O exercício de edição fotográfica, por Rubens Fernandes Junior

18 mai 2016, 19h06

Uma fotografia não é apenas resultado de um clique. Ela surge após trabalhos intensos de seleção e pós-produção.

É sobre esse exercício de edição, que confere grande complexidade ao fazer fotográfico e que se tornou ainda mais profundo diante das novas opções proporcionadas pela fotografia digital, que o pesquisador e curador independente Rubens Fernandes Junior reflete no texto abaixo, publicado originalmente no catálogo da SP-Arte/Foto/2015 (confira a publicação na íntegra aqui). Boa leitura!

 

Editar
Nem tudo que reluz é ouro. (ditado popular)

(por Rubens Fernandes Junior)

É muito recente a prática de pensar, refletir e até mesmo teorizar sobre a imagem técnica, particularmente a fotográfica. Essa questão ficou mais evidente a partir do momento em que a fotografia se tornou central e também uma das principais chaves para a compreensão da arte contemporânea. Portanto, buscar entender sua produção sob a clivagem da história, da crítica e da estética, entre outras perspectivas analíticas, é tentar constituir, para a fotografia, bases consistentes a uma investigação mais ampla que contemple definitivamente sua importância para as artes visuais.

A sistematização de uma reflexão mais aprofundada sobre o fazer fotográfico teve início com as edições da Semana Nacional da Fotografia, promovida pela Funarte e pelo Instituto Nacional da Fotografia nos anos de 1980, foi mais tarde aprofundada com as edições do Mês Internacional da Fotografia de São Paulorealizadas pelo Nafoto entre 1993 e 2011, e ampliadas através de muitos outros eventos dispersos Brasil afora. Mais recentemente, essa preocupação tem presença garantida em quase todos os eventos associados às artes visuais, com destaque para o seminário Pensamento e Reflexão na Fotografia, que já conta com quatro edições, organizadas pelo Estúdio Madalena e realizadas no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP). Sua última edição, em maio de 2015, teve como tema central Editar, Montar, Compor –  a coexistência das imagens, com curadoria de Ronaldo Entler e Rubens Fernandes Junior.

A grande questão que envolve a fotografia ainda é como materializar e concentrar numa única imagem toda a experiência vivenciada pelo artista por ocasião do fazer fotográfico. Se pensarmos na fotografia analógica, escolhia-se uma imagem a partir de um universo imagético restrito a algumas dezenas ou no máximo uma centena de cliques. Hoje, no universo da fotografia digital, uma imagem é selecionada entre milhares de outras. O exercício de seleção e edição se tornou mais complexo diante de tantas opções.

O crítico André Rouillé afirma que “a imagem não é produto automático de uma máquina, nem reflexo direto de uma coisa, mas criação artística”. Isso significa que ao vermos uma imagem fotográfica estamos diante de uma síntese visual que exige não apenas um conhecimento técnico a priori, mas – e principalmente – uma experiência que envolve a capacidade de atribuir a essa imagem toda a densidade e a emoção que acompanharam o artista nos diferentes procedimentos utilizados para sua concretização. Essa competência, por incrível que pareça, é para poucos. Arrisco dizer que entre os melhores que conheço estão Maureen Bisilliat e Miguel Rio Branco, que criam sínteses e narrativas relevantes e diferenciadas no atual cenário das artes visuais.

Desde sempre, a imagem fotográfica não é apenas o clique, um flagrante e pronto. Ela surge após uma rigorosa seleção que inclui ainda um intenso trabalho de pós-produção. O ato de editar, pensar e refletir sobre a imagem a que temos acesso em galerias, museus e outras instituições culturais passa por inúmeras intervenções que contemplam diversas expectativas, particularmente a do artista. A prática constante e muitas vezes extenuante é que produz a aparição da imagem editada e finalizada após cumprir as etapas do processo.

A missão do artista é ensinar o espectador a ver as coisas. Vou mais além: no caso da fotografia, ela própria está continuamente aprendendo a ver. Aprender e apreender são, portanto, perspectivas indissociáveis do fotógrafo e da fotografia, mas editar é quase sempre uma operação solitária, tensionada pelas diferentes variáveis que atuam no ato da escolha e que deve ser coesa e iconicamente representativa dentro da trajetória do artista.

No texto curatorial do IV Pensamento e Reflexão na Fotografia, afirmamos: “A criação fotográfica envolve outros atores – editores, curadores, críticos, outros artistas – e também uma temporalidade muito extensa. Porque é preciso retornar muitas vezes a um acervo, ou é preciso deixar que as imagens circulem e quase se percam, para descobrir nelas um discurso que se constrói lentamente e que nunca se resolve em definitivo”. Isso reforça a ideia de que na contemporaneidade, cada vez mais, as imagens resultam de articulações e estratégias diversas que buscam potencializar uma deslumbrante e perturbadora experiência. Reforça Eustáquio Neves: “não existe em meu trabalho o instantâneo; são muitos os tempos presentes na imagem, pois a memória é mais poética que a realidade”.

À medida que se procura entender a obra de um artista, torna-se evidente que a principal questão concentra-se no momento da edição das imagens. Richard Avedon defende que “o fotógrafo só pode ir além da superfície trabalhando nela. Eu tenho grande fé nas superfícies. As melhores estão cheias de pistas”. Essa afirmação caracteriza o deslocamento da atenção – do ato fotográfico para a escolha da fotografia que irá sintetizar a intensidade do momento, uma vez que a realidade propriamente dita é uma tentativa de entender o homem através dos artifícios criados pelo artista ao longo do processo. Cada vez mais se percebe que as formas ganham notoriedade somente após serem totalmente digeridas pelo seu criador, que irá conferir à imagem um livre trânsito interpretativo.

Mas devemos ter a clareza de que não existe neutralidade nas escolhas, na seleção de algumas fotografias em detrimento de outras. Essa intervenção, no entanto, deve ser consciente. Podemos entender a obra de um artista como se fosse um atlas, tentando aqui recuperar a discussão motivada pela proposta de Aby Warburg (1866-1929): uma espécie de tensão entre polaridades distintas – o apolíneo e o dionisíaco, a contemplação e o transe, a opacidade e a transparência, enfim, opostos que abrem um campo amplo de interpretação, conectando o processo histórico e a importância da subjetividade do afeto na produção do conhecimento.

A fotografia, seja química (grãos), seja digital (pixels), metaforicamente tem intensa porosidade por onde transita e transpira a energia criativa do seu criador. Quando vemos uma obra como a de German Lorca, por exemplo, fica claro que suas travessias pela fotografia são uma espécie de atlas que conta uma história, pois podemos articular analogias, evidenciar influências, estabelecer territórios. Suas experiências inovadoras, produzidas em diferentes momentos de seu percurso, vêm surpreendendo pela longevidade. Enquanto Lorca viu o mundo com um aguçado desejo de investigação e descoberta, na contemporaneidade suas fotografias permanecem como pequenos enigmas que conseguem se manter atualizados. São fotografias que nos mostram a transitoriedade da vida e da existência. Concentrado e sempre atento em suas andanças, ele olhou para tudo com generosa paciência em busca de singularidades atemporais, livres de condicionamentos culturais.

Em sua nova série, Geometria das Sombras, realizada em 2014, a edição apurada que fez do seu exercício solitário exala melancolia. É a emoção do artista que revive conscientemente a experiência de integrar aos seus sentimentos e às suas emoções a percepção da realidade revelada no silêncio das formas e das sombras projetadas. Uma viagem que mostra algum inconformismo com a passagem do tempo e mantém o espírito da fotografia moderna brasileira praticada no Fotoclube, como se quisesse reviver com a sabedoria de hoje as intensas proposições estéticas de ontem. Imobilizar as sombras, fenômenos efêmeros que exigem acuidade do olhar, e deter seu movimento espontâneo é tentar entender como a projeção da forma oscila em decorrência do tempo que avança. A projeção da sombra que estava lá por décadas excita nossos sentidos, que tentam reencontrar nas fotografias os verdadeiros objetos daquela casa, agora vazia, mas repleta de sons imaginários e de imagens que despertam a memória do artista. Mesmo assim, a edição concisa revitaliza seu olhar consagrado e cria mais algumas poderosas imagens que demarcam sua trajetória. A série já é um clássico contemporâneo.

O percurso de German Lorca é uma espécie de atlas do impossível – expressão criada por Michel Foucault em relação à desconcertante erudição de Jorge Luis Borges – que nos permite viajar por sua obra, aliás, uma rara e brilhante constelação na fotografia brasileira. E tudo isso graças ao processo cirúrgico de seleção e edição que ele praticou em toda sua trajetória. Ainda precisamos entender claramente que menos significa mais: mais qualidade, singularidade e permanente pulsação no imaginário do leitor.

Na era da comunicação exagerada proporcionada pelas mídias digitais, a imagem fotográfica consegue se impor como um objeto contemporâneo de desejo. Para muitos, a boa fotografia é aquela que consegue materializar o efeito terrível do estranhamento, cuja intensidade provoca um silêncio momentâneo que advém das incertezas vivenciadas por seu criador. A arte tem como princípio básico retirar, mesmo que momentaneamente, o espectador da sua zona de conforto e proporcionar prazer.

 


Rubens Fernandes Junior é pesquisador e curador independente. Possui doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e é professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). É curador do Prêmio Wessel de Fotografia e membro da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Publicou os livros Labirinto e identidades: panorama da fotografia no Brasil (Cosac Naify, 2003), Geraldo de Barros: sobras + fotoformas (Cosac Naify, 2006) e Papéis efêmeros da fotografia (Tempo d’Imagem, 2015), entre outros.