Afinal, o que é uma instalação artística?

Yan Catuaba
25 nov 2025
Acima: Dan Lie, vista de “36 Months of Loss”, 2024, Art Sonje Center, Seul. © Seowon Nam/Cortesia artista e Art Sonje Center, Seul
Algo acontece com o nosso corpo diante de uma instalação de arte. Enquanto em casa dispomos móveis e objetos de decoração, artistas se apropriam deste mesmo ato instalativo para criar experiências estéticas em museus, galerias, feiras de arte e na própria cidade. Em bienais, por exemplo, é comum boa parte da seleção curatorial se voltar a esta linguagem, hoje fortemente ligada à ideia de arte contemporânea.
Mas, afinal, o que é uma instalação e como ela engaja o observador? Para debater estas questões, a SP-Arte convidou Dan Lie, artista; Keyna Eleison, cocuradora at large da 36ª Bienal de São Paulo; Caio Meirelles Aguiar, pesquisador em museologia voltada à arte contemporânea, e Ricardo Pessôa de Queiroz, colecionador, artista e idealizador da Usina de Arte – instituição que une arte, ciência e educação no município de Água Preta, em Pernambuco. O diálogo é parte de uma série que investiga suportes e técnicas artísticas e já se debruçou sobre pintura e cerâmica.

Marina Abramović, vista de “Generator", 2024, Usina de Arte, Água Preta, Pernambuco. © Cortesia Usina de Arte

Detalhe de “Generator", 2024, Usina de Arte, Água Preta, Pernambuco. © Cortesia Usina de Arte
Instalação artística e a elasticidade do espaço, do tempo e do corpo
A instalação é uma prática recente do ponto de vista histórico. Apesar de suas aparições iniciais datarem da primeira metade do século 20, ela só foi incorporada ao vocabulário da crítica nos anos 1960. Marcel Duchamp (1887-1968) foi um dos primeiros artistas a se aventurar nessa linguagem e duas de suas obras fazem parte dos primeiros registros que se têm de trabalhos instalativos.
Em 1942, o pai do ready-made mais uma vez desafiou a tradição e o conceito de arte com a obra “His Twine”, realizada na exposição “First Papers of Surrealism”, no centro de Nova York. Em sua execução, o artista revestiu todo o ambiente expositivo com um emaranhado de barbantes. A proposta seguiu o que ele havia feito quatro anos antes, em 1938, na “Surrealism International Exhibition”, em Paris. Lá, ele cobriu o teto da Galerie Beaux-Arts com 1.200 sacos de carvão e reduziu a iluminação do espaço a uma única lâmpada, fazendo com que os visitantes precisassem de lanternas para se guiar.

Marcel Duchamp, vista de “His Twine", 1942, Nova York. © John Schiff/Philadelphia Museum of Art/Art Resource
Apesar de inovadora, a obra com barbantes não foi bem recebida pelo público. Alegações de que a intervenção impossibilitou a circulação pela exposição tornaram o projeto de Duchamp polêmico. No entanto, o trabalho revela algumas das características primordiais da linguagem instalativa. Nele, pode-se observar como a definição dessa prática está vinculada, necessariamente, à noção de espaço. O ambiente escolhido para abrigar a instalação é incorporado por ela e se torna parte constituinte da obra. Keyna Eleison destaca como a soma do ambiente e a proposta instalativa que ele acolhe dá forma a uma nova percepção de espacialidade: “A instalação suscita uma diferenciação entre lugar e espaço. O lugar que ocupa e o espaço que ela trabalha. Dependendo da instalação, você cria um espaço dentro do espaço”.
Outro aspecto reestruturado pela presença da instalação é a noção de tempo. Sobre esse elemento, a curadora aponta: “O tempo de fruição em uma instalação é completamente diferente da proposta histórica dada para o que é chamado de obra de arte. A instalação age em uma percepção de suspensão espaço-temporal”. O efeito deste fenômeno é ainda mais explícito em instalações imersivas, como as salas de cinema. “Elas foram pensadas como propostas instalativas. Você entra naquele lugar, suspende-se espaço-temporalmente e sai sentindo que algo aconteceu", afirma Keyna.

Dan Lie, vista de “Outres”, 2023, 35ª Bienal de São Paulo - coreografias do impossível, São Paulo. © Cortesia artista e 35ª Bienal de São Paulo

Detalhe de “Outres”, 2023, 35ª Bienal de São Paulo - coreografias do impossível, São Paulo. © Cortesia artista e 35ª Bienal de São Paulo
A instalação age em uma percepção de suspensão espaço-temporal
— Keyna Eleison
Dan Lie, cujas instalações destacam os ciclos naturais de transformação, como vida, morte e decomposição, demonstra como a esfera espaço-temporal ocupa o centro do processo de criação de uma obra instalativa: "Artistas que trabalham com instalação refletem sobre diversas dimensões, pois tem que pensar tempo, espaço e consciência. O espaço expositivo acaba se tornando um lugar de decisão criativa, como num ateliê. É muito comum, quando estou instalando um elemento na obra, eu correr pelo espaço, pois preciso observar de diferentes pontos de vista até encontrar a posição final – faço isso, pois a instalação pode ser percebida por muitas perspectivas – é uma percepção expandida", diz. Ao trabalhar com bactérias, fungos, plantas, animais e minerais, Dan Lie reforça mais um aspecto dessa linguagem: o caráter multimídia que permite o uso de diversos materiais, suportes e técnicas em diferentes tamanhos.
Apesar de concebidas em grandes formatos, as obras de Dan Lie envolvem seres microscópicos e, assim, apontam para um fator crucial que caracteriza a prática instalativa: sua capacidade de redefinir a forma como percebemos dimensões corporais. Susan Stewart, crítica estadunidense, mostrou, no livro “On Longing” (1984), como o corpo humano se “agiganta” na relação com miniaturas e, no sentido inverso, “miniaturiza-se” ao se deparar com objetos gigantes. É exatamente essa ideia de elasticidade que também é posta à prova pela instalação em sua relação com o observador.
O pesquisador Caio Meirelles Aguiar nota como, de uma vez, a instalação é capaz de mobilizar a elasticidade corporal e espaço-temporal. Para ele, “a instalação é completada pelo espectador e o faz sentir com o corpo inteiro. Ela causa uma tensão que te leva a pensar sobre você e seus limites e, por isso, exige um engajamento físico e de tempo muito específico”.
Dan Lie, stills do vídeo “Unnamed Entities” produzido pelo New Museum, 2022. ©️ Cortesia artista/New Museum
Instalação artística e o entorno
Não por acaso a prática instalativa ganhou força a partir dos anos 1960. Artistas do período, aversos a técnicas e suportes tradicionais, viram na instalação uma aposta crítica ao mercado e um apelo à democratização da arte. Essa ideia que associa obras instalativas a uma noção de maior acessibilidade continua a guiar instituições de arte e suas decisões curatoriais. Ricardo Pessôa de Queiroz conta como esse pressuposto o orientou durante a idealização da Usina de Arte, criada em 2015: “Queríamos obras que pudessem estar acessíveis à passagem de qualquer pessoa e evitar a armadilha dos pavilhões que intimidam muitos dos visitantes. Queríamos a arte inserida no meio natural”.

Juliana Notari, vista de “Diva”, 2020, Usina de Arte, Água Preta, Pernambuco. © Divulgação

Detalhe de “Diva”, 2020, Usina de Arte, Água Preta, Pernambuco. © Divulgação
No espaço urbano, a instalação mostra a capacidade da arte de bagunçar o cotidiano
— Caio Meirelles Aguiar
A fala de Queiroz enfatiza outro tópico importante que caracteriza a arte instalativa. Dada a sua materialidade e dimensões diversas, muitas instalações podem ser executadas em espaços públicos, libertando a obra de arte dos ambientes tradicionais de fruição estética. Caio Meirelles revela como a presença da instalação pode interferir na vida cotidiana de diferentes modos a depender do local onde é exibida: “Em contextos de galerias e bienais, o visitante sabe que está entrando num espaço de exibição. Isso muda no espaço da rua, que envolve o inesperado. No espaço urbano, a instalação mostra a capacidade da arte de bagunçar o cotidiano".
Esse “chacoalhão” realizado pela instalação na vida cotidiana é consequência da já mencionada “nova” espacialidade que ela consegue criar. Soma-se a isso o seu poder de inserir, na banalidade do dia a dia, o lúdico e a imaginação próprios da arte. Ao descrever a atuação da Usina de Arte na vida da comunidade, Queiroz destaca: “O grande papel daquilo que propomos na Usina é de translocar o observador para um outro universo, e, junto com isso, trazer reflexões para discutir certas verdades estabelecidas”.
Yan Catuaba integra a equipe de Comunicação da SP-Arte. É bacharel e licenciado em História pela USP e pesquisador nas áreas de Cultura Material e Cultura Visual.