Os livros fotográficos de Ana Rovatti e Cecília Urioste

21 ago 2019, 16h45

por Mariano Klautau Filho

 

Ao percorrer as páginas das obras “Offline” e “Para levantar as forças” é possível experimentar um frescor poético no hiperinflacionado universo das publicações de artista cuja linguagem central é a estética fotográfica.

Em “Offline”, Ana Rovati elabora o relato de uma experiência aparentemente simples, mas reveladora de uma interrupção radical no ritmo e na lógica de funcionamento de nossa vida cotidiana no século 21: a artista desliga-se durante o período de um ano de todo e qualquer tipo de comunicação online permitida pelos aparatos tecnológicos digitais que nos possibilitam o contato imediato com tudo e todos dentro da grande rede das mídias sociais.

Com certo arroubo juvenil mas legítima atitude de enfrentamento de um sistema capitalista comunicacional que arrasta todos à ilusão da rapidez e à eficácia democrática da informação, Rovati, em seu discreto diário, assume o poder poético de parar a história: “Sou brasileira e moro em Madri há alguns meses. Quando vim pra cá, minha mãe não chorou. Pelo menos, não na minha frente. Quando contei a ela que ia sair da internet, ela chorou.”

O livro se assemelha a um caderno de notas, feito em capa dura revestida de tecido cinza sobre a qual apenas título, nome da artista e uma marca gráfica em baixo relevo simulando uma linha de pontos, às vezes parecendo reticências mais alongadas, mas indiciando pontos vazados que vão se preenchendo à medida em que uma conexão vai se completando.

Ao longo da narrativa, percebemos que o livro fotográfico vai se adensando justamente pelo uso econômico de imagens. O texto ganha protagonismo quando o relato da experiência se impõe e desafia a artista tanto no encadeamento da escrita quanto na inserção pontual da fotografia. Ambas instâncias, escrita e imagem, assumem seus valores na lógica artística do livro e a dimensão poética da fotografia ganha importância em um trabalho mais de subtração do que de adição. É a escrita que nos põe dentro do universo do livro fotográfico de Ana Rovati. Experimentamos humor, ironia e alguns momentos de tensão em que a personagem, em sua inusitada condição analógica, trava batalhas no ecossistema da vida digital. O livro fotográfico de Ana Rovatti abre farto espaço para a escrita.



Em “Para levantar as forças”, Cecília Urioste utiliza o formato para nos colocar em extremo contato íntimo com o pequeno caderno de notas com espiral de arame de sua avó. Na primeira página lemos, na forma de título: “- 1989 – Remédios – Tomei ou estou tomando”. A partir daí, seguimos a cada página uma lista infindável de remédios, seus efeitos bons e maus, seus desdobramentos colaterais, comentários sobre os médicos revelando parcialmente o perfil e temperamento da personagem e especialmente certa capacidade em conviver com a dor física. O diário de remédios ocupa o centro do espaço gráfico da publicação obedecendo a lógica das dobras, o verso das folhas fazendo-o performar como um fac-símile ressaltando a fisicalidade e a proporção do documento por meio da reprodução fotográfica. É desta maneira que a intimidade estabelecida com o leitor é quase total. No entanto, a artista torna o diário presente quase até a metade do livro em um processo suave de apagamento. Quanto mais avançamos, interessados na leitura minuciosa dos remédios e seus efeitos, mais a narrativa da artista vai apagando a escrita numa espécie de fade-out em branco.

É somente a partir da segunda metade do livro que Cecília Urioste insere “suas” fotografias, em parte apropriadas do álbum de família, e em seguida imagens construídas para a narrativa do livro. É por meio das imagens construídas, que fazem alusão a objetos frágeis, fissurados e cortantes, que um inventário de fraqueza e força se completa. Há uma peça solta dentro do livro, um pequeno cartaz dobrável com a foto de um moletom da banda The Police que se conecta à escrita de três linhas da artista no fim da narrativa. Tal conexão se torna uma chave de compreensão sobre a autora do diário dos remédios. E a escrita, mais uma vez, ressalta a presença das imagens, cria nuances e liberta a narrativa para que a obra, antes de tudo, seja um livro de artista.

Offline” e “Para levantar as forças são ótimos exemplos de livros fotográficos que não operam com o modelo reducionista de fotolivro, incensado por publicações como as de Martin Parr e Gerry Badger e ainda a de Horácio Fernandez1. E não se trata apenas de nomenclatura, mas de uma recusa equivocada da própria história da arte, como bem pontua Paulo Silveira: “Em termos conceituais, muito pouco foi escrito sobre fotolivros que não tenha sido escrito antes sobre livros de artista. E, o mais importante, foram as pesquisas sobre livro de artista que apresentaram a dimensão fotográfica neles presente explícita ou implicitamente”2.

As obras de Ana Rovati e Cecília Urioste surpreendem porque não atendem a uma estética já esperada dos formatos que povoam os circuitos estritos da fotografia: modos “enigmáticos” para tornar a fotografia discurso de ficção; jogo dialógico entre imagens fechadas, “intimistas” e cenas externas; alternâncias entre corpo e paisagem. “Offline” e “Para levantar as forças” se desviam de um molde poético que parece recusar os aspectos descritivos do signo fotográfico. Ao contrário, as obras investem nos aspectos potentes da transparência fotográfica e em sua dimensão de escrita. Os percalços vividos por Ana Rovati em sua jornada analógica e o mergulho no diário de remédios que Cecília Urioste nos proporciona matizes narrativas próprias, porque são de fato um exercício artístico no suporte do livro e no qual a fotografia surge como elemento tensivo e não dominador.

 

 


[1] PARR, Martin; BADG ER, Gerry. The Photobook: a History, vol. I. London: Phaidon, 2004.
______; ______. The Photobook: a History, vol. II. London: Phaidon, 2006. ______; ______. The Photobook: a History, vol. III. London: Phaidon, 2014. FERNANDEZ, Horácio; Fotolivros Latino-americanos. São Paulo: COSAC & NAIFY, 2011
[2] SILVEIRA, Paulo. A Faceta Travestida do livro fotográfico: legitimidade e artifício de uma denominação in GRIGOLIN, Fernanda; BOTTER, Lila Publicações fotográficas / Organização e Concepção de Fernanda Grigolin. Projeto Gráfico de Lila Botter. – São Paulo: Tenda de Livros, 2016. (Série Pretexto).

Sobre o autor

Mariano Klautau Filho é artista, pesquisador, curador e professor da Universidade da Amazônia em Belém. Em 2002, coordenou o projeto de publicação e acervo “Fotografia Contemporânea Paraense – Panorama 80/90”, selecionado pelo Programa Petrobrás Artes Visuais. A partir desse mesmo ano, passou a organizar o Colóquio Fotografia e Imagem, realizado pelo Instituto de Artes do Pará e Associação Fotoativa. Em 2006, foi selecionado para Bienal de Havana.

Os dois livros estão disponíveis no estande da Lovely House, participante do setor Editorial da 13ª SP-Foto, de 21 a 25 de agosto, no JK Iguatemi.