Uma década de transformações no design brasileiro

Débora Mateus
19 mar 2026
Acima: Criações de Lina Bo Bardi, Joaquim Tenreiro e Franco Albini foram exibidas no espaço do Apartamento 61 na SP-Arte em 2023. © Divulgação SP-Arte
Quando instaurou oficialmente o setor como parte central do programa, em 2016, a SP-Arte inaugurou um novo paradigma. Inseriu o design no campo simbólico da arte e vislumbrou um mercado ainda incipiente. Sob a arquitetura onipresente de Niemeyer, a fruição entre arte e design configura um genius loci que só ali se inscreve — conceito que evoca o espírito do lugar, fruto da interseção entre espaço, história e cultura.
O impacto no desenvolvimento do mercado consolidou o evento como propulsor de mudanças. Das 21 galerias participantes desde o início às 64 que compõem esta edição, incluindo a nova área Design NOW, a progressão segue constante. Entre os primeiros expositores, oito mantêm presença até hoje: Etel, Firma Casa, Jacqueline Terpins, Jader Almeida, ,ovo, Passado Composto Século XX, Sandra & Marcio e Teo.
Bastaram poucos meses após a estreia para que criações apresentadas na feira ganhassem duas páginas do The New York Times. Era o primeiro sinal de projeção além da fronteira nacional.

Peças de Lasar Segall, reeditadas pela Etel, figuraram entre os destaques da galeria na feira 2016, ao lado de obras do artista. © Gui Gomes
“Uma das minhas maiores surpresas ao longo desse percurso foi constatar que o design pertencia à SP-Arte. Mais que um marco temporal, essa década enfatiza a consolidação do design na feira e seu reposicionamento como parte central do mercado cultural brasileiro. Valorizamos os três tempos: peças históricas e vintage, contemporâneas e reedições modernas. É assim que se constrói a percepção de valor”, afirma a fundadora e diretora-executiva da feira, Fernanda Feitosa.
Mais que um marco temporal, essa década enfatiza o reposicionamento do design como parte central do mercado cultural brasileiro
— Fernanda Feitosa
Além de ampliar o olhar do público e da indústria, outra virada foi a canonização do calendário que mobiliza aficionados, profissionais e colecionadores de diversas cidades a organizarem suas agendas para estar na capital paulista em abril.
No ano de inauguração do setor, a Etel expôs reedições inéditas de Lasar Segall (1889-1957) em diálogo com sua produção artística, além de peças de Claudia Moreira Salles. Lissa Carmona, CEO da galeria e editora, atua há três décadas na legitimação do segmento. “Apostei, desde o início, nessa fruição entre arte e design. Fui a galeria 000, escolhi meu lugar ao lado da escada. O design brasileiro nasce no contexto da Semana de Arte Moderna e da florescência da arquitetura. Por isso buscamos dissolver essas fronteiras. A SP-Arte é um palco muito importante, que consolidou esse interesse. Para manter credibilidade, é preciso autenticidade, respeito às origens e pensamento com repertório”.

Exposição de bancos indígenas do Alto Xingu com a editora BEĨ (2017) lançou luz sobre sua dimensão ancestral e cultural. © Divulgação SP-Arte

Mesas de Edgard de Souza em exposição da galeria Luisa Strina em 2010. © Edouard Frapoint
Fricção cultural
Diante de circuitos sustentados por conglomerados globais, como Art Basel e Design Miami, onde arte e design ocupam arenas paralelas, aqui a singularidade está em partilharem o mesmo território. Emergem provocações que percorrem os andares serpenteados pelas curvas contínuas do pavilhão.
Questões adjacentes são comuns a artistas e designers. Trajetórias multifacetadas como as de Lasar Segall, John Graz, Joaquim Tenreiro e Geraldo de Barros, além das de arquitetos como Lina Bo Bardi, Oscar Niemeyer e Gregori Warchavchik, atestam a convergência. Em 2010, o artista Edgard de Souza subverteu o móvel na série de esculturas-mesa na galeria Luisa Strina. O objeto alude a movimentos corpóreos e tensões eróticas.

Mesa circular “Origami” criada por Ruy Ohtake em 1996 e reeditada pela Firma Casa será lançada na SP-Arte 2026 em série limitada. © Nelson Kon
Em 2016, a coleção “Cangaço”, criada pelos Irmãos Campana em parceria com o mestre artesão Espedito Seleiro, foi exibida no espaço da Firma Casa, uma das pioneiras em projetar nomes de peso nacionais e internacionais. De acordo com a fundadora da empresa, Sonia Bernardini Diniz, o evento contribuiu de forma significativa para a compreensão das peças autorais. “Hoje o público entende a importância desses trabalhos, que expressam o fazer manual, muitas vezes em tiragens limitadas, e são reconhecidos por sua linguagem conceitual”.

Intervenção de Jacqueline Terpins na SP-Arte em 2019 comoveu o público ao refletir sobre a fragilidade da condição efêmera inerente à finitude. © Andrés Otero
Em 2019, a poética instalação “Tempo”, de Jacqueline Terpins, originalmente exposta em 1995 na galeria Nara Roesler, moveu os visitantes até o terceiro andar do pavilhão. Suspensa sobre uma estrutura de ferro, a massa de gelo de uma tonelada derretia lentamente. Formava um espelho d’água. A essência efêmera convidava à reflexão sobre finitude e fragilidade.
Segundo Terpins, a SP-Arte é um lugar onde as expressões se encontram com veracidade e autenticidade. “A feira foi e continua sendo um marco no calendário artístico internacional. Sob o olhar de Fernanda Feitosa, a curadoria levou essa sensibilidade para o design, provando que objetos do cotidiano podem emocionar. Criou encontros sensíveis tanto com o público que acompanha meu percurso quanto com colegas artistas e designers, estabelecidos e jovens”.

Parte da série “Quadros”, os bancos da ,ovo fundem delicadeza construtiva e ergonomia, evocando paisagens visuais. © Ruy Teixeira
Novas frentes
Apesar da consolidação simbólica e econômica já alcançada, novos caminhos se abrem, desde a maior estruturação da indústria até a projeção internacional da criação brasileira. Tal avanço exige também preservar o lastro histórico. Em 2022, na casa de leilões francesa Artcurial, o par de poltronas “Reversível”, de Carlo Hauner e Martin Eisler, foi arrematado por € 209.920; exemplares de Joaquim Tenreiro frequentemente ultrapassam a marca de € 100 mil em leilões da Christie’s e da Sotheby’s. Na Semana de Design de Milão, em 2025, a participação brasileira chegou a 90 marcas.
Experiências híbridas e não lineares renovam debuts concebidos especialmente para a SP-Arte. A maestria artesanal reverbera tanto na produção de artífices do modernismo quanto nas experimentações de jovens talentos, como Assimply Studio e Bonni, ganhadores dos prêmios cedidos pela Arauco e pela Artefacto, respectivamente, na SP-Arte de 2025.
Para Gerson de Oliveira, designer e cofundador da ,ovo, o conjunto de transformações levou ao amadurecimento do mercado, hoje mais atento à assinatura de autor. “A feira possibilitou a circulação de informações e acerta com o recorte da qualidade. Hoje, há uma força de jovens designers e iniciativas independentes de alto nível. Mas, para garantir um salto qualitativo no longo prazo, é urgente criar e sustentar uma instituição pública guardiã do campo”.
Hoje, há uma força de jovens designers e iniciativas independentes de alto nível
— Gerson de Oliveira

A mostra “Tátil: materiais no design contemporâneo”, curada por Livia Debbane em 2024, reuniu objetos que fundem pesquisa material e processo criativo como obras de Domingos Tótora. © Divulgação SP-Arte
Há três edições, a pesquisadora Livia Debbane assina a curadoria de exposições dedicadas à materialidade e ao processo criativo. Neste ano, o projeto “Existe uma árvore” resgata a árvore como matriz simbólica do design brasileiro e evidencia o papel dos institutos de pesquisa no estudo da diversidade das espécies. Um novo olhar para a madeira, tão presente na história do design brasileiro.
Débora Mateus é jornalista e mestra em comunicação pela Sorbonne (França). Com mais 25 anos de atuação, especializou-se na construção de narrativas editoriais críticas que se articulam no vértice da arquitetura, design, cultura e comportamento. Sob sua liderança editorial na revista Habitat, conduziu o turnaround que projetou a publicação para a cena nacional e internacional.