Andy Warhol: Do outro lado do espelho

08.06.2018 – 11h19

Por Tiago Mesquita
Crítico de arte e professor

 

Andy Warhol produziu incontáveis autorretratos ao longo de sua trajetória. Um dos registros mais antigos é um desenho singelo de 1942. Mais tarde, ele replicou fotografias próprias em suas telas, se inventou em trabalhos feitos para o cinema, multiplicou-se em polaroides e na imagem do vídeo. Também se dedicou com afinco à criação de um personagem de si mesmo que se confunde com a figura da indústria cultural e mais tarde se transformou em uma personalidade da televisão, das revistas de fofoca e colunas sociais.

Parte importante de sua obra foi forjar tal persona. Surgia vestido de peruca, com a pele maquiada, usando frases feitas, trejeitos afetados e humor ferino. Nada parecia espontâneo e natural. O artista na tela e na vida esforçava-se para parecer uma projeção de si mesmo. Aliás, dizia admirar a capacidade das drag queens em recriar trejeitos atribuídos ao gênero oposto. Interessava-se por essa reinvenção da identidade e, mais que isso, pela anulação de qualquer subjetividade.

Por trás de todas essas representações, o homem de carne e osso desaparece. Passamos a lidar com projeções que se sobrepõem umas às outras. Tudo que vemos é uma superfície lisa, gráfica, brilhante e ofuscante. Em uma entrevista para Gretchen Berg, em 1967, o artista disse: “Se você quer saber tudo sobre Andy Warhol, apenas olhe para a superfície das minhas pinturas, dos meus filmes, de mim, lá eu estarei. Não há nada por trás disso” (“If you want to know all about Andy Warhol, just look at the surface: of my paintings and films and me, and there I am. There’s nothing behind it.”, Andy Warhol, 1967).

O retrato para Warhol não é um espaço onde se desvenda uma personalidade, mas o local onde se projeta uma imagem. É a recriação do que ele chamava de “meia-dimensão”. Uma projeção midiática e publicitária dessa persona.

Uma cultura da imagem havia se generalizado naquela época. Esse imaginário serviria de fonte para gerações dali em diante. Lugares distantes do mundo, antes inacessíveis, apareciam nos filmes e na televisão. O público passava a acompanhar narrativas construídas dos amores e infortúnios dos famosos. A vida de astros da música, do cinema, da televisão e do esporte passava a ser contada além das telas, nas revistas. A imagem recriava um reflexo do mundo. Embora parcial, afetava multidões.

Diante dessa nova realidade, Warhol tenta pensar um novo sentido para as artes e o papel do artista. As artes cultas parecem habitar o mesmo circuito do entretenimento e da criação de fetiches e o artista na obra de Warhol é também um mistificador, alguém que cria uma imagem midiática e publicitária de si. É o modo como essa imagem é criada, a fragilidade de sua beleza e de sua promessa que interessam ao artista.



Em 1964, Andy Warhol transfere fotografias do seu rosto para as telas. Nessa época, o artista começa a utilizar fotos produzidas em seu ateliê nas pinturas, tendo abandonado as técnicas tradicionais um pouco antes. Experimentava procedimentos gráficos como estêncil, carimbos, decalques até se decidir pela serigrafia. A técnica permitia que imprimisse uma foto na tela e a multiplicasse em série. A imagem se mostrava impessoal e de maneira mecânica.

O trabalho é metódico, repetitivo e pretende eliminar qualquer marca de um “estilo pessoal”. Quando utiliza a imagem de outrem, Warhol compra os direitos de uma fotografia, a refotografa e a imprime em uma tela de silkscreen. Dali, transfere as figuras serialmente, sobre diferentes superfícies anteriormente cobertas com cores berrantes. As imagens são repetidas da mesma maneira que os produtos são dispostos sobre uma prateleira. Por vezes, são justapostas, sobrepostas ou apresentadas em arranjos menos regulares. As cores nem sempre se casam com os contornos das figuras e parecem carecer de definições.

Da mesma maneira que ele empilhara caixas, latas, dólares, objetos, passa a empilhar os ícones de ídolos de matinê, como Troy Donahue, Warren Beatty, Natalie Wood, Marilyn Monroe, Liz Taylor e Elvis Presley. O artista – ou os seus assistentes – nem sempre usam a mesma carga de tinta para gravar as figuras sobre esse fundo, por isso, às vezes elas surgem mais nítidas, outras apagadas ou mais manchadas. As efígies se repetem ininterruptamente pela tela colorida. É como se aparecessem e desaparecessem, sugerindo uma presença oscilante dos personagens.

Nas pinturas são impressas fotografias de pessoas ou eventos reconhecíveis. Acontecimentos com os quais as pessoas entram em contato não por experiência direta, mas pelas representações midiáticas feitas deles. O artista mergulha nesse sistema de idolatria triste, no qual os personagens só existem como imagens. Sabe-se das crises conjugais de Elizabeth Taylor pelas fotos e pelas fofocas. Podemos dizer o mesmo dos problemas de Elvis Presley com anfetamina, da glória e da morte de Marilyn Monroe. Tragédias, comoções, intrigas, tudo nos é revelado por essas meias figuras. Pensamos conhecê-los pelas representações midiáticas.

Muito do que Warhol pensa das imagens vem desse tipo de relação encenada do personagem na imagem. Trata da conversão dos acontecimentos, dos personagens, dos objetos nessa “meia-dimensão”. Lá o retrato não é a imagem exata do retratado, mas também não deixa de ser. Ela surge como um ícone, uma imagem descarnada e artificiosa de quem quer que seja.

Quando decide criar autorretratos, ele pensa na inserção de sua persona nesse sistema de imagens. Quando a figura quer abandonar a carne e se tornar ídolo. Mais do que isso, Warhol tenta atuar como se interviesse e refletisse sobre o modo de difusão e produção dessa cultura nos grandes centros urbanos dos Estados Unidos.

Além de criar um sistema de estrelato, criar suas próprias fotografias, rodar os seus filmes e produzir outros artistas, ele também transforma sua própria imagem em uma figura estelar. Isso passa pelos autorretratos, pelo forjar de uma autoimagem.



Seus primeiros autorretratos seguem modelos esquemáticos de pose e formas impessoais de fotografia. Warhol posa em uma cabine de fotografias 3×4 e utiliza esses instantâneos como motivo das pinturas. Parece buscar trabalhar a partir de imagem que não controla. Por isso, não lida com o clique. São imagens onde ele tenta encenar uma ideia de beleza fotográfica. Sua pele é refeita em uma textura lisa, de tinta acrílica, mas o corpo, embora pintado em cores não naturais, não parece se adequar totalmente ao que é encenado.

Por isso, em um dos seus melhores autorretratos, parece esconder o rosto. Em uma série de pinturas realizadas entre 1966 e 1967, Warhol imprime várias vezes uma imagem em close em que ele aparece com metade da cabeça sombreada, a mão sob o queixo e dois dedos tapando a boca.

Nos melhores trabalhos, ele pinta o fundo com uma cor, a parte iluminada da cara com outra e a parte sombreada, os cabelos, uma faixa na margem esquerda com uma terceira cor. É essa cor que desenhara os olhos, o nariz e a boca de Warhol. Assim, o que sobra do seu rosto é a projeção de uma sombra. Só identificamos o artista por essa sombra delicada, em alto contraste com a mancha colorida ao fundo.

Nesse momento, o artista tenta criar uma imagem interessante e misteriosa não do homem, mas do mito Andy Warhol. Dessa figura facilmente reconhecível. No entanto, o rosto aparece falhado, incompleto, apagado. O personagem que ele era não está mais lá e o que ele desejava ser nunca se completou. O artista pinta e repinta esse personagem inúmeras vezes sem que nunca a imagem se fixe perfeitamente. Ao tentar se converter em uma “beleza fotográfica” feita de luz e maquiagem, ele mostra que essa promessa é postiça, uma fantasia frágil.

Ao se retratar em polaroide, o artista mostra a possibilidade de outras vidas, de brincar de ser quem nunca foi, mas esse sonho é uma fantasia postiça. A alegria dura pouco. Revelada a foto, o artista ia à pia e todas as promessas iam embora com a água. São alegrias que nem mesmo remediam o sofrimento da vida, apenas prometem uma euforia passageira.

Na estética resignada de Warhol, a vida promete pouco. Pode-se ter a sorte de comer a mesma refeição todos os dias, ser convidado para uma festa, escutar uma música que traz boas lembranças no rádio, ficar famoso e ser adorado como ídolo – mesmo que o ídolo não se confunda totalmente com a pessoa. Ainda que as promessas de diamantes, casacos de pele e champanhe se cumpram, o dia seguinte é de uma ressaca interminável.

 

Texto publicado na primeira edição da Revista SP-Arte, em abril de 2018.

 

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