e defina um orçamento. Ter um tema claro vai te ajudar a filtrar entre as infinitas possibilidades de coleção que você pode formar. O orçamento também vai ajudar com o foco inicial. Também vale escolher obras que você não entende completamente. Isso vai te ajudar a não cair na tendência de comprar só o que você já conhece e te deixa confortável, que pode ser uma armadilha para coleção. Assuma riscos!

 

Ian Duarte
Sócio fundador da VERVE

Colecionar é uma arte e entendo como todo começo traz consigo uma adrenalina deliciosa e muitas dúvidas. São muitos os caminhos que uma coleção pode tomar ao longo da vida, então se tivesse que dar apenas um conselho para quem quer começar a colecionar, seria: compre arte que fale de seu tempo. Quer seja de artistas jovens, que estejam conectados com questões fundamentais da atualidade, como artistas históricos, cujas pesquisas seguem ressoando na urgência da contemporaneidade. Sugiro sempre a quem coleciona que comece com trabalhos que o provoca e que o tire do lugar comum, porque uma boa pesquisa artística tem a capacidade de ampliar a nossa compreensão de mundo indefinidamente – e esse é um tipo de trabalho que não cansa nunca. Tenha em mente que o perfil de uma coleção começa a se desenhar desde a primeira aquisição, portanto a coleção vai seguir sempre atual na medida que o colecionador estiver conectado com as questões mais urgentes de seu íntimo e da realidade que o interessar.

Na programação desta 17ª edição da SP-Arte, que acontece entre 20 e 24 de outubro na ARCA, traremos debates e encontros sobre colecionismo e outros temas latentes do circuito de arte no Talks. Entre as atividades gratuitas, está o programa Experiências Digitais, com a consultora e especialista no mercado de arte  Vivian Gandelsman, em uma conversa sobre estratégias de precificação e venda. Veja aqui a agenda na íntegra.

E para se aprofundar ainda mais nas discussões sobre colecionismo, história da arte e outros assuntos indispensáveis para quem gosta de arte, não deixe de acompanhar o podcast da SP–Arte, Arte em meio-tempo.


anne-tavares

Ane Tavares é jornalista especializada em projetos de artes visuais. Atuou como assistente de pesquisa da curadora Denise Mattar na exposição “50 Duetos”, em cartaz na Fundação Edson Queiroz, e foi assessora de comunicação de instituições como Museu de Arte Moderna de São Paulo, Sesc São Paulo, Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia, e de eventos como a SP-Arte. Atualmente integra a equipe de comunicação do Instituto Inhotim.

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