Pela segunda vez no Brasil, curador britânico Simon Baker comenta as obras e artistas que ainda não conhecia; confira!

24 ago 2019, 13h49

Em 2009, o pesquisador britânico Simon Baker tornou-se curador do recém-criado departamento de fotografia da Tate Modern, em Londres. Quando visitou o Brasil pela primeira vez, dois anos atrás, Baker participou de uma conversa na 11ª SP-Foto, e falou sobre sua trajetória na criação e o desenvolvimento das coleções fotográficas nos museus. O curador hoje atua como diretor da Maison Européenne de la Photographie, em Paris – referência na área fotográfica.

Simon Baker retorna agora para a 13ª SP-Foto e nós perguntamos a ele: o que você encontrou pela Feira desta vez que nunca tinha visto antes?


JULIO BITTENCOURT

GALERIA LUME

Minha primeira escolha é a série “Ramos”, do artista Julio Bittencourt, apresentada na Galeria Lume. Como estão apresentadas ao lado de Martin Parr, este sim famoso mesmo fora do Brasil e que eu já conheço bem, as imagens de praia de Bittencourt me chamaram mais a atenção. Enquanto estrangeiro, é interessante observar uma vida praieira bem menos glamurosa do que costumamos associar ao Brasil. Além do trio de fotos mostrado pela galeria, eu gostei da publicação “Ramos”, é legal encontrar artistas que não apenas fazem boas fotografias mas produzem bons fotolivros. Mesmo que a temática seja densa, a estética, as cores, o estilo das fotografias é formalmente interessante. 


marcelo moscheta

vermelho

A segunda indicação é de um artista que nunca ouvi falar antes e descobri hoje, o Marcelo Moscheta. A série de fotografias realizadas no deserto do Atacama é fantástica. Gosto que o artista não seja um fotógrafo tradicional, que trabalhe com instalações, esculturas, filmes… Nesta bela apresentação em uma caixa de vidro, ele retira as cores que estariam na imagem e as insere em uma escala pantone, então o trabalho é muito mais conceitual do que apenas fotográfico. As noções que a obra carrega sobre o meio ambiente ganham contundência na semana que estamos vivendo em São Paulo e o contexto brasileiro de devastação das florestas. Acho até corajoso que a galeria aposte em uma obra mais conceitual do que aquelas de caráter mais comercial. O trabalho é sofisticado, silencioso, carrega esta ideia da fotografia como objeto. Este é, inclusive, um dos motivos de visitar uma feira de arte: encontrar as fotografias materialmente, não apenas rodando imagens em uma tela. 


Man Ray & Marcel Gautherot

Fólio Galeria

Eu gostaria de falar da montagem da Fólio Galeria como um todo. Eles misturaram várias tipos de fotografia, desde de retratos de artistas que são celebridades até imagens que ficaram famosas com o tempo. Dá para passar mais de quarenta minutos neste estande bastante rico de material. Achei interessante que a galeria trouxe imagens de Man Ray, importante artista que recebe agora uma grande individual na cidade, e eles possuem publicações históricas sobre o Brasil e as vanguardas artísticas em geral que são incríveis. Tem um original de uma publicação com poemas e fotografias pornográficas de Man Ray de 1929 que eu nunca vi antes, apenas o fac-símile. Ontem, na Feira, passei neste estande com o artista carioca Marcos Chaves e ficamos impressionados com uma série de fotografias do Rio de Janeiro feitas por Marcel Gautherot nos anos 1960. Quando fui ao Rio, achei a cidade bastante cheia e barulhenta, mas nestas imagens denotam um paraíso moderno e esvaziado que eu desconhecia. 


Mauro Restiffe & Janaina Tschäpe

Fortes, D’Aloia & Gabriel

Minha última escolha também passa por todo o espaço da Fortes D’Aloia & Gabriel. Gosto de visitar os estandes solo nas feiras de arte, ou apenas com apenas dupla dialogando entre si, que apresentam o artista de forma mais estruturada. Eu gostei de conhecer o grupo de fotografias de Janaina Tschäpe, com essas intervenções curiosas em um ambiente natural. E o fotógrafo Mauro Restiffe apresenta uma nova série realizada no intervalo entre a eleição e a posse de Bolsonaro. Eu conheço o trabalho de Restiffe, inclusive a série que ele fez destes mesmos espaços em Brasília na era Lula. Ao retornar, ele opta por trabalhar em cores, algo que eu nunca tinha visto e que deixou o trabalho incrivelmente bonito. Os tons, as formas da arquitetura e do mobiliário moderno são impactantes. Para mim, ver trabalhos novos de um artista que eu já admiro é algo muito positivo. 

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