Vista da exposição. Crédito: Julia Thompson.
Entrevista

"Toda erva daninha é um ser rebelde"

Gabriela Longman
2 jun 2022, 14h24

Uma revisita crítica à nomenclatura e classificação de espécimes do reino vegetal, apontando preconceitos patriarcais, raciais e religiosos. Essa é a premissa de Botannica Tirannica, mostra concebida pela artista, pesquisadora e professora da FAU–USP, Giselle Beiguelman (São Paulo, 1962) especialmente para o Museu Judaico, e que conta com a curadoria de Ilana Feldman.

Ali, Giselle cria e instala um jardim, apresentando plantas com nomes ofensivos a judeus, negros, ciganos, mulheres. Sua arqueologia do léxico remete a mitos e heranças que muitas vezes passam despercebidos no uso quotidiano. “Quantas feministas não têm uma ‘costela-de-adão’ ao lado do seu sofá, sem perceber o grau de misoginia que fomentam, ao assumir esse nome como ‘natural’?”, nos pergunta a artista.

A pedido da SP–Arte, Giselle Beiguelman respondeu cinco perguntas sobre a exposição. Ao desconstruir as nomenclaturas perversas, seu projeto nos abre a possibilidade sempre viva de renomear e em grande medida reinventar – as plantas, o mundo, as relações.

Acima: Vista da exposição. Crédito: Julia Thompson.

Obras da série "Flora mutandis", 2022. Créditos: Giselle Beiguelman / Museu Judaico de São Paulo
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Obras da série "Flora mutandis", 2022. Créditos: Giselle Beiguelman / Museu Judaico de São Paulo

Vista da exposição. Crédito: Julia Thompson

Vista da exposição. Crédito: Julia Thompson

“Nomear é tomar posse, e aos povos originários é negada a posse material e simbólica da natureza”

Gabriela Longman: Como a botânica e a taxonomia vegetal herdadas do século XIX conversam com a inteligência artificial na elaboração de Botannica Tirannica?

Giselle Beiguelman: Nos saberes de ponta atuais, da edição do código genético à inteligência artificial, vemos que se consolida a palavra-chave da eugenia: padronização. No processo das imagens generativas, feitas com inteligência artificial, criam-se novos dados a partir de outros dados, identificando e combinando padrões internos e desprezando as dissonâncias.

Esse procedimento é espantosamente parecido com o que Francis Galton, pai da eugenia, utilizava em seus estudos no século XIX. A base de sua metodologia de estudo era um método fotográfico que ele mesmo desenvolveu: o retrato composto. Nesse processo, Galton superpunha diversas fotos e apagava suas diferenças, a fim de identificar o criminoso genérico ou o judeu genérico. O retrato composto, escreveu Galton, não “representa nenhum homem em particular, mas retrata uma figura imaginária que possui as características médias de qualquer grupo de homens”. É mais ou menos isso que uma Rede Neural faz para chegar a uma imagem como um deepfake.

Obras da série "Flora mutandis", 2022. Créditos: Giselle Beiguelman / Museu Judaico de São Paulo
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Obras da série "Flora mutandis", 2022. Créditos: Giselle Beiguelman / Museu Judaico de São Paulo

Vista da exposição. Crédito: Julia Thompson.

Vista da exposição. Crédito: Julia Thompson.

GL: O que a nomeação de plantas nos revela sobre o imaginário colonial, preconceituoso e como essa nomenclatura se inscreve na longa duração?

GB: No bojo da colonização, a botânica se institucionaliza como uma tecnologia de poder. A nomenclatura científica consagra reis, rainhas e preconceitos no seu processo de dominação da natureza. À catalogação do mundo, segue a coleta das espécies que alimentarão as plantations. A colonização expropria não só a terra mas também a planta da integralidade da vida. Seu ambiente, suas funções medicinais e religiosas são submetidas ao ritual simbólico de apagamento pelo nome das coisas. Nomear é tomar posse, e aos povos originários é negada a posse material e simbólica da natureza. O jatobá, por exemplo, deixa de ser a árvore dos frutos duros, sagrada para os povos originários, pelos seus poderes de cura, para se tornar a Hymenaea courbaril, em referência ao hímen feminino, pela rigidez da casca de seus frutos.

A taxonomia antropormorfiza o mundo vegetal. Faz das plantas um espelho do homem. Dissecado, compartimentado e enfileirado em jardins botânicos europeus, o universo das plantas é convertido num espaço pretensamente neutro, no qual se projetam preconceitos patriarcais, raciais e religiosos. Os princípios da evolução progressiva e da seleção natural contaminam da economia ao imaginário e vice-versa. O preconceito ganha lastro laboratorial e se enraíza no imaginário coletivo.

São muitas as plantas com nomes populares que abordam a mulher de um ponto de vista machista, como maria-sem-vergonha, beijo-de-puta e peito-de-moça. Mas isso também ocorre na nomenclatura científica, na qual abundam plantas cujos nomes científicos remetem às ninfas gregas, semideusas belíssimas que nunca envelheciam e tudo propiciavam aos homens e à natureza, e batizam o gênero das Nymphaeas que encantaram o pintor Monet.

Negros são alvo de preconceitos diversos, expressos nos nomes populares, mas também nos científicos. Plantas que têm a palavra kaffir ou cafrum no nome são altamente ofensivas. Termo derivado do árabe para infiel, caffir tornou-se um sinônimo genérico de negro com os colonizadores europeus ingleses; e cafre, mercadoria, na língua portuguesa, expandindo a noção racista que identificou os homens e mulheres negros como objeto. A palavra é considerada hoje nos países da África subsaariana como um equivalente à repudiada palavra nigger, que hoje se convencionou dizer “palavra-N” (em inglês, N-word), pela violência racial que nela está contida.

As denominações preconceituosas revelam-se também nas projeções da cultura dos brancos europeus nas formas das plantas, conjugadas a termos ofensivos aos povos originários, que são definidos como índios. Essa é a maneira como Cristóvão Colombo, que acreditava ter aportado nas Índias, chamou os habitantes nativos das Américas. São muitas as plantas em língua inglesa conhecidas como Indian + algum elemento da cultura branca, como Indian mocassin e Indian hemp. Plantas invasoras são chamadas de ciganas, um adjetivo associado a trapaceiro. O grupo étnico é rom, sinti ou caló.

No caso dos judeus, o antissemitismo incide sobre características físicas e culturais, como a barba dos religiosos, e adere a mitos milenares, como a coroa de espinhos de Jesus Cristo e a lenda maligna do “judeu errante”, que denomina a planta Tradescantia zebrina, e espécies do mesmo gênero, em vários idiomas. A lenda circula desde o século XIII na Europa e faz parte da narrativa oral da Semana Santa. Retrata a penitência de um povo que teria sido amaldiçoado a vagar pelo mundo sem descanso, sem nunca morrer, até ao fim dos tempos. Essa lenda foi uma peça-chave da propaganda nazista, a expandiu criando a figura do judeu parasita, milionário, agente de uma conspiração internacional para dominar o mundo.

Vistas da exposição. Crédito: Julia Thompson.
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Vistas da exposição. Crédito: Julia Thompson.

Obra da série "Flora mutandis", 2022. Créditos: Giselle Beiguelman / Museu Judaico de São Paulo.

Obra da série "Flora mutandis", 2022. Créditos: Giselle Beiguelman / Museu Judaico de São Paulo.

“Dissecado, compartimentado e enfileirado em jardins botânicos europeus, o universo das plantas é convertido num espaço pretensamente neutro, no qual se projetam preconceitos patriarcais, raciais e religiosos”

GL: Você poderia contar um pouco sobre o processo de construção do Jardim da resiliência? Quanto tempo durou? Como foi a interação com as equipes de pesquisa e com o corpo de funcionários do museu?

GB: O Jardim da resiliência foi uma das primeiras ideias do projeto. Desde o princípio queria apresentar essas plantas, tão presentes no nosso cotidiano e cuja violência foi neutralizada pela assimilação da mentalidade patriarcal subjacente ao colonialismo. Quantas feministas não têm uma “costela-de-adão” ao lado do seu sofá, sem perceber o grau de misoginia que fomentam, ao assumir esse nome como “natural”? O Jardim é o lugar em que a exposição cria um espelho para olharmos dentro de nós. A ideia cresceu no trabalho feito com as equipes do Museu Judaico de São Paulo. Dialoguei o tempo todo com a curadora Ilana Feldman, a coordenadora do projeto, Mariana Lorenzi, e o diretor Felipe Arruda. Foi um trabalho laboratorial em que ao longo de 6 meses de produção, discutimos todas as etapas. A expografia da Helena Cavalheiro, o design da Maria Cau Levy, a iluminação da Fernanda Carvalho foram integralmente parte da criação da obra. O artista convidado Bruno Araújo esteve comigo desde o início da pesquisa, cerca de um ano e meio atrás, e com ele enraizei as ideias. Não menos importantes foram as longas conversas com Ricardo Van Steen, que pintou as aquarelas presentes na exposição l, e com Gabriel Francisco Lemos, que compôs a paisagem sonora do espaço.

GL: As chamadas ervas daninhas “sempre combatidas, nunca erradicadas” viram o centro do seu contra-discurso e manifesto na exposição. Poderia falar mais sobre essa bandeira?

GB: Erva daninha é um termo extremamente preconceituoso. É o fruto da danação. Atualmente são chamadas de plantas espontâneas. É no processo de colonização que se instaura a ideia desse tipo de planta que os espanhóis chamavam de mala hierba. As daninhas (weeds) plantas que não têm “utilidade” para o empreendimento das plantations. Ao longo da pesquisa me chamou a atenção como muitas das plantas com nomes pejorativos e preconceituosos eram supostamente “daninhas”. Elas se tornaram, por isso, um símbolo da resiliência desses grupos sociais, culturais e étnicos – como judeus, negros, indígenas e “ciganos” (um nome em si problemático porque generaliza os rom, sinti e caló e aparece no dicionário como sinônimo de trapaceiro!) – que a padronização colonialista sempre tentou controlar e destruir. Contudo, como as plantas, esses grupos criaram seus procedimentos de resistência, de reinvenção e de sobrevivência. Por isso afirmo que “toda a erva daninha é um ser rebelde”.

Vista da exposição. Crédito: Julia Thompson.

Vista da exposição. Crédito: Julia Thompson.

GL: Publicados recentemente no Brasil, os livros de Stefano Mancuso propõem novas maneiras de olhar/pensar o universo vegetal em diálogo com a tecnologia, a ecologia e os sistemas políticos. Seu trabalho conversa com essas investigações? Que autores tomou como referência?

GB: Stefano Mancuso é um autor fundamental no debate atual. Emmanuele Coccia (A vida das plantas) também. Mas li muito autores que discutem as relações entre o colonialismo e a botânica dos séculos XVIII e XIX, como os os estudos pioneiros do historiador Warren Dean, e o que será lançado em breve no Brasil, Uma ecologia decolonial, do martinicano Malcom Ferdinand. Toda uma bibliografia dedicada ao estudo da misoginia botânica foi muito importante, como Sex, Botany and Empire: The Story of Carl Linnaeus and Joseph Banks, da historiadora Patricia Fara. Por fim, os estudos sobre raça e ciência da Lilia Schwarcz, e os do meu pai, Bernardo Beiguelman, geneticista consagrado, mas botânico de formação, sobre eugenia, atravessaram a reflexão de ponta a ponta.

Esse conjunto diversificado, que inclui também uma vasta literatura histórica, de Lineu a Galton, passando por Samuel Morton e outros racistas, me permitiu escrutinar a Inteligência Artificial por outros ângulos e aventar experimentos que apostam em um campo para além das dicotomias entre natureza e cultura, o campo de uma possível extra-natureza, menos centrado no homem e em interlocução com tecnologias orientadas para a transformação da vida.

Em síntese, Botannica Tirannica propõe um ecossistema de uma ciência errante, que só transita entre supostos erros de leitura, onde florescem seres híbridos, sem nome, sem raízes. Uma flora mutatis mutandis, ou que vive “mudando o que tem que ser mudado”.


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Gabriela Longman é jornalista, editora e pesquisadora, é mestre em Arte e Linguagem pela EHESS-Paris e doutora em teoria literária pela USP. É sócia do Guia Orbit.

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