Imagem do selo de Paulo Bruscky aplicado em um envelope. Todas as imagens desta matéria são cortesia do projeto "These Times".
Reportagem

These Times

Barbara Mastrobuono
7 out 2020, 12h59

Durante o mês de outubro é lançado o “These Times” [Esses tempos], o mais novo projeto de Sandra Antelo-Suarez, curadora responsável pela plataforma artística TRANS>, sediada em Nova York. Foram convidados cinquenta artistas e instituições ligadas aos Estados Unidos, Colômbia, Brasil, México, Perú, Argentina, Porto Rico, Guatemala, Espanha, Venezuela e Japão para a criação de selos postais. O resultado é uma cartela de cinquenta selos, que podem ser aplicados em cartas e enviados por correio (quando acompanhados de um selo oficial emitido pelos correios). Participam nomes como Ernesto Neto, Paulo Bruscky, Laura Lima, Lia Chaia, Santiago Sierra, Damián Ortega, Anri Sala, entre outros. “A ideia não é reproduzir obras de arte, mas sim realizar um gesto de união durante esses tempos, sinalizando que precisamos fazer algumas mudanças”, relata Antelo-Suarez.

A concepção da cartela de selos se deu durante a quarentena iniciada no mês de maio. Com a cidade de Nova York esvaziada, a curadora notou como os serviços de comunicação – em particular, as agências de correios – mantinham-se ativos. “Estávamos todos confinados em nossas casas, alguns com mais dez pessoas, outros sozinhos” conta. “Como conseguir criar uma rede de apoio e contato nesse tipo de circunstância?”. O raciocínio curatorial foi de se apropriar das redes de distribuição, entendendo que atuam como ferramenta para disseminação de pensamento.

Acima: Imagem do selo de Paulo Bruscky aplicado em um envelope.
Todas as imagens desta matéria são cortesia do projeto "These Times".

201006-sparte-edit-these_times-selo-1 Regina Galindo Crossed
201006-sparte-edit-these_times-selo-1 Marcela Cantuária Crossed
201006-sparte-edit-these_times-selo-1 Paulo Bruscky Crossed
ESTAMP.FELIC

A distribuição dos correios já desempenhou um papel crucial na disseminação de ideais e de projetos artísticos frente à instabilidade de instituições: ao longo dos anos 1960 e 1970, o movimento de arte postal uniu artistas de diversas partes do globo. Sua atuação foi particularmente significante na América Latina que, por sua vez, passou essas duas décadas enfrentando ditaduras militares e censuras decorrente de governos autoritários. Nas palavras de Cristina Freire: “Na arte postal, o correio passa a ser o suporte privilegiado da arte. Aí não parece elucidativo identificar isoladamente cada artista, uma vez que toda a rede de comunicação, emissor-receptor, mensagem e suporte constituem um sistema único. (…) Muitas vezes, especialmente na América Latina, o conteúdo desses trabalhos, nas difíceis décadas de 1960 e 1970, é eminentemente político. Também a arte postal se constitui, nesse momento, numa estratégia de liberdade diante do contexto político opressor.”

Diante de uma eleição presidencial polarizante que irá ser realizada em menos de um mês, os Estados Unidos se encontram em um entrave político muito conhecido pelos seus vizinhos ao sul – o da eminência do governo autoritário instaurado por meio do voto democrático. E, com o presidente Donald Trump ameaçando cortar verbas dos correios para interferir nos votos realizados à distância (em um país onde o voto não é obrigatório e pode ser efetuado por correio), a instabilidade institucional se torna uma ameaça à democracia. Dessa forma, “These Times” é também um chamado ao voto e ao engajamento democrático do povo, colocando em evidência o poder dos correios. A curadora, que nasceu no Rio de Janeiro e se criou na Bolívia antes de se mudar para a América do Norte, fala: “Nós, que viemos de países nos quais duas refeições por dia é um luxo, sabemos o que significa ter algo tirado de nossas mãos.”

Cristina Freire, “Poéticas do processo: arte conceitual no museu” (Editora Iluminuras, 1999).

201006-sparte-edit-these_times-selo-1 Marcelo Cipis Crossed
201006-sparte-edit-these_times-selo-1 Ernesto Neto Crossed
201006-sparte-edit-these_times-selo-1 Anri Sala Crossed
201006-sparte-edit-these_times-selo-Damián Ortega Crossed

Os selos em si ecoam as pesquisas dos artistas que os criaram, ao mesmo tempo que são um objeto inédito por si só. Ernesto Neto, cuja prática desafia a construção imaginária em torno de esculturas e que brinca com diversos materiais postos em relação à gravidade para assim abraçar a interação física em seus trabalhos, apresenta um selo que dialoga com formas orgânicas.

Marcelo Cipis cria um corpo surrealista, composto apenas de uma grande cabeça e pequenas pernas, evocando uma forma em busca de um coração, e recriando pictoricamente a experiência de se estar confinado em um apartamento, com corpo e espaço se tornando um só.

O artista mexicano Damián Ortega explica, ele mesmo, de onde nasceu a imagem em seu selo: “Para a quarentena, buscamos refúgio em Tepoztlán, a uma hora da Cidade do México. Durante os tempos de incerteza começamos a brincar fazendo máscaras com o que nós tínhamos em casa. A Julia, milha filha, fez essa máscara de alface. Gosto muito dessa foto pois por trás de tudo dá para ver o seu olhar, cheio de nostalgia.”

201006-sparte-edit-these_times-selo-1 Santiago Sierra Crossed
201006-sparte-edit-these_times-selo-1 Juan José Olavarría Crossed
201006-sparte-edit-these_times-selo-1 Mario Garcia Torres Crossed
201006-sparte-edit-these_times-selo-Héctor Zamora Crossed

O quadragésimo nono selo serve de convite para aquele que recebe a cartela: um selo em branco, com a frase “crie seu próprio selo”. Assim, a obtenção da cartela de selos é apenas o primeiro passo. As obras são ativadas ao serem enviadas em cartas para outras pessoas, distribuídas por uma larga rede física e, assim, inserindo os selos-obras dentro das casas, transformando-as em instituições artísticas em seu próprio direito. E assim como os artistas criaram selos, você também é convidada(o) a criar um.

O projeto todo é uma espécie de hino das crenças curatoriais de Antelo-Suarez. A pandemia que estamos enfrentando coletivamente em 2020 escancarou diversas frestas e rachaduras nos mecanismos de nossa sociedade e do funcionamento do mercado artístico. Um dos caminhos para nos recompormos, diz Antelo-Suarez, é pensarmos na humildade dos projetos artísticos.

Curiosamente, os selos não têm em si valor postal, o que significa que o correio não reconhece sua legitimidade. Para criar selos com uma validade indeterminada (na nomenclatura estadunidense, são os selos com a palavra “forever” [para sempre] inserida no espaço destinado ao valor), seriam necessários 50.000 dólares investidos no projeto, orçamento muito além do alcance de todos os envolvidos nele. Portanto, cada selo do “These Times” tem a palavra “forever” riscada, de forma a deixar claro que se trata de um projeto artístico e não uma configuração funcional de falsificação. No lugar do valor, a curadora inseriu um coração. “Eu sei que o amor é algo clichê. Mas é algo intangível. Algo que nunca terá preço”.

A cartela pode ser baixada gratuitamente no site transmag.com, e está sendo distribuída fisicamente nas edições de outubro da revista Frieze.


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Barbara Mastrobuono é editora, tradutora e pesquisadora. Trabalhou em casas editoriais como Editora 34 e Cosac Naify, e atuou como coordenadora editorial da Pinacoteca de São Paulo. Entre os títulos que traduziu estão “Tunga, com texto de Catherine Lampert; “Poesia Viva”, de Paulo Bruscky, com texto de Antonio Sergio Bessa; e “Jogos para atores e não autores”, de Augusto Boal. Defendeu sua dissertação de mestrado pelo departamento de Teoria Literária da Universidade de São Paulo, e conta com textos publicados em revistas de conteúdo cultural como a Amarello. Atualmente é editora-chefe da SP-Arte.

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