Cortejo de um cão da lua
Cortejo de um cão da lua, primeira individual de Sandra Lapage na Galeria Contempo, transforma o espaço expositivo em condição de trânsito, em campo sensível no qual as obras deixam de se oferecer como objetos estáticos para atuar como presenças em deslocamento. Nesse contexto, uma gravura de James Ensor emerge como disparador. Imagética carnavalesca que não apenas celebra a exuberância como expõe uma verdade inquietante: a de que a sociedade é inseparável de seus fantasmas, de seus resíduos de irracionalidade e de morte. É nessa fronteira que o trabalho de Lapage adquire sua densidade singular. Sua prática dá corpo àquilo que a cultura industrial produz como resto, excedente e saturação, sem transformar essa matéria em simples índice moralizante. Cápsulas de café, lacres, brilhos industriais e superfícies laminadas retornam deslocados, mas não redimidos: conservam a memória do uso, do desejo, da circulação e do descarte. O brilho, a cor, a leveza e a maleabilidade são submetidos a estruturas de trama, repetição e pulsação nas quais a forma não neutraliza a tensão da matéria, mas a intensifica. Cada figura parece derivar da anterior, cada módulo reclama o próximo, como se o espaço se constituísse enquanto tecido de continuidades instáveis. Por isso, sua obra atravessa escultura, vestimenta, instalação e performance não por ecletismo, mas porque tais categorias já não bastam diante da complexidade material que ela convoca. Há, em tudo isso, algo de ornamento e armadura, de pele e aparato cerimonial, de corpo expandido e forma em metamorfose.

Endereço
Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 1644, Contempo
São Paulo, Brasil - Brasil




