Como a fotografia passou a ser considerada objeto de arte?

20 ago 2019, 14h41

A jornada da fotografia para integrar a família do que é considerado “arte” dentro do mercado é bastante fascinante. Enquanto mídias mais tradicionais como a escultura e a pintura nunca tiveram seu status artístico questionando, a fotografia passou décadas relegada a uma posição diminuta, muito em parte pelo mercado acreditar que, se em posse de uma máquina, qualquer um conseguiria criar uma fotografia. A foto em si seria apenas uma cópia, um registro do mundo real, e para obtê-la era necessário somente clicar em um botão. Não se considerava a subjetividade do olhar artístico de quem o apertava, ou o conhecimento técnico necessário para obter os efeitos desejados.

Foi a partir dos anos 1970, à medida que a arte considerada efêmera começou a conquistar espaço nas galerias – como a land-art e as performances –, que as fotografias também conseguiram abrir seu caminho em espaços artísticos considerados mais institucionais. A foto se mostrou a ferramenta preferida para a documentação desse tipo de arte, emprestando um caráter duradouro a eles. Assim, embora as fotos raramente fossem tiradas pelos artistas ou performers em si, o objeto fotográfico passou a integrar exposições e o circuito artístico.



O casal Bernd e Hilla Becher, professores universitários e fotógrafos, causou grande impacto ao trabalhar seus registros fotográficos como objetos artísticos em ambientes expositivos. Os grids compostos pelas impressões de seus registros de caixas d’água e outras estruturas industriais formavam instalações de grande dimensão, e interagiam diretamente com esculturas e pinturas minimalistas com as quais dividiam espaço.

Os Bechers influenciaram gerações de fotógrafos, e seus alunos na Academia de Arte de Düsseldorf também fizeram sua parte em mudar o rumo da fotografia. Nomes como Thomas Ruff, Candida Höfer e Thomas Struth inovaram ao experimentar com a dimensão de suas fotografias, imprimindo-as em escalas enormes. O impacto dimensional apresentado por seus professores na montagem de instalações de várias fotografias foi absorvido e revertido na apresentação de uma fotografia única e gigante.

É possível observar em Ruff também a influencia de fotógrafos como o estadunidense Ansel Adams, que ao invés de seguir a postura comum de produzir tiragens ilimitadas de fotografia, fazia tiragens numeradas que eram consideradas objetos em si. Ao mexer com as dimensões e oferta de seus trabalhos, fotógrafos como Ruff conseguiram consolidar um lugar para si nas paredes das galerias e leilões, e abrir a porta para o mercado artístico fotográfico. Atualmente a fotografia ainda não sai pelos mesmos preços de um quadro ou escultura, mas nos últimos 25 anos os trabalhos fotográficos valorizaram em média vinte vezes em relação aos preços anteriores. Em 2013, foi registrado a venda mais alta de uma fotografia em leilão: “The New Jeff Koons” (1980), por Jeff Koons, vendido por cerca de 9,5 milhões de dólares. Ou seja, embora na traseira das outras plataformas artísticas, vemos a fotografia avançando e alcançando no que tange de valor de compra.

 

Esse texto é baseado na fala que Barbara Tannenbaum, curadora de fotografia do Cleveland Museum of Art, irá apresentar no Talks da SP-Foto 2019. Sua fala ocorre quinta-feira, 22 de agosto, às 19h – “O sucesso pode estragar a fotografia?”. Confira a programação completa dos Talks aqui.