A cerâmica no mercado de arte

cover image

Andrés Hernandéz

24 jan 2025

Acima: Público no estande da galeria Carmo Johnson na feira Rotas em 2024. Foto: divulgação SP-Arte

e-mail icone-mail icon

Durante minha visita à última edição de Rotas Brasileiras, feira de arte promovida pela SP–Arte em agosto de 2024 na Arca, em São Paulo, fiquei impressionado e feliz pela representatividade da cerâmica em muitos dos estandes, deixando em evidência a crescente valorização desta técnica.


A cerâmica é de vital importância na sustentação, preservação e conhecimento da espécie humana. Várias, senão todas, civilizações a têm utilizado com um ou mais fins de sobrevivência, domínio e fixação cultural. A riqueza plural das cerâmicas indígenas, em particular da América Latina, como aquelas das regiões que hoje ocupam países como México, Peru, Guatemala e Brasil tem desdobramentos na contemporaneidade, na vida e na arte. Nesse rol também estão inseridas as produções com raízes africanas e as escolas árabe, portuguesa e asiática.

Pablo Picasso, "Visage no. 192 (A.R. 492)", 1963. Foto: Christie’s

Pablo Picasso, "Visage no. 192 (A.R. 492)", 1963. Foto: Christie’s

Pablo Picasso, "Visage au nez noir (A.R. 609)", 1969. Foto: Christie’s

Pablo Picasso, "Visage au nez noir (A.R. 609)", 1969. Foto: Christie’s

Na arte não é diferente. Muitos movimentos, estilos ou escolas artísticas têm a cerâmica como componente classificatório e definidor de suas particularidades, a exemplo de Wifredo Lam, Victor Brecheret e Pablo Picasso.


Tendo tido contato com a cerâmica em Cuba, onde há uma valorização da modalidade no ensino e nas instituições de arte, incluindo a Bienal de Havana, e minhas referências lá adquiridas foram enriquecidas e projetadas no Brasil em exposições e na passagem pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo e pela galeria Luciana Brito. Isto antes da publicação Transgressões Cerâmicas Brasil, em 2021, durante meu período como curador do Subsolo – Laboratório de Arte em Campinas, de 2018 a 2023, e que ativou a inserção da cerâmica no universo artístico brasileiro.

Vista de "ARtérias na ceRÂmica" na galeria Andrea Rehder em 2022. Foto: Raul Fonseca

Vista de "ARtérias na ceRÂmica" na galeria Andrea Rehder em 2022. Foto: Raul Fonseca

A instituição independente funcionou como um verdadeiro laboratório artístico, organizando diversas exposições, cursos, palestras, vídeos e workshops, colocando a cerâmica e seus processos – tanto como utilitário quanto como obra de arte – no centro das discussões. O livro possibilitou, ao ser a primeira publicação com esse viés no país, provocar e fortalecer discussões sobre a inserção da cerâmica como modalidade artística contemporânea no circuito artístico, no mercado de arte e nas instituições acadêmicas. Da publicação desdobraram-se convites para realizar várias exposições, como a da Truth Gym Gallery no Canadá em 2023, e projetos em espaços independentes e na galeria Andrea Rehder em São Paulo – parceira incondicional nesta empreitada.


Nesta galeria, a exposição ARtérias na ceRÂmica, em novembro de 2022, com a participação de artistas de diversas regiões do Brasil, sob minha curadoria, constituiu-se como um marco nas discussões sobre o/a partir do mercado. Política da arte e arte política inseridas neste contexto com várias modalidades artísticas contemporâneas irradiando. Após a exposição, os artistas Regina Dutra, Antonio Pulquério e Sheila Ortega passaram a ser representados pela galeria.

Obra de Megumi Yuasa em sua exposição invididual na Gomide&Co em 2024. Foto: Ruy Teixeira

Obra de Megumi Yuasa em sua exposição invididual na Gomide&Co em 2024. Foto: Ruy Teixeira

Vista da exposição individual de Megumi Yuasa na Gomide&Co em 2024. Foto: Ruy Teixeira

Vista da exposição individual de Megumi Yuasa na Gomide&Co em 2024. Foto: Ruy Teixeira

Aproveito e cito aqui alguns exemplos de exposições recentes de galerias com artistas que têm a cerâmica em sua pesquisa artística. Em 2022, a galeria Luisa Strina abriu a exposição individual A Estatura da Liberdade, em que Jorge Macchi apresentou uma obra em cerâmica. Em 2023, destaque para Mar Interno, de Regina Dutra e Alessandra Rehder, e Terra e Fogo, Água e Ar – das memórias que transbordam, de Antonio Pulquério, na galeria Andrea Rehder. Na galeria Janaina Torres a coletiva Entroncamento contou com obras de Paula Juchem e curadoria de Agnaldo Farias (2023).

Exposição "Entroncamento" na galeria Janaina Torres em 2023. Foto: Filipe Berndt

Exposição "Entroncamento" na galeria Janaina Torres em 2023. Foto: Filipe Berndt

Em 2024, na galeria Andrea Rehder: Abismo, de Rodrigo Pedrosa, com curadoria de Rafael Fortes Peixoto. No mesmo ano, a galeria Luis Maluf recebeu Oceano Febril, individual de Licida Vidal com curadoria de Thais Rivitti. Obras da artista também estiveram na coletiva de comemoração dos 10 anos da casa, com curadoria de Ana Carolina Ralston.

Obra de Licida Vidal na exposição "Oceano Febril" na galeria Luis Maluf em 2024. Foto: Divulgação

Obra de Licida Vidal na exposição "Oceano Febril" na galeria Luis Maluf em 2024. Foto: Divulgação

Também em 2024, no galpão da Fortes D’Aloia & Gabriel em São Paulo, Tatiana Chalhoub apresentou sua exposição individual Romper o dia, crack of dawn. Já na Millan, Lidia Lisbôa exibiu seus têxteis, desenhos e cerâmicas. A Gomide&Co realizou a individual de Megumi Yuasa e, atualmente, representa os artistas Julia Isidrez (que esteve na Bienal de Veneza de 2024), Shoko Suzuki, Maria Lira e Francisco Brennand por meio do espólio Oficina Brennand. A galeria Vermelho organizou a exposição Mudança Elementar de Ximena Garrido-Lecca. Em sua sede em São Paulo, a galeria Luciana Brito apresentou Héctor Zamora com As Circunstâncias (2023), Gabriela Machado com Cadê o Abre Alas (2024) e Estúdio Campana com Eu Escuto (2024). Já a galeria Marília Razuk escolheu obras de Seba Calfuqueo para a Art Basel Miami Beach em 2024.

A artista Julia Isidrez, representada pela galeria Gomide&Co. Foto: Fernando Allen

A artista Julia Isidrez, representada pela galeria Gomide&Co. Foto: Fernando Allen

Julia Isidrez na Bienal de Veneza 2024, curada pelo brasileiro Adriano Pedrosa. Foto: Ding Musa

Julia Isidrez na Bienal de Veneza 2024, curada pelo brasileiro Adriano Pedrosa. Foto: Ding Musa

Ressalto que aqui estão somente algumas galerias, entre tantas, que expuseram obras de artistas que pesquisam a cerâmica ou que representam artistas que abordam esse tipo de pesquisa.


Com a convicção de que é possível, a partir da arte, potencializar a instrução e a educação, sobretudo a educação transdisciplinar, surge a provocação da publicação Cerâmica & interseções: obras comentadas, contando com a participação de profissionais do México, Canadá, Cuba, Argentina e Estados Unidos. Trata-se da primeira publicação no Brasil em que a arte é avaliada nas suas relações e reverberações interdisciplinares tendo a cerâmica como pretexto e/ou fundamento formal e conceitual. O livro encontra-se na fase de captação de recursos para a sua impressão.

A artista Maria Lira Marques, representada pela galeria Gomide&Co. Foto: Gabriela Portilho

A artista Maria Lira Marques, representada pela galeria Gomide&Co. Foto: Gabriela Portilho

Maria Lira Marques, "Untitled", 2016. Foto: Edouard Fraipont

Maria Lira Marques, "Untitled", 2016. Foto: Edouard Fraipont

Não se pretende colocar Cerâmica & interseções como “a” publicação sobre o tema, mas alertar sobre a urgência de uma pesquisa abrangente sobre a cerâmica no Brasil e a necessidade de apoio financeiro para esse propósito, pelo entendimento da riqueza das cerâmicas indígena, afrodescendente, asiática e outras. Pretende-se ressaltar e validar com a publicação a importância da cerâmica em relação a outras modalidades e técnicas artísticas, assim como o caráter interdisciplinar desta técnica.

Na Art Basel Hong Kong de 2024, as galerias Gomide&Co e Almeida&Dale apresentaram um diálogo entre pinturas de Chen Kong Fang e cerâmicas Shoko Suzuki. Foto: divulgação

Na Art Basel Hong Kong de 2024, as galerias Gomide&Co e Almeida&Dale apresentaram um diálogo entre pinturas de Chen Kong Fang e cerâmicas Shoko Suzuki. Foto: divulgação

Composta por cinco núcleos, a publicação possui ensaios com imagens de cerâmica indígena, cerâmica afrodescendente e a participação de artistas como Regina Silveira, Rochelle Costi, Kimi Nii, Julia IsIdrez e Regina Dutra. Ao mesmo tempo, textos inéditos propõem uma relação panorâmica de suas áreas de atuação com a cerâmica. Bons exemplos são a matemática, química, curadoria e a arqueologia.

Lidia Lisbôa, "Sem título (da série Cupinzeiros)", 2024. Foto: Julia Thompson

Lidia Lisbôa, "Sem título (da série Cupinzeiros)", 2024. Foto: Julia Thompson

O objetivo é disponibilizar uma publicação consistente, tensionadora e diversificada, conectada a outras modalidades artísticas contemporâneas que sejam referência para revisitar, por exemplo, a história da humanidade com abordagens sociais, políticas, de gênero, ecologia e preservação ambiental, mercado de arte, identidades cuxlturais individuais e coletivas. A publicação faz parte das convicções de que é possível fazer e se desafiar, expandir as discussões e inserções descentralizadas; reconhecer o mercado de arte como constituinte e sólido disseminador no sistema da arte; descentralizar e correr riscos sem deixar de alertar sobre a necessidade de apoio da estrutura de entidades públicas e privadas que acreditem e fomentem a educação a partir da arte e a instrução sem oportunismos e intermitências de abordagens temporais.

Francisco Brennand, "Floral com pássaros", 1972. Foto: Hesíodo Góes/Oficina Francisco Brennand

Francisco Brennand, "Floral com pássaros", 1972. Foto: Hesíodo Góes/Oficina Francisco Brennand