Marilá Dardot "Biblioteca maldita", 2017
Leitura

Três artistas indicam livros

Barbara Mastrobuono
1 abr 2020, 16h55

Convidamos três artistas a compartilharem conosco livros que os inspiram. Respondendo à pergunta “o que você indicaria para as pessoas lerem neste momento?”, Marilá Dardot, Paul Setúbal e Jaime Lauriano fazem um mergulho em suas estantes para dividir os títulos que estão navegando.

Acima: Marilá Dardot
"Biblioteca maldita", 2017

Marilá Dardot: Me pediram para indicar um livro que me traga calma neste momento: A queda do céu – palavras de um xamã Yanomami, de David Kopenawa e Bruce Albert. Me traz calma por sua generosidade em compartilhar conosco a inteligência e a sabedoria de seu povo. Mesmo com séculos de atraso, espero que suas palavras retas e claras façam a nós, brancos, repensar nossa maneira de viver, nossa relação com o outro e com a natureza – seguir também caminhos outros que o da mercadoria. (E insisto na esperança, pois como escreveu Murilo Mendes, “Sem esperança não surge o inesperado”).

Companhia das Letras, 2015

Marilá Dardot lê "A queda do céu"

Marilá Dardot lê "A queda do céu"

Paul Setúbal: Nestes dias tão difíceis, tenho dedicado meu tempo e trabalho em pensar sobre questões da esfera política e social.  Momentos de pausa são sempre necessários: Manoel de Barros é um alento nessa turbulência, já que sua escrita cobre vasta extensão de si mesmo com nada, usa algumas palavras que ainda não tem idioma, se preocupa com coisas inúteis, tem doutorado em formigas e nos ensina que poesia é voar fora da asa.

Poesia Completa, Leya, 2013

Paul Setúbal lê "O menino que carregava agua na peneira"

Paul Setúbal lê "O menino que carregava agua na peneira"

Jaime Lauriano: Fiquei pensando que seria muito bom trazer algum livro que trouxesse um pouco mais de calma para esse momento conturbado, me indagando qual livro eu gostaria de ler para tentar não ficar tão atento às dificuldades, e desafios, impostos para a nossa sociedade. Ou melhor, fiquei procurando um livro que não nos mostrasse, tão abertamente, que esse processo de crise que vivemos agora, em especial no Brasil, não seja mais um capítulo do sonho totalitário de parte da elite brasileira que sempre tentou esconder sua real vocação.

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“Fiquei alguns dias tentando encontrar algum livro que nos tirasse da cara que todo o projeto de nação que vem sendo trabalhado há anos por grande parte dos que tomam o poder é um projeto de extermínio. Por isso, se eu conseguisse encontrar esse livro, eu teria me perdido no meio do caminho. Porque para mim, é difícil dissociar esse momento, de incertezas e disputas de narrativas, das práticas e pesquisas que eu venho desenvolvendo bem antes de me dedicar à minha produção artística. Por isso, eu indico dois livros para lermos nesses, e em outros, momentos de exceção. São eles ‘Sobre o autoritarismo brasileiro’, de Lilia Schwarcz, e ‘A elite do atraso: da escravidão a Bolsonaro’, de Jessé Souza. Para mim, ambos os livros são essenciais para traçarmos uma linha histórica dos fatos que nos fizeram chegar ao ponto de elegermos um imbecil, assassino e genocida para a Presidência da República no ano de 2018.

Companhia das Letras, 2019

Estação Brasil, 2019


liki

Barbara Mastrobuono é editora, tradutora e pesquisadora. Trabalhou em casas editoriais como Editora 34 e Cosac Naify, e atuou como coordenadora editorial da Pinacoteca de São Paulo. Entre os títulos que traduziu estão “Tunga, com texto de Catherine Lampert; “Poesia Viva”, de Paulo Bruscky, com texto de Antonio Sergio Bessa; e “Jogos para atores e não autores”, de Augusto Boal. Defendeu sua dissertação de mestrado pelo departamento de Teoria Literária da Universidade de São Paulo, e conta com textos publicados em revistas de conteúdo cultural como a Amarello. Atualmente é editora-chefe da SP-Arte.

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