Paul Setúbal em seu ateliê (Foto: Cortesia do artista)
Entrevista

Paul Setúbal sobre como continuar a Residência Delfina mesmo à distância

SP-Arte
30 mar 2020, 15h33

Vencedor da última edição do Prêmio de Residência promovido pela SP-Arte em parceria com a Delfina Foundation, o artista Paul Setúbal fala sobre seu processo de criação em meio à crise da COVID-19. O artista, representado pela Casa Triângulo (São Paulo) e C.galeria (Rio de Janeiro), encerrou prematuramente sua estadia de três meses em Londres por conta da pandemia, mas conta que os trabalhos seguem virtualmente.

Acima: Paul Setúbal em seu ateliê (Foto: Cortesia do artista)

Apesar da residência ter se encerrado mais cedo devido às circunstâncias, é possível dimensionar as influências que ela terá em sua carreira?

Paul Setúbal: A equipe da Delfina Foundation e os artistas estão trabalhando em alternativas online para dar continuidade ao trabalho iniciado na residência: conversas com curadores, pesquisadores, instituições e artistas – uma troca contínua realizada durante os dois meses e meio de convivência e que continua agora nas plataformas digitais. Assim, de casa estou desenvolvendo o programa e trabalhando em projetos futuros que tiveram início em Londres. O tempo que passei como residente foi um período intenso de pesquisa e produção. Estive focado em finalizar alguns trabalhos para minha próxima individual na Casa Triângulo (São Paulo) e também usei o tempo da residência para desenvolver projetos que realizarei em breve, parcerias futuras e uma nova gama de produção. De volta ao Brasil já consigo perceber em meu trabalho aspectos e referências que reverberam da residência, como a minha pesquisa que cada vez mais vem se interessando por referências locais na mesma medida em que são globais, como as questões de fronteiras ou luta por controle de terras. Essas problemáticas vêm ocorrendo de formas distintas e simultâneas em diversos países, e notei que há interesse internacional em pesquisas que tratem da complexidade de eventos desta natureza. Quero cada vez mais em minha produção me dedicar a relações de intersecção entre o local e global.

"O vazio está cheio de mim ou entre o martelo e a bigorna" (2017), Paul Setúbal (Foto: Paul Setúbal / Cortesia C.galeria)

"O vazio está cheio de mim ou entre o martelo e a bigorna" (2017), Paul Setúbal (Foto: Paul Setúbal / Cortesia C.galeria)

Como foi essa volta precipitada ao Brasil? Como você acredita que essa situação global irá impactar seu trabalho artístico, pensando na produção e também na temática?

PS: O retorno ocorreu observando o fechamento das fronteiras e compreendendo que a recomendação futura tanto na Inglaterra quanto no Brasil seria permanecer em casa. Por conta desta situação excepcional é que decidimos encerrar o período de residência e buscar alternativas para não interromper os diálogos e contatos realizados previamente. A estratégia tem funcionado: continuo seguindo o calendário do programa com encontros virtuais ou me dedicando à escrita. Os meus trabalhos sempre começam a partir de algum acontecimento em minha vida e esses últimos três meses foram de impacto em meu modo de pensar. Muitas obras em que trato da vida social ou política, relações de poder e dominação são baseadas em experiências pessoais, ora vivendo na periferia de Aparecida de Goiânia, com índice altíssimo de violência, na capital do poder em Brasília, ou em metrópoles como Rio de Janeiro e atualmente São Paulo. Essas experiências é que foram moldando e transformando minha pesquisa, que muitas vezes é um tipo de reação a alguma onda de choque no meu corpo.

Londres já começa a impactar minha produção, não somente pela vida cultural da cidade, mas também pelos acontecimentos em escala local e global que vivenciei, como a despedida britânica da União Europeia com o Brexit e a pandemia ainda em curso que por lá chegou a algum tempo. Acompanhei de perto como a cidade desenvolveu parte de suas políticas para tratar desses assuntos, o que me levou a revisitar alguns projetos que havia iniciado tratando das questões de fronteiras, políticas de Estado e das cidades, já que essas relações englobam os direitos do corpo, que é um dos pontos mais importantes em meu pensamento. Percebo que minha produção, especialmente em períodos de residência, vai se transformando na mesma medida em que a vida política do contexto em que vivo se transforma. Certamente ainda é muito cedo para lidar como o montante da experiência, pois ainda está em curso e se trata de um cenário que se modifica a cada hora. Então é um exercício diário que ao mesmo tempo tenta digerir os acontecimentos recentes e busca lidar com um cenário cambiante em escala global.

O corpo é uma de suas principais ferramentas artísticas. Como é seu processo de criação a partir dele, e como você enxerga desdobramentos possíveis a partir do que já explorou?

PS: Minha pesquisa é dedicada às experiências que o corpo tenta ressignificar. Muitas vezes começa a partir de um acontecimento pelo qual fui impactado ou que não pude compreender em primeiro momento. Então essas situações passam a se tornar assuntos na minha produção. Em 2015 fiz minha primeira exposição individual em Brasília, no Elefante Centro Cultural. A exposição se chamou “Aviso de incêndio”, pois naquele período, especialmente em Brasília, onde se convive muito próximo das figuras de poder, havia no ar uma sensação premonitória de que estávamos próximos de um colapso do sistema político. Havia também boatos que vieram diretamente de alguns gabinetes políticos, antecipando acontecimentos que posteriormente se tornaram públicos. Nesse sentido, minha produção se voltou para a tentativa de compreender um pouco aquilo que estávamos passando naquele período, o Zeitgeist do momento.

Esse mesmo modus operandi têm sido uma espécie de guia dos meus trabalhos recentes: tenho tentado compreender o que paira no ar, o que há nessa energia coletiva que meu corpo vem indicando como assunto. Já desenvolvi uma série de projetos e rascunhos sobre esses novos tema, que devo apresentar como trabalhos em breve, e lidam, por exemplo, com os arquétipos de masculinidade que perduram a violência como meio de se fazer política. Enquanto vou projetando (geralmente produzo aquarelas), vou desdobrando o pensamento e também revisitando questões anteriores em minha produção em relação ao projeto nascente. É uma forma de compreender se a nova empreitada de pesquisa se relaciona com o resto da minha produção e pensamento.

"Compensação por excesso" (2017–2018), Paul Setúbal (Foto: Paul Setúbal / Cortesia C.galeria)

"Compensação por excesso" (2017–2018), Paul Setúbal (Foto: Paul Setúbal / Cortesia C.galeria)

"Compensação por excesso", performance apresentada por Paul Setúbal no Setor Performance da SP-Arte 2018 (Foto: Ênio Cesar)

"Compensação por excesso", performance apresentada por Paul Setúbal no Setor Performance da SP-Arte 2018 (Foto: Ênio Cesar)

Seu trabalho transita em diferentes plataformas, do objeto à performance. Como esse trânsito se dá? E como sua pesquisa se transforma nessas diferentes expressões?

PS: É sempre o trabalho que vai me dizendo, na medida em que vou elaborando, qual é o formato final da obra. Às vezes começo um projeto em vídeo e o finalizo em performance ou começo em pintura e finalizo em escultura. Durante o desenvolvimento de um novo trabalho, vou entendendo quais os formatos mais adequados para lidar com as questões que vão surgindo, seja de ordem conceitual ou técnica. É comum que eu busque aprender alguma técnica nova para lidar com algum material que acaba de aparecer em minha produção. Por exemplo, tenho trabalhado com couro de boi, um material muito comum na vida de qualquer goiano, e com o qual tenho alguma familiaridade, na confecção de roupas e acessórios como cintos e alforjes. No momento tenho me dedicado a estudar técnicas de corte e costura para aprimorar o desenvolvimento de novas esculturas que usam couro como matéria.

É comum que eu desenvolva uma mesma ideia em formatos diferentes, ou que trabalhos com mesmo título se desenvolvam por vias completamente diversas. Por exemplo, a performance apresentada no Setor Performance durante a SP-Arte 2018, “Compensação por excesso” lidava com a relação de excessos entre o corpo, capital, mercado e história. Esse trabalho retoma os anos em que trabalhei como funcionário do museu do Centro Cultural UFG, quase recriando o momento em que manuseei obras de arte de valores altíssimos, e que na condição de funcionário fui responsável por salvaguardar artefatos históricos. No mesmo sentido, os objetos da série “Compensação por excesso” mostram cassetetes retorcidos e gravados com marcas humanas, apresentando o excessivo uso da violência pelos aparelhos do Estado nas sociedades contemporâneas, experiência que retoma minha infância em um Centro-Oeste extremamente violento e meu presente convivendo com a violência instaurada nas grandes metrópoles que habito. Ambos os trabalhos lidam com o conceito de excesso, mas possuem soluções completamente diferentes. Acredito que seja um modo de lidar com assuntos que não se esgotam em uma única elaboração, já que a dominação e o poder são forças que habitam os mais diversos mecanismos da sociedade.

Você faz parte do setor Solo da SP-Arte 2020, que foi suspensa até um momento mais oportuno. Poderia contar um pouco dos trabalhos que integram a curadoria de Alexia Tala?

PS: Para o setor Solo, em parceria com a C.galeria (Rio de Janeiro), pensamos em um recorte dos meus últimos três anos de produção que necessariamente dialogasse com as problemáticas atuais do país. Selecionamos obras que englobam disputas políticas e territoriais, como os conflitos por terras no interior do país ou a truculência que assola os grandes centros urbanos, nos baseando em minha última exposição individual no Rio de Janeiro, “Corpo fechado” (2018), na C.galeria. Lá, apresentei trabalhos que pensavam o corpo como símbolo maior da resistência que hora beirava o impossível, sendo mais forte que o metal e capaz de ferir objetos em bronze, ou um corpo que buscava cicatrizar suas feridas a todo custo, ainda que por processos árduos como a cauterização. Compreendendo a velocidade em que a situação política do país vem mudando dia a dia, é provável que para o setor Solo, intitulado “Camadas do tempo” por Alexia Tala, o recorte de trabalhos mude conforme as problemáticas sociais se transformem, pois meu interesse é apresentar um conjunto de obras que dialoguem com a contemporaneidade, onde o corpo é uma estrutura frágil, mas que possui a capacidade de suportar a todo tipo de pressão nas sociedades. Provavelmente devo apresentar algum trabalho inédito que lide com as experiências da Delfina Foundation ou que tente lidar com a energia social que estamos vivendo. Certamente, até a próxima edição da SP-Arte o mundo não será o mesmo.

"A balada da primeira queda" (2017), Paul Setúbal (Foto: Paul Setúbal / Cortesia C.galeria)

"A balada da primeira queda" (2017), Paul Setúbal (Foto: Paul Setúbal / Cortesia C.galeria)

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