Helena Obersteiner, detalhe de "Nave espacial e batata doce" (2021). Grafite sobre papel. 28 x 58 cm
Arte Contemporânea

Respondendo sem palavras: como ancorar em 2021

Barbara Mastrobuono
25 fev 2021, 16h40

Como continuar produzindo arte em 2021 — essa foi a pergunta feita à artista Helena Obersteiner, em conversa sobre como seguir em frente no mundo pós-pandêmico, pré-vacina, pré-terceira onda que navegamos esse ano. A resposta, ao invés de vir em texto, chegou em forma de desenho: “O fazer do desenho é por elaboração. Não passa por palavras”, pontua Obersteiner.

Confrontada com a pergunta, a artista conta que seu pensamento primeiro se voltou para a vida. “Meu trabalho é sobre como acho graça na vida. Mas como encontrar graça nas coisas agora?”. Representada pela Galeria Aura, sua prática transita entre diferentes mídias, encontrando forma no desenho, na tatuagem e na arte têxtil. Também é criadora do curso “Desenhos feios”, ministrado desde 2019 no CC.Espaço, onde propõe exercícios para a compreensão do desconforto na técnica criativa. Atualmente, Obersteiner coloca, estamos vivendo o dia que nunca acabou. E por isso, só é possível continuar produzindo ao acessar o passado e o presente distendido, tentando compreender o tempo de forma nova. “Como ancorar tudo isso” se pergunta a artista “e isso se revelar no papel?”. Obersteiner se vê crescentemente interessada por narrativas de ficção científica, encontrando nelas a possibilidade de explorar graficamente a percepção do tempo e sua ação sobre diversos mundos. São as narrativas, mas também a estética inter-estrelar criada antes da virada do século que a interessa. Também conta da sua rotina pandêmica em confinamento ao lado dos seus gatos, e as trocas que precisam ser feitas para a convivência pacifica entre as diversas presenças na casa. “O meu procedimento para seguir produzindo, no fim, vem da aconragem. Pelos desenhos ancoro e manifesto os medos” diz a artista, sorrindo “e outras formas de vida.”

Confira abaixo as respostas, em desenho, de Helena Obersteiner.

Acima: Helena Obersteiner, detalhe de "Nave espacial e batata doce" (2021). Grafite sobre papel. 28 x 58 cm

"Alimento" (2021). Grafite sobre papel. 28 x 38 cm

"Alimento" (2021). Grafite sobre papel. 28 x 38 cm

“Estamos vivendo o dia que nunca acabou, e é necessário encontrar novas relações com nosso passado e futuro, com o acesso à memória.”

"Sete" (2021). Grafite sobre papel. 57 x 76 cm

"Sete" (2021). Grafite sobre papel. 57 x 76 cm

"Luas em combate" (2021). Grafite sobre papel. 57 x 76 cm

"Luas em combate" (2021). Grafite sobre papel. 57 x 76 cm

“Como ancorar o tempo cíclico — as órbitas do planeta —, e isso se revelar no papel? Acessando o tempo distendido e deixando suas informações se processarem, não por palavras, mas por elaboração.”

"Nave espacial e batata doce" (2021). Grafite sobre papel. 28 x 58 cm

"Nave espacial e batata doce" (2021). Grafite sobre papel. 28 x 58 cm

"Portal" (2020). Grafite sobre papel. 38 x 57 cm

"Portal" (2020). Grafite sobre papel. 38 x 57 cm

“Pelos desenhos ancoro nossos mundos paralelos. Manifesto os medos, e outras formas possíveis de vida.”

"Roda-roda" (2021). Grafite sobre papel. 38 x 58 cm

"Roda-roda" (2021). Grafite sobre papel. 38 x 58 cm


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Barbara Mastrobuono é editora, tradutora e pesquisadora. Trabalhou em casas editoriais como Editora 34 e Cosac Naify, e atuou como coordenadora editorial da Pinacoteca de São Paulo. Entre os títulos que traduziu estão “Tunga, com texto de Catherine Lampert; “Poesia Viva”, de Paulo Bruscky, com texto de Antonio Sergio Bessa; e “Jogos para atores e não autores”, de Augusto Boal. Defendeu sua dissertação de mestrado pelo departamento de Teoria Literária da USP. Atualmente é editora-chefe da SP-Arte.

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