Reflexões sobre arte, mercado e transparência

23 out 2019, 12h16

Por Caroline Carrion

 

O mundo da arte contemporânea é um mundo codificado. Não são poucos os autores a abordar o tema, mas mesmo sem contato algum com a bibliografia (ou principalmente assim), qualquer não-habitué que se veja em uma exposição ou feira de arte chegará à mesma conclusão, ainda que de forma intuitiva ou não discursiva. Entre a curiosidade e o desprezo (discernível em frases como “meu filho poderia ter feito isso”), em geral o visitante – cujo coletivo assume a forma do “público geral” – sente-se distanciado da produção cultural de seu tempo. Assim, a esfera artístico-cultural, que deveria ser um dos campos aglutinadores da sociedade, vê-se, ao menos nas artes visuais, restrita a iniciados.

Talvez tenha sido uma filósofa, a francesa Anne Cauquelin, quem apresentou a situação atual do sistema das artes de maneira mais clara: “(…) é ainda o continente que prevalece sobre os conteúdos; é a ‘exposição’ que carrega a significação: ‘isto é arte’, e não as obras. É a rede que expõe sua própria mensagem: eis o mundo da arte contemporânea”[1]. Cauquelin distingue a arte moderna da contemporânea a partir de critérios que englobam como a arte circula e é valorada. A passagem entre os dois sistemas equivale para ela à transição entre a sociedade de consumo e à de comunicação. Muito do que foi elaborado na pequena obra de 1992 ainda se aplica à realidade atual do sistema das artes, mas vemos nela uma compreensão às vezes desconectada da realidade do que constitui uma sociedade de comunicação, talvez porque ditada por tudo que essa sociedade prometia, e não pelo que de fato se tornou.

É no âmbito da transparência que isso fica mais claro. É verdade que a autora não se detém extensivamente sobre o assunto, mas as sucintas descrições que oferece parecem-se bastante distantes de nossa realidade hiperconectada: “pois a palavra de ordem da comunicação é a transparência; não se omitem furtivamente as informações, nenhum produtor consegue trabalhar às escondidas”[2]. Em teoria, parece razoável que seja assim, mas 27 anos depois da publicação, transparência é precisamente um dos grandes debates no mundo da arte – particularmente, transparência em relação aos preços das obras.

Por trás do conceito de transparência reside a ideia de igualdade da informação; no entanto, na maneira como está presentemente constituído, o mercado da arte se alimenta da assimetria de acesso a ela. PDFs com preços são uma commodity rara, das quais colecionadores podem orgulhar-se. Na maioria das galerias do mundo ocidental, quando se pergunta o valor de uma obra, é comum receber uma resposta evasiva ou oblíqua – a não ser, claro, que você seja um insider. E mesmo com a proliferação de plataformas digitais de promoção ao colecionismo, em que é razoável a expectativa de encontrar uma cultura de transparência maior, as galerias hesitam em tornar públicos os preços de suas obras.

Poderíamos, aqui, perguntar-nos sobre as razões para essa cultura, mas, mais do que isso, cabe recuar ainda mais e questionar: a quem ela serve? Quando levamos em consideração obras multimilionárias, é fácil entender os interesses por trás da privacidade dos dados (que englobam desde segurança patrimonial até preocupação com impostos ou divórcios litigiosos). Quando quase se pode contar nos dedos as pessoas capazes de comprar certas obras, faz sentido proteger seus interesses. No entanto, essa não é a realidade da maior parte das galerias. De acordo com a pesquisa Art Basel and UBS Global 2019 Art Market Report, conduzida pela economista Clare McAndrew, a maior preocupação para os galeristas, por dois anos consecutivos, tem sido encontrar novos colecionadores.

Apesar do crescimento global de 6% em 2018, 57% dos galeristas observaram um declínio em suas vendas no mesmo ano, de acordo com o relatório. Isso confirma a tendência de concentração de renda observada no mercado na última década, durante a qual o total das vendas aumentou 9%, enquanto o número de obras vendidas diminuiu 9% (em 2018, menos de 5% dos galeristas responderam por 50% das vendas do setor). Simultaneamente, o Online Art Trade Report, publicado anualmente pela seguradora Hiscox e focado no mercado de arte online, aponta que plataformas digitais estão servindo como porta de entrada para novos colecionadores – 23% dos colecionadores millennials afirmam terem realizado sua primeira compra de obra de arte online (um crescimento de 5% em relação ao período anterior).

O que isso tem a ver com a transparência? Em um artigo de agosto de 2019, demonstra-se que mensagens enviadas por usuários da plataforma Artsy às galerias sobre obras cujo preço estão disponíveis têm de quatro a nove vezes mais probabilidade de se converterem em vendas do que aquelas cujos preços estão ocultos. Além disso, trabalhos com preços disponíveis são objeto de apenas 1/6 das mensagens em relação àqueles que não são acompanhados de valor, o que significa uma economia considerável de tempo de trabalho para as galerias.

Tais dados comprovam teorias econômicas que afirmam haver uma relação proporcional entre ao acesso à informação e a probabilidade da conclusão de uma venda. De acordo com o estudo de George A. Akerlof exposto pelo estrategista da Artsy Alexander Forbes no artigo acima citado, em mercados de menos transparência, na melhor das hipóteses, os compradores restringem-se a marcas conhecidas, e na pior, simplesmente, não compram – o que é mais prejudicial às galerias pequenas e médias que às galerias blue chip que dominam o topo do mercado internacional.

Desde a modernidade filosófica, associa-se à arte um aspecto ético, principalmente devido à sua vocação para promover a emancipação humana, que muito frequentemente viu-se em contradição com as condições reais de circulação das obras de arte (não precisamos ir longe – basta lembrar a relação entre arte e manipulação de mercados, evasão de divisas e lavagem de dinheiro apontada por análises dos Panama Papers). A configuração atual da sociedade mostra que, provavelmente pela primeira vez, a transparência a respeito dos preços das obras possa ser benéfica para a maior parte do mercado, não apenas atraindo novos colecionadores, mas também aumentando a sensação de confiança associada a ele – e, quem sabe, diminuindo o distanciamento que o “público geral” sente em relação à cultura de seu tempo, contribuindo para uma integração maior do simbólico em nossas vidas.

 


[1] CAUQUELIN, Anne. Arte contemporânea, uma introdução. São Paulo: Martins, 2005. P. 79.
[2] Idem, p. 75.

Sobre a autora

Caroline Carrion é crítica e curadora. Graduada em Jornalismo e Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), também estudou Management et Communications Intercuturelles na Université Paris IV (Sorbonne), França. Atualmente é coordenadora de comunicação da Fundação Bienal de São Paulo.

 


*Este texto faz parte de uma série de colunas publicadas no site da SP-Arte. As opiniões veiculadas nos artigos de autores convidados não refletem necessariamente a opinião da instituição.