Premiado na SP-Arte/2016, performer Renan Marcondes fala sobre seu trabalho em entrevista

27 jun 2016, 16h20

A SP-Arte apresentou, em sua 11ª edição, no último mês de abril, a segunda edição de seu setor dedicado exclusivamente às performances – uma parceria com o Centro Universitário Belas Artes. Dos dez trabalhos selecionados para apresentações durante a Feira, dois foram premiados: Como um jabuti matou uma onça e fez uma gaita de um de seus ossos, de Renan Marcondes, e Permanência para um encarnado, de Luanna Jimenes.

A performance de Marcondes apresenta a imagem de um corpo masculino subjulgado por um objeto: um sapato laranja cujo salto é uma estaca de 30 centímetros. Impossibilitado de ficar em pé, esse corpo transita lentamente através de uma coreografia que mescla imagens referentes a uma objetificação da mulher.

O artista foi contemplado com dois meses de residência artística no Instituto Sacatar, localizado na Ilha de Itaparica, na Bahia. Nesta entrevista, o performer relembra as apresentações durante a SP-Arte e faz projeções sobre a residência e seus futuros trabalhos. Confira!

 


SP-Arte: Conte-nos um pouco sobre a ideia e conceito de sua performance.

Renan Marcondes: A performance é uma reflexão sobre os lugares existentes entre sujeito e objeto – ou “dominador” e “dominado” – e como esses lugares são sempre transitórios. Grande parte da pesquisa se debruçou sobre a figura do artista Andy Warhol e da feminista radical Valerie Solanas, que tentou matá-lo com três tiros no peito. Para mim, essa situação, assim como as duas figuras, são exemplos desse embate: um artista homossexual e tímido que se torna uma figura absoluta de poder e influência através da aceitação total (ou cínica) de um sistema capitalista e uma mulher radical e idealista que pretende uma interferência direta nesse sistema (através da morte de uma figura que o sintetiza) e acaba presa em um manicômio acusada de loucura. Desse embate vem o desejo de sintetizar em meu corpo algumas contradições dessas figuras, criando um corpo que não direciona nenhum discurso empoderador, mas que se pergunta sobre os lugares de poder. Pode estar ligado ao movimento queer, pelo uso do salto no corpo de um homem, mas esse salto é tão grande e pontudo que o sujeito nada pode fazer além de rolar no chão; pode estar ligado ao feminismo, porém é contraditoriamente um homem reproduzindo alguns gestos e imagens próprios das representações femininas na história da arte; pode ser ligado ao fetiche que impregnamos os objetos, pois o sapato muitas vezes é mais notado que a própria ação corporal…

 

SP-Arte: Essas questões ligadas ao feminismo e o empoderamento das mulheres estão bastante em voga nos últimos tempos. Qual é a importância de tratar desses temas hoje? Pretende dar sequência ao tratamento deles em próximos trabalhos?

RM: Acho essencial o tratamento artístico dado a todos os movimentos de emancipação de minorias, principalmente quando eles se dispõem a não serem reafirmativos, mas sim colocar questões internas ao próprio movimento e suas contradições. Digo isso pois me parece que na arte podemos observá-los sem a necessidade de aplicá-los diretamente – ou seja, desvinculados de sua função política e social. Agora, é importante esclarecer que não é uma questão sobre a qual eu me debruce diretamente na minha produção, mas sim um encaminhamento de uma pesquisa específica. Eu diria que esse trabalho apresentado na SP-Arte passou a dialogar com essas questões a partir das demandas dos materiais que fui encontrando (Valerie Solanas, a Ofélia de Müller, as posições femininas nas pinturas…). Ou seja, quando eu percebi que essas questões haviam surgido, precisei estar atento e cuidadoso para o fato delas estarem sendo incorporadas por um homem, me atentar para o fato delas estarem inseridas em uma problemática maior e perceber que nela estava minha pergunta.

 

SP-Arte: Qual foi a reação do público diante da performance na SP-Arte?

RM: Foi intensa de fluxo e difícil na relação. Estar em um contexto regido pela apreciação e aquisição de objetos sempre requer uma aceitação minha de que meu corpo passa a ocupar no imaginário de grande parte do público o mesmo lugar que uma tela, um champanhe, um livro. A diferença é que a possibilidade de aquisição muda e o tipo de apreensão também. Portanto, grande parte do público passava rapidamente fotografando o sapato e em alguns casos colocando a mão em mim e no sapato ou se perguntando o que poderia ser comprado “daquilo” (modos mais diretos de corresponder ao desejo de apreender ou reter a coisa). Como eu previa que esse tipo de relação mais imediata ocorreria, propus que especificamente na SP-Arte a pessoa que se permitisse parar e observar um tempo receberia o livro que acompanha a obra. Ao receber, pelas mãos da Clarissa Sacchelli (artista colaboradora da obra), uma frase secreta era sussurrada no ouvido dessa pessoa. Essa segunda camada da obra, que interferia na forma coreográfica visível, geralmente permitia que a pessoa ficasse ainda mais tempo em relação comigo. Acredito que a reação variou entre perceber a obra como espetáculo ou como enigma. Acredito também que há um imenso abismo entre esses dois modos de percepção.

 

SP-Arte: Por fim, como pretende aproveitar a Residência artística no Instituto Sacatar?

RM: Estou no início de um novo projeto, que por enquanto se chama A queda. Estou muito movido pela sensação de queda que tenho sentido enquanto brasileiro (queda de imaginários, prédios, instituições, árvores, projetos políticos democráticos…) e quais as relações possíveis com a queda de um corpo e com a ação que a gravidade exerce sobre ele. A partir disso, estou em um processo longo de retraduzir o filme Terra em Transe, de Glauber Rocha – que devo finalizar lá –, e de compor a partitura corporal que estruturará a performance. Mas principalmente desejo perceber como a região onde se situa o Sacatar percebe, comenta e incorpora isso que chamo de “queda”. Penso que haverá uma imensa diferença em relação a São Paulo e isso com certeza afetará a composição coreográfica.