Hilma af Klint e a nova história da arte

14.03.2018 – 11h21

Vez ou outra, passa um furacão que nos faz perceber como a história não é tão linear quanto imaginamos. A descoberta recente da obra da artista sueca Hilma af Klint abalou os pilares da história da arte e gerou incertezas sobre a verdadeira origem do abstracionismo: os trabalhos da artista mostram que ela produzia criações abstratas antes mesmo dos seus grandes mestres. Por aqui, Hilma ganha sua primeira, e merecida, individual, na Pinacoteca do Estado que, para além da polêmica, revela ainda um universo pictórico riquíssimo – e extremamente particular.

“Hilma af Klint: mundos possíveis” reúne 130 trabalhos entre desenhos e pinturas, que segundo o alemão Jochen Volz, diretor da Pinacoteca, “confundem ainda mais o cenário artístico, depois da arte brasileira já ter feito o mundo questionar a visão americana ou europeia sobre a história da arte mundial”. Nascida em 1862, Hilma era uma estudiosa da pintura, filosofia e das religiões, ao mesmo tempo em que era uma exímia matemática e não deixava de lado ciências como biologia, física e geometria. Até os 44 anos, sua produção figurativa demonstrava uma técnica minuciosa e os quadros eram vendidos para um ou outro colecionador. Mas era para a sua produção secreta que a já quadragenária (para o início do século XX ela era considerada quase idosa!) dedicava sua total atenção: ela pintava durante sessões de psicografia. Suas obras mostram hoje que o resultado disso eram pinturas abstratas realizadas antes mesmo dos gigantes Kandinsky, Mondrian e Malevich.



“Em suas anotações, ela diz que não mostrava seus trabalhos porque foi assim que as entidades sugeriram. Mas, claramente, para uma mulher artista da sua época, se ela contasse que sua pintura era resultado de instruções recebidas por espíritos elevados, provavelmente teriam declarado o seu estado como clínico”, conta Jochen, com o entusiasmo de um curador orgulhoso de sua exposição. A discrição também levou Hilma a escrever no testamento que as caixas e rolos contendo suas obras só poderiam ser abertas 20 anos após a sua morte – que veio a acontecer em 1944.

Os 1400 trabalhos e outros 26 mil escritos revelados nos anos 1960 mostram formas orgânicas, as cores e suas correspondências com sentimentos de acordo com um dicionário criado por ela, um léxico de um novo vocabulário, tratados espirituais e filosóficos e até desenhos de átomos que, na época em que foram feitos, ganhavam suas primeiras representações por físicos como Niels Bohr.

Após algumas negativas de museus que não viam relevância na descoberta recente, os sobrinhos de Hilma abriram uma fundação e conseguiram apoio de alguns grupos da Suécia para organizar seu legado. Foi só em 1986 que as chamadas “pinturas automáticas” participaram pela primeira vez de uma mostra – “The Spiritual in Art: Abstract Painting 1850-1985”, no LACMA de Los Angeles. “Em 2013, o MoMA fez uma exposição sobre abstração e espiritualidade e não incluiu Hilma. Para o museu era difícil porque eles teriam que reescrever, ou pelo menos questionar, a história”.



Jochen Volz, porém, já conhecia a produção da sueca há anos. Desde 2000 trabalha com Daniel Birnbaum, diretor do Museu de Arte Moderna de Estocolmo, que lhe mencionou diversas vezes sobre a genialidade da artista. Juntos, os curadores foram responsáveis por eventos como a Bienal de Veneza de 2009 e assinam em parceria a organização da mostra na Pinacoteca.

Para o curador, a série “As dez maiores” é, sem dúvida, grande destaque da exposição. Com mais de 3 metros de altura, as pinturas coloridas e cheias de detalhes representam as fases da vida – infância, juventude, maioridade e velhice – na sala onde se inicia a mostra, com uma montagem de tirar o fôlego. Para criar os quadros que mediam mais do que o dobro da sua altura, Hilma usava andaimes e um número incontável de ovos a fim de produzir suas tintas. Mas a artista não precisou de mais do que quarenta dias para terminar o conjunto.



Hilma fundou o grupo De Fem, ou as cinco, formado por outras quatro mulheres que também estudavam o espiritismo e usavam da psicografia para produzir textos e poemas. “Ela sabia que estava produzindo uma pesquisa e um trabalho para uma futura geração”, explica Jochen. As amigas se encontraram durante 10 anos todas as sextas-feiras e Hilma foi a última a abandonar o grupo. Em “Série II – a série das religiões”, Hilma também expressa seu pensamento sobre o sincretismo religioso e as cosmovisões ao representar oito religiões do mundo desenhando apenas círculos.

“Quem cruza uma vez com ela não a larga mais”, brinca Jochen. Atualmente, só na Suécia estão sendo feitos no mínimo cinco doutorados sobre a artista. No Brasil, a pesquisadora Luciana Ventre – cujo texto integra o catálogo da mostra – também deve lançar uma biografia sobre Hilma nos próximos meses. Agora está garantido: sua produção nunca mais cairá em esquecimento.


Programe-se:

“Hilma af Klint: mundos possíveis”
Pinacoteca de São Paulo
Praça da Luz, 2
Quarta a segunda, 10h às 18h
Até 16 de julho de 2018

 

#respirearte