O deslocamento do corpo livre na obra das artistas Musa Michelle Mattiuzzi e Zanele Muholi

7 ago 2019, 10h24

por bianca leite

 

Focar a análise sobre a produção contemporânea da artista Zanele Muholi e o texto crítico da artista Musa Michelle Mattiuzzi sobre seu programa de ação performático leva-nos a trazer para o texto a potência do pensamento da teórica feminista, lésbica e ativista na luta pelos direitos humanos, Audre Lorde. Em uma de suas inúmeras comunicações, a autora nos diz que “a transformação do silêncio em linguagem e em ação é um ato de auto revelação”.[1]  Audre Lorde nos provoca a refletir sobre o papel desempenhado pelos regimes de visibilidade construídos em sociedades de legado escravocrata e de desigualdades raciais acentuadas, salientando que, “neste país em que a diferença racial cria uma constante, ainda que não seja explícita, distorção da visão, nós mulheres Negras temos sido visíveis por um lado, enquanto que por outro nos fizeram invisíveis pela despersonalização do racismo”.

É neste sentido que pensar a articulação das práticas de auto revelação e a produção artística contemporânea de mulheres afrodiaspóricas e africanas perpassa a identificar essa produção como autodeterminada, de acordo com as reflexões de Lorde, de modo que a autodeterminação diz respeito à decisão de definir a si mesmo, de dar nome, nomear, falar por si em vez de ser nomeada e expressada por outros e, sendo assim, representar a si mesma.

As produções das artistas Musa Michelle Mattiuzzi e Zanele Muholi articulam outra ordem de visibilidade. São produções que se constituem como auto reveladas. Elas desafiam o status quo que operam na ordem de um sistema de representação de cunho colonial sob a égide de políticas de dominação em suas expressões racialista, de gênero e sexualidade.  Mattiuzzi e Muholi inscrevem suas produções na perspectiva autodeterminada e auto revelada, pondo em cena outros regimes de representação, operando com a lógica de desorganização dos papéis de visibilidade cristalizados pelo autoritarismo da colonialidade.

Zanele Muholi é uma artista lésbica sul-africana que se autodenomina ativista visual.[2] Utilizando da linguagem da fotografia, Muholi promove seu ativismo visual de forma auto revelada, isto é, torna visível a presença de lésbicas no cenário sul-africano, uma vez em que essa presença é negada, brutalizada e esforçadamente não reconhecida.

Seguindo o pensamento de Audre Lorde no texto “Transformação do silêncio em linguagem e ação”, “no silêncio, cada uma de nós desvia o olhar de seus próprios medos – medo do desprezo, da censura, do julgamento, ou do reconhecimento, do desafio, do aniquilamento”. A produção de Zanele Muholi representa a ruptura com o silêncio. Sua série “Faces and Phases” (2006) traz para a superfície toda a eloquência potente da presença, da voz, do reconhecimento e do corpo lésbico no contexto urbano sul-africano. Seu pensamento estético transborda uma poética circunscrita em primeira pessoa, inaugurando outra possibilidade de reexistir e existir tanto na ordem da representação quanto na ordem da representatividade.

Nesta série, Muholi focaliza os rostos de várias mulheres lésbicas e negras, pondo em cheque discursos hegemônicos que determinaram o lugar da mulher racializada e a negação de suas expressões plurais de sexualidade. Muholi pluraliza o sujeito africano em sua complexidade para além do discurso colonial, acionando o sujeito feminino negro com gênero bem marcado e com a sexualidade amplificada, além de quebrar projeções colonialistas que sempre reduziram as subjetividades dos povos africanos. Ao trazer para primeiro plano a representação de mulheres africanas e lésbicas, em um contexto pós-racismo legalizado[3], que destituiu e restringiu os direitos da maioria negra da população em prol da pequena parcela da população branca, Zanele Muholi imprime em sua arte uma reelaboração das identidades possíveis, dando o tom de que essa subjetividade é digna de ser apresentada e representada. Os retratos de Muholi direcionam o nosso olhar para o real, isto é, para a compreensão da situação sul-africana em relação às práticas persecutórias empreendidas pela prática do estupro corretivo como seu principal instrumento de coerção sexual.

Dessa maneira, sua poética desafia os padrões de normalidade mestra, ou seja, o construto de normal arquitetado a partir da colonização que determinou a branquitude, a heterossexualidade e a valorização do masculino como metáfora de compreensão de cidadania e humanidade e, logo, como os únicos sujeitos considerados adequados de serem representados.

 

[1]  Ver Audre Lorde,”Irmã Extrangeira” (Sister Outsider), Ensaios e Conferências, 1984. Disponível em: http://afroteca.blogspot.com/2013/07/textos-escolhidos-de-audre-lorde.html
[2] Ver entrevista de Zanele Muholi em https://www.cidadaocultura.com.br/nao-sou-fotografa-sou-ativista-visual-zanele-muholi/
[3]  Refere-se ao Sistema de segregação racial institucionalizado em 1948 na África do Sul que perdurou até 1994. Este Sistema privilegiava economicamente, simbolicamente e politicamente a minoria branca do país.


Audre Lorde nos ensina que mesmo temendo a visibilidade e o construto da mesma numa dinâmica que desprivilegia e despersonaliza o sujeito negro, não podemos viver verdadeiramente sem a visibilidade. Ao mesmo tempo em que ela nos torna frágil (representações restritas e congeladas), também tem o poder de nos fortalecer (fazer-se visível, existir sob os nossos termos).

Assim como Muholi na África, a artista Musa Michelle Mattiuzzi em seu texto crítico sobre a performance “Só entro no jogo”[1], realizada em 2013 na cidade de Salvador, traz em sua poética um construto de visibilidade da presença da mulher negra brasileira. Sob a ótica da epistemologia da Capoeira, a performer põe o corpo para jogo. Agora é o corpo feminino negro que joga com a visibilidade, potencializando sua complexa auto revelação. O programa de ação proposto por Mattiuzzi aponta para a percepção e o reconhecimento de um corpo constitutivamente desafiante. Considerando que o corpo feminino negro historicamente é um corpo construído como corpo-maximizado, percebido como representação de restrições e desumanizações e ao mesmo tempo como a possibilidade do desejo.

Mattiuzzi apresenta um corpo feminino negro que é agência, é um corpo da autodeterminação da qual fala Audre Lorde. A presença que a performer instaura no espaço público instiga os transeuntes ao seu redor a interagir de forma provocadora. As ações suscitadas contaminam as respostas geradas por cada participante. Em atitude responsiva, cada participante envolvido pela ação performática vai assumindo um ethos desafiador, como se o público e o corpo da performer se transformassem em um corpo único. Por atitude responsiva chamo as interações e as respostas construídas que os transeuntes vão compondo juntamente com a performer.

Mattiuzzi conforma em seu programa de ações em “Só entro no jogo” aquilo que Audre Lorde aponta como a possibilidade de transformação do silêncio em linguagem e ação como ato de auto revelação, em que a visibilidade também é o locus de fortalecimento. Acrescento que a presença e representação do corpo feminino negro em seus próprios termos de presença valida a autodeterminação de agências negras contra a colonialista, e o espaço estético se configura como uma importante estratégia de reinvenção e reencenação tanto de raça quanto de gênero e sexualidade. Pensar em presença e representação é, antes de mais nada, romper com silêncios impostos e regimes de visibilidades compactadas.

 

[1] Performance apresentada no Festival de Intervenções e Artes do Recôncavo-FIAR 3. 2013.

Sobre a autora

Bianca Leite é artista visual, educadora e pesquisadora lésbica. Atua em exposições e galerias de arte. Pesquisa obras de artistas mulheres e artistas negros dentro da produção contemporânea e História da Arte.