7 perguntas para Bonaventure Soh Bejeng Ndikung

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Gabriela Valdanha

02 set 2025

Acima: Retrato de Bonaventure Soh Bejeng Ndikung. © Jana Edisonga / Fundação Bienal de São Paulo

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Abre neste sábado, dia 6 de setembro, a 36ª Bienal de São Paulo intitulada “Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática”. O curador geral Bonaventure Soh Bejeng Ndikung respondeu às perguntas da SP-Arte sobre a edição deste ano, sobre arte brasileira e sobre como ele encontra sua própria calma e seu silêncio. A equipe curatorial é formada também por Alya Sebti, Anna Roberta Goetz e Thiago de Paula Souza, além da cocuradora at large Keyna Eleison e da consultora de comunicação e estratégia Henriette Gallus.


Bonaventure nasceu em 1977 em Yaoundé, Camarões, e mudou-se para Berlim, Alemanha, em 1997. Lá, fez doutorado em biotecnologia médica e, na França, pós-doutorado em biofísica. É fundador do Savvy Contemporary - The Laboratory of Form-Ideas, do qual foi diretor artístico de 2009 a 2022. Participou da curadoria da documenta 14 em 2017, do Pavilhão Finlandês na Bienal de Veneza em 2019 e foi membro do júri desta última em 2022.


A Bienal de São Paulo vai até 11 de janeiro de 2026.


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Equipe conceitual da 36ª Bienal de São Paulo, da esq. para a dir.: Keyna Eleison, Alya Sebti, Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, Henriette Gallus, Anna Roberta Goetz e Thiago de Paula Souza. © João Medeiros / Fundação Bienal de São Paulo

Equipe conceitual da 36ª Bienal de São Paulo, da esq. para a dir.: Keyna Eleison, Alya Sebti, Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, Henriette Gallus, Anna Roberta Goetz e Thiago de Paula Souza. © João Medeiros / Fundação Bienal de São Paulo

Qual foi a provocação que levou ao tema deste ano e a formulação dos eixos temáticos?

Fui convidado pelo time da Bienal para apresentar uma proposta. E, ao observar tudo o que está acontecendo no mundo, tudo o que tem ocorrido nos últimos anos, tornou-se muito claro para mim que a humanidade está passando por uma crise muito profunda. E a questão era: o que poderíamos fazer para enfrentar essa crise? Não é algo novo, mas acredito que cada geração precisa tirar um tempo, respirar fundo e repensar o que significa ser humano e o que significa conjugar "humanidade". Assim, a proposta era convidar artistas que pensassem conosco sobre a humanidade como um verbo.

Aline Baiana, still de "Ouro negro é a gente", 2025. © Cortesia da artista

Aline Baiana, still de "Ouro negro é a gente", 2025. © Cortesia da artista

Aislan Pankararu, " É a Bahia, porra!". © Estúdio em Obra

Aislan Pankararu, " É a Bahia, porra!". © Estúdio em Obra

Resumindo, a exposição está dividida em três grandes partes: a necessidade de viver o presente, a relação com o outro (humanos e não-humanos), e o peso histórico do capitalismo e das estruturas de poder. Como os artistas presentes nos ajudarão a refletir sobre esses tópicos?


Acredito que estamos lidando com muitos outros tópicos na proposta conceitual. Um ponto de entrada é por meio do poema de Conceição Evaristo, “da calma e do silêncio”, que dá título à exposição: "Nem todo viandante anda estradas". E a partir dele estamos pensando em diferentes possibilidades, nos diferentes caminhos que um humano pode tomar. Se esse caminho que decidimos trilhar não é o certo, o que claramente não é, que outros caminhos podemos seguir e como os encontramos? Como ter acesso a eles? Conceição Evaristo diz que é por meio do silêncio da poesia que podemos penetrar esses mundos submersos. Então estamos tentando encontrar o silêncio da poesia.


O segundo ponto de entrada é por meio de um poema de René Depestre, que começa com palavras muito enigmáticas: "Minha alegria é reconhecer que eu sou você e você sou eu", parafraseando-o. E então estamos pensando sobre o fato de que minha humanidade é contingente à sua e a sua à minha. Estamos pensando sobre nossa relação com outros seres humanos no mundo, vivos e não vivos: pedras, árvores, plantas, ar e assim por diante.


O terceiro ponto de entrada é baseado em um texto de Patrick Chamoiseau e Édouard Glissant. E lá há uma afirmação sobre a profundidade do Atlântico, mas também sobre como construímos futuros possíveis. Eles escrevem sobre a beleza intratável do mundo. E ela serve como uma metáfora para encruzilhadas, onde falam sobre os estuários, sobre a possibilidade de águas doces encontrarem águas salgadas, e sobre o que acontece nessas encruzilhadas, o que acontece quando a humanidade se encontra, encontra outros seres humanos mas também outros seres no mundo. Então estamos pensando sobre essa beleza intratável porque beleza é política.


Esses são três tipos de fragmentos que estamos observando no início, mas a exposição em si vai muito além disso. A distribuição em si é, sabe, construída como um fractal. O todo está na unidade e a unidade está no todo, então se desdobra como um próprio estuário, como quando um rio deságua no mar, todos esses ramos que se desprendem do rio.

Antonio Társis, detalhe de obra sem título, 2024. © Damian Griffiths / Cortesia do artista; Carlos/Ishikawa, Londres; e Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo

Antonio Társis, detalhe de obra sem título, 2024. © Damian Griffiths / Cortesia do artista; Carlos/Ishikawa, Londres; e Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo

Ana Raylander Mártis dos Anjos, vista de "Tobacco studies" na galeria Luis Maluf, 2024. © Estúdio em Obra/cortesia da artista

Ana Raylander Mártis dos Anjos, vista de "Tobacco studies" na galeria Luis Maluf, 2024. © Estúdio em Obra/cortesia da artista

Você estava falando sobre humanidade. Quais são as nossas possibilidades de futuro e qual o papel da arte nisso?

Como seres humanos, se continuarmos nesse caminho, estamos condenados à extinção. Se continuarmos destruindo o meio ambiente como estamos fazendo, certamente vamos fracassar, porque precisamos desse ambiente para sobreviver. Quando vemos todos os deslizamentos de terra e os diversos desastres ambientais causados pelo próprio homem, fica claro que nosso futuro não é nada promissor. Mas agora a pergunta é: quem tem o privilégio de se desesperar? Nós não temos. Então, precisamos encontrar uma solução diferente. E é por isso que queremos explorar outros caminhos. Queremos pensar em outras trajetórias que os seres humanos podem seguir para evitar um futuro tão sombrio. Queremos pensar na construção de um futuro melhor. É por isso que fazemos o que fazemos. E, obviamente, a arte desempenha um papel fundamental nisso. Como James Baldwin diz em seus textos seminais sobre o processo criativo: é claro que precisamos construir estradas e hospitais, mas também precisamos fazer arte. Isso é comida para a alma, mas também uma possibilidade de abrir caminhos. Baldwin, por exemplo, diz que o papel do artista é fazer perguntas, sabendo que as respostas já existem. Então, precisamos encontrar maneiras de fazer essas perguntas e de fazer as perguntas certas.

Moisés Patrício, série "Brasilidades", 2019. © Cortesia do artista

Moisés Patrício, série "Brasilidades", 2019. © Cortesia do artista

Marlene Almeida, obra em processo para a exposição "Terra agônica", 2025. © Adriano Franco/cortesia da artista

Marlene Almeida, obra em processo para a exposição "Terra agônica", 2025. © Adriano Franco/cortesia da artista

Como o trabalho foi dividido entre a equipe curatorial?

A divisão do trabalho foi baseada no fato de que todos nós adotamos a rota de uma ave e tentamos seguir o percurso dela, para aprender seus padrões, entender as diferentes geografias por onde ela passa, e tentar enxergar o mundo pelos olhos dela. Além disso, tínhamos pessoas cuidando mais de áreas específicas, mas sempre em estreita colaboração, trocando experiências e apoiando umas às outras. Não era uma questão de "esta é minha área" e ninguém deve atravessar.

A questão era: o que poderíamos fazer para enfrentar essa crise da humanidade?

— Bonaventure Soh Bejeng Ndikung

Manauara Clandestina, "Sem título", 2024. © Cortesia da artista

Manauara Clandestina, "Sem título", 2024. © Cortesia da artista

Heitor dos Prazeres, "Sem título", 1959. © Fábio Souza/cortesia MT Projetos de Arte

Heitor dos Prazeres, "Sem título", 1959. © Fábio Souza/cortesia MT Projetos de Arte

Essa é uma questão mais pessoal. O poema de Conceição Evaristo fala sobre calma e silêncio. Como você encontra a sua?

Não tenho encontrado muita calma nesses dias, mas eu tenho muito silêncio interior. E, por meio da poesia, consigo encontrar calma. O poema de René Depestre, por exemplo, me traz muita tranquilidade. Ele me equilibra. É uma coisa linda. E pensar que estamos trabalhando em um tema tão importante também me proporciona, talvez não calma, mas alegria. E essa alegria, por sua vez, me dá calma.

Rebeca Carapiá , "Flutuantes", 2024. © Estúdio em Obra/cortesia da artista e Museu de Arte Moderna de São Paulo

Rebeca Carapiá , "Flutuantes", 2024. © Estúdio em Obra/cortesia da artista e Museu de Arte Moderna de São Paulo

Juliana dos Santos, vista de "Como terminar uma tese: o tempo da cor" no GDA em 2024. © Ana Pigosso/cortesia da artista

Juliana dos Santos, vista de "Como terminar uma tese: o tempo da cor" no GDA em 2024. © Ana Pigosso/cortesia da artista

Sua carreira é notável pela intersecção entre arte e ciência. Quais tipos de diálogo você estabelece entre essas duas áreas?

Acho que não é possível separar esses dois campos. Artes e ciência não podem ser separadas; na verdade, estão totalmente interligadas. Acredito que nós, seres humanos, sempre tentamos separar as coisas para poder controlar melhor, o que também é um dos fatores-chave do capitalismo: achamos que assim conseguiremos ser mais eficientes. Mas, na verdade, todas essas áreas pertencem umas às outras e se enriquecem mutuamente. Meu background como cientista influencia muito o tipo de trabalho artístico e curatorial que tento desenvolver, assim como minha formação como curador me ajuda a compreender a ciência de uma maneira diferente. São perspectivas complementares.

Nós, curadores, adotamos a rota de uma ave e tentamos seguir o percurso dela

— Bonaventure Soh Bejeng Ndikung

Gervane de Paula, "Pantanal", 1994. © Jaime Acioli/cortesia do artista

Gervane de Paula, "Pantanal", 1994. © Jaime Acioli/cortesia do artista

Como estamos no Brasil, gostaria de saber desde quando você vem acompanhando arte brasileira e quais são os artistas que admira?

Não vou indicar um artista específico, mas posso dizer que venho ao Brasil há muitos anos e admiro bastante a arte brasileira, especialmente os modernistas, mas também diversos artistas indígenas, que têm produzido trabalhos incríveis. E, mais importante ainda, os artistas afro-brasileiros que trabalharam no século 20, vocês conhecem bem os nomes, como Rubem Valentim, Abdias Nascimento, Maria Auxiliadora, Heitor dos Prazeres, entre tantos outros. E também há uma nova geração de artistas contemporâneos que acho muito interessante. Não quero fazer uma lista de favoritos, mas o Brasil fez sua contribuição justa para a arte mundial, para a literatura, para a dança e para a música, tudo isso é importante para mim.

Gabriela Valdanha é coordenadora de comunicação da SP-Arte. Jornalista, é mestre em Estudos Culturais pela USP com experiência na área cultural e passagens por Folha de S.Paulo, Masp, Flip e outros.