Como reexibir uma instalação?

Caio Meirelles Aguiar
24 abr 2025
Acima: Jonas Van & Juno B., still do vídeo Visage, 2024, financiado por Pro Helvetia, coleção dos artistas. Foto: divulgação
A preservação de instalações sempre foi um tema que assombra a arte contemporânea. Afinal, passados anos da primeira apresentação de um projeto, como reexibir uma grande instalação sem diminuir sua potência original e contexto de época? Uma coisa é certa, enquanto grandes montagens organizadas em torno de obras escultóricas, objetos e pinturas tendem a preservar seu primeiro desenho – situação que leva curadores e produtores a infindáveis pesquisas por materiais que possam “reproduzir o original” – artistas mais próximos do vídeo parecem na verdade incorporar a possibilidade de novas configurações como algo interessante ao trabalho. Conversando com artistas presentes em exposições recentemente organizadas em São Paulo – Anna Bella Geiger, a dupla Jonas Van & Juno B e Mayana Redin – especulamos algumas razões do porque isso acontece.

Anna Bella Geiger, Circumambulatio, MAC-USP, 1972/2024, cortesia da artista e Mendes Wood DM, São Paulo, Brussels, Paris, New York. Foto: EstudioEmObra
Em cartaz até julho deste ano no Museu de Arte Contemporânea da USP com a instalação Circumambulatio (1972) e, até fevereiro passado, na galeria Mendes Wood DM com Mesa, friso e vídeo macios (1981), Anna Bella Geiger iniciou sua produção em torno da gravura em metal e desenhos a guache. A partir da década de 1970, no entanto, sua produção assume um caráter experimental que a aproxima do vídeo. Questionada sobre se essas novas montagens sucedem em manter viva a potência dos trabalhos, Geiger aborda primeiro Circumambulatio: “na primeira montagem do MAM Rio de Janeiro, em 1972, os painéis não eram curvos… mas os organizei em formato espiral, de acordo com as ideias propostas pelo trabalho. Agora, no MAC USP, a montagem ficou mais reta, em corredores… de onde ocorreu a eles fazer assim, acredito que por serem ‘pesquisadores’, um olhar que vem da reserva técnica… talvez vejam a montagem como uma evidência do meu trabalho trazida para a atualidade”, conta.
O trabalho em questão, uma grande instalação que reúne vídeo, textos e imagens sobre a tendência humana de se organizar (no nível social e psíquico) em torno de um ponto de referência identificado com centro, foi adquirido em 1972 por Walter Zanini – naquele momento, diretor do MAC USP – exibido apenas uma vez no museu em 1973 e, apenas agora, apresentado novamente ao público. Mesmo se mostrando aberta à adaptações e novos contextos, o comentário feito por Anna Bella Geiger joga luz sobre como a apresentação de trabalhos históricos pode, muitas vezes, parecer confinada à uma “disposição de arquivo”, onde o público parece ser exposto a evidências de uma obra realizada no passado, e não a um trabalho cuja voz e conteúdo ainda se mantém ativos hoje.

Anna Bella Geiger, cartaz da instalação Mesa, friso e vídeo macios, 1981, na XVI Bienal de São Paulo, 1981, cortesia da artista e Mendes Wood DM, São Paulo, Brussels, Paris, New York, coleção da artista. Foto: divulgação
Mesa, friso e vídeo macios (1981), por outro lado, se mantém mais fiel à montagem realizada originalmente na XVI Bienal de São Paulo. Em uma sala escura, uma grande mesa e dois frisos de parede – todos recobertos por um estofado estampado com manchas e camuflagens esverdeadas – são acompanhados por duas TVs de tubo modernas que exibem imagens das próprias estampas que encontramos na sala. Vistas na tela e acompanhadas por estrondos semelhantes à bombardeios, as estampas se confundem com territórios indefinidos, selvas tropicais em guerra e até mesmo abstrações do mapa nacional em desconstrução. Quando questionada se faria sentido substituir os monitores de tubo por telas planas, ela respondeu: “exibir em telas planas seria muito estranho… na instalação ‘Mesa, friso e vídeo macios’ eu atribuí a ideia da maciez, o que tinha a ver também com as telas arredondadas, essas superfícies macias”.

Anna Bella Geiger, Mesa, friso e vídeo macios, 1981, cortesia da artista e Mendes Wood DM, São Paulo, Brussels, Paris, New York. Foto: Gui Gomes
Mesmo sabendo que ver hoje um televisor de tubo em exposição não provoca no visitante as mesmas impressões do que em 1981 – quando estes eram itens do cotidiano doméstico, algo familiar, e não um dispositivo museológico – a artista aceita o uso das “novas TVs antigas” (os cubos negros que se tornaram padrão em montagens mundo afora) em prol da relação formal com o restante dos itens que compõe o trabalho.
Se a primeira geração de artistas brasileiros a experimentar com o vídeo – na qual está incluída Anna Bella Geiger, além de Sônia Andrade, Carmela Gross, Antonio Dias, entre outros – é vista por críticos e curadores não exatamente como videomakers por excelência, mas como artistas que naquele tempo flertavam com um novo suporte que poderia ajudá-los a romper com as práticas estabelecidas, cinco décadas depois é fascinante olhar para o cenário da videoarte brasileira e perceber um procedimento inverso: artistas nascidos na era das telas hoje partem do vídeo para expandir suas possibilidades em direção ao espaço, outros formatos e linguagens.
Por meio de filmes, objetos e instalações imersivas, Jonas Van e Juno B. são artistas que trabalham questões linguísticas, espirituais e históricas, assim como a transmutação entre corpos, fenômeno perceptível inclusive na variedade de suportes utilizados para suas obras conjuntas. Visage (2024) é uma instalação multimídia composta por vídeo, esculturas e mobiliário produzido sob medida para o 38º Panorama da Arte Brasileira do MAM São Paulo. O início de tudo, segundo Juno, se dá pelo vídeo como linguagem que garante suporte a diferentes preocupações. “Poesia, imagem e som, tudo isso unido pelo vídeo: acho que é esse o poder inicial dos trabalhos”, afirma Juno B.

Jonas Van & Juno B., Visage, 2024, financiado por Pro Helvetia, coleção dos artistas. Foto: divulgação
Jonas prossegue: “Visage, como Juno falou, surge a partir do vídeo e a gente expande essa pesquisa para o espaço, uma resposta à arquitetura disponível… e é muito interessante pensar a partir daí a questão sensorial que a gente tenta trazer para o público na instalação como um todo. Já que estamos pensando em produzir uma resposta por parte do público, precisamos então de muito mais do que imagens.”

Jonas Van & Juno B., Visage, 2024, financiado por Pro Helvetia, coleção dos artistas. Foto: divulgação

Jonas Van & Juno B., Visage, 2024, financiado por Pro Helvetia, coleção dos artistas. Foto: divulgação
Se o vídeo presente na instalação – uma complexa fantasia onde é elaborada a possibilidade de viagem no tempo através do próprio corpo – se expande para o espaço fazendo com que o visitante se sinta dentro da cabine de uma máquina do tempo, poderia ele ser exibido sem o restante dos objetos que compõe a instalação?
Para Jonas Van, “a instalação foi comissionada pelo Panorama mas o vídeo funcionaria sozinho dependendo do convite para outro espaço”. “No caso do Visage, seria um certo quebra-cabeça, temos muitos elementos ali, mas fizemos estudos antes de chegar naquele lugar, então existem sim outras possibilidades para o trabalho… sempre há uma nova possibilidade, de acordo com o espaço e a proposta”, diz Juno B.
Os comentários da dupla deixam claro como não há, para eles, uma forma definitiva para este trabalho, mas diferentes manifestações. A sua dimensão, além da quantidade de elementos escultóricos que complementam o vídeo, variam com o espaço e possibilidades de diálogo com a curadoria.
A artista Mayana Redin relata ter uma visão semelhante para seu trabalho. Astronauta e Cosmonauta, (2016-2023) foi exibida pela primeira vez como vídeo-instalação em 2023 na 22ª Bienal SESC Videobrasil. Na ocasião, os vídeos que deram origem ao trabalho – uma edição de imagens que aproxima a norte-americana Christa McAuliffe e a russa Valentina Tereshkova, assim como o contexto da corrida espacial em que ambas se inserem – eram acompanhados por outras quatro esculturas da artista. Apesar de terem sido produzidas especificamente para a ocasião, e serem relacionadas à narrativa dos vídeos, Mayana via essas peças como obras de vida própria que poderiam ser exibidas separadamente.

Mayana Redin, Astronauta e Cosmonauta, 2016-2023, 22ª Bienal SESC Videobrasil, São Paulo. Foto: Julia Thompson
Foi essa autonomia entre os elementos da instalação que levou Mayana, em diálogo com a curadoria, a propor para a Pina Contemporânea uma nova montagem em que a vídeo-instalação estivesse mais integrada. Em cartaz até 27 de abril de 2025, a coletiva Era uma vez: visões do céu e da terra agora apresenta Astronauta e Cosmonauta com um novo volume escultórico que flutua acima dos dois monitores de vídeo. “Na Pina Contemporânea, as curadoras me propuseram que eu integrasse mais a escultura ao trabalho. Comecei então a pensar sobre isso, como seria a transformação, sair de uma montagem anterior em que as partes eram facilmente identificáveis e agora inserir algo que garantisse maior unidade ao trabalho como um todo. O que fiz então foi pensar um diálogo com a base onde estão os monitores, um rebatimento espelhado. Essa nova dinâmica me levou a pensar mais a ideia de verticalidade para essa nova montagem”, conta Mayana Redin.

Mayana Redin, Astronauta e Cosmonauta, 2016-2023, Era uma vez: visões do céu e da terra. Pina Contemporânea, São Paulo. Foto: Isabella Matheus
O local selecionado para a montagem na Pina Contemporânea, um nicho alto e estreito, se difere muito da horizontalidade do salão principal do SESC 24 de Maio, onde foi apresentada a Bienal Videobrasil. O resultado, de acordo com a artista, foi uma maior interação sensorial entre visitantes e a obra. O novo volume, semelhante à uma escotilha ou janela para um céu estrelado, agora se integra conceitualmente à narrativa e ao contexto histórico do vídeo. Os visitantes agora não olham mais para os objetos em torno do vídeo como elementos diferentes à assimilar, mas sim como um escape complementar, um dispositivo que expande a experiência física de estar presente junto ao vídeo. O fato de que a obra será agora incorporada à coleção da Pinacoteca inicia um novo processo: artista e instituição deverão se reunir e definir juntas protocolos de montagem que possam dar conta do registro de elementos essenciais, ao mesmo tempo em que deixam espaço para adaptação da instalação a novos espaços e contextos.
Pensando nas obras e contextos de exposição apresentados aqui, seria possível afirmar que é exatamente a liberdade formal da qual o vídeo hoje desfruta que permite à artistas não mais restringir suas instalações a uma montagem estabelecida e imutável? Monocanal, multitelas, projeções, streaming, games, GPS, smartphones, painéis de LED, etc – mesmo que não se utilizem de todos esses aparatos, é notável pelos depoimentos registrados aqui como artistas relacionados ao vídeo se preocupam mais com a experiência provocada pelo encontro de imagens com o espaço do que com a rigidez de supostas “montagens originais”. Além disso, é importante perceber como convites para exposições institucionais – geralmente com mais verba, tempo e espaço – ainda atuam como verdadeiros portais para a experimentação artística, independente da idade ou geração do artista.
Agradecimentos: Anna Bella Geiger, Jonas Van & Juno B, Mayana Redin, Laura Jabur (Mendes Wood DM) e Santarosa Barreto.
Caio Meirelles Aguiar é arquiteto, pós-graduado em crítica/curadoria e mestre em museologia. Além de desenvolver projetos relacionados à gestão e exposição de acervos artísticos e documentais, organiza cursos, escreve sobre arte contemporânea e é músico e fotógrafo de fim-de-semana.