Os artistas Helen Sebidi, Dona Dalva e Melvin Edwards durante a 'Death & Life Art Residency' (Foto: Ricardo Kugelmas)
Entrevista

Outros fundamentos filosófico-culturais: ética e estética africana e afro-brasileira em diáspora

Alexandre Araujo Bispo
17 ago 2020, 14h37

A 01.01 Art Platform foi fundada em 2019, e tem criado reverberações nacionais e internacionais desde sua concepção. Responsáveis pela Death & Life Art Residency, a plataforma promove o intercâmbio de artistas africanos e afrodiaspóricos com o Brasil. O antropólogo Alexandre Bispo conversou com Ana Beatriz Almeida, Moisés Patrício, João Simões e Keyna Eleison sobre a criação da plataforma e suas vontades e objetivos.

Acima: Os artistas Helen Sebidi, Dona Dalva e Melvin Edwards durante a 'Death & Life Art Residency'
(Foto: Ricardo Kugelmas)

Ana Beatriz Almeida, você, juntamente com o artista visual paulistano Moisés Patrício, criaram a 01.01 Art Platform. Como surgiu a ideia para a criação da plataforma? O que significa esse nome e como é a parceria com esse que é um dos grandes artistas da arte contemporânea afro-brasileira?

Ana Beatriz Almeida: O nome é a data do fim da revolução do Haiti, e a ideia básica é reconhecer que neste momento muitas revoluções já foram feitas: Haiti, a Revolta dos Malês no Brasil, entre outras. Somos o resultado de todas elas. A questão que se coloca é: o que fazer do mundo após as revoluções? Bem, em 2018 eu havia retornado do Can Serrat, uma residência na Espanha onde eu era a única artista afrodescendente. Naquele mesmo ano, um pouco antes, eu havia lecionado minha técnica de performance (chamada N’Gomku) na Goldsmiths University of London para um coletivo de mulheres afrodiaspóricas e, novamente, eu era a única artista afro-brasileira. Esses dois eventos me fizeram perceber o quanto ter sido o último país a abolir a escravidão impactava diretamente na representação dos artistas afro-brasileiros, no sentido que viajamos pouco e frequentemente entramos na cota de artistas africanos, ou seja, não somos reconhecidos como brasileiros. Ao retornar para o Brasil, entendi que não era possível eu continuar sendo a única, então procurei o Moises Patrício e tivemos nossa primeira reunião. Participaram desse encontro as artistas Renata Felinto e Sheyla Ayo. Renata, que é professora da Universidade Estadual do Cariri (Ceará) participou online. Inicialmente nos unimos para decidir o que queríamos, visto que nossa ausência enquanto tomadores de decisão no mundo da arte é pequena ou quase nula. A ideia inicial era apenas criar uma agenda própria, mas o grupo entendeu que viajar e conhecer outras experiências diaspóricas e africanas era importante. Em um segundo momento comecei a pensar em parceira com agentes do Reino Unido, como o coletivo Bockantaj que integra a plataforma, como colocar em prática essa agenda. Percebemos a falta de representação dentro de uma ética e estética africana ou afrodiaspórica de nossas obras. Neste momento, ampliamos a agenda para além de viagens e intercâmbios, e começamos a pensar também na representação e sensibilização de colecionadores para estas diretrizes filosóficas-culturais – a Death & Life Art Residency sintetiza esses interesses em uma única atividade. Logo, o formato que se dá na 01.01 Art Platform se relaciona muito com como o Moisés e eu organizamos ética e esteticamente nossas próprias escolhas, visto que ambos estamos ancorados em um vínculo institucional intenso e fundante em torno de fundamentos estéticos e filosóficos africanos e afro-diaspóricos. Para iniciar esta alquimia, era preciso um duplo de saberes acadêmicos e práticos que lesse as filosofias de matriz africanas de maneira muito consistente, academicamente e na prática, pensando Américas e Áfricas. O conhecimento que o Moisés emprega nas obras dele, por exemplo, entre outras, na famosa série Aceita? advém de uma longa trajetória como sacerdote na prática afrodiásporica destas lógicas, enquanto minha pesquisa acadêmica se relaciona com estas filosofias num campo conceitual-simbólico de uma pesquisadora afro-brasileira retornada ao Benin via produção acadêmica. A organização básica da plataforma orienta-se também por estas dinâmicas distintas de acesso ao mercado de arte através de um prisma epistêmico filosófico do golfo do Benin, mas que encontram eco em éticas e estéticas de diversas outras culturas africanas. Atualmente somam-se a estas bases pessoas que acreditamos ser protagonistas na progressão do projeto, neste momento de reformulação social ética e estética. A Camilla Campos, por exemplo, tem trabalhado na interface institucional do Capacete e lecionado no Escola de Artes Visuais do Parque Lage. A articulação realizada por ela entre os programas públicos e o institucional tem tecido silenciosamente uma nova rede de possibilidades não apenas para a arte nacional. A Keyna Eleison, curadora carioca, tem sido uma articuladora do pensamento de arte que vai desde a última exposição do Carlos Vergara, passa pela Cooperativa de Mulheres e pelo Levante Nacional TROVOA, projeto que reúne mulheres não brancas do Brasil todo. É importante lembrar do João Simões, curador não binário, que vem trabalhando com as produções afro-brasileiras LGBTQI+ de modo a colocá-las no circuito global conectando-as com artistas e instituições nigerianas. Finalmente a Thayna Trindade, nossa assistente de curadoria que tem um olhar diferente de todos nós. Entre suas tarefas está o relacionamento com as novas mídias, os artistas emergentes e suas necessidades de base. De todas as instituições que me permeiam, entre elas a King’s College e a Universidade de São Paulo (USP), a 01.01 Art Platform é a que mais me nutre e inspira.

As artistas Helen Sebidi e Dona Dalva durante a 'Death & Life Art Residency' (Foto: 01.01 Art Platform)

As artistas Helen Sebidi e Dona Dalva durante a 'Death & Life Art Residency'
(Foto: 01.01 Art Platform)

Os campos de atuação da plataforma são, respectivamente, o fomento à produção artística e a comercialização de obras de artistas africanos e afro-diaspóricos. Quais projetos a Plataforma já realizou e como são escolhidos os artistas que nela atuam?

01.01 Art Platform: Primeiramente, nosso intuito é a representação de artistas, fomento à produção e posicionamento de mercado. Sendo assim nosso foco não está apenas nos artistas, mas também nos colecionadores e nas maneiras de se consumir arte. Nosso objetivo é criar uma nova forma de experiência de arte para além de um estado passivo de observação da obra e ocasional aquisição. A proposta é que a experiência de arte se amplie para a descoberta de um outro universo filosófico e conceitual baseado em filosofias africanas e afrodescendentes. Compreendemos que a própria pandemia de Covid-19 nos revela a necessidade de reinventar a existência, logo, entendemos a arte como a entrada para outra perspectiva diante da vida. A Death & Life Art Residency é, nesse sentido, o carro chefe de nossas atividades, porque ela consegue sintetizar nossos objetivos maiores. Nesta residência, artistas, colecionadores, curadores e ativistas da arte se encontram numa comunidade temporária em Cachoeira, cidade histórica baiana que recebeu o maior número de etnias africanas durante o período da escravidão. A cidade é importante também por ser reputada como o berço do candomblé. Nesta última edição tivemos entre os artistas: Helen Sebidi, Kapela Paulo, Melvin Edwards, Thulani Rachia, Moises Patricio, Sekai Machache, Alberta Whittel, Ana Biolchini e Dona Dalva; entre os curadores, colecionadores e artivistas da arte contamos com Natascha Frota (sócia da Garimpório, escritório de design de interiores e arte, com enfoque em alquimia de espaços, juntamente com a Rafaela Lucena e a Jess Amorelli), Rica Kulgelmas (a frente do Auroras) e a Catarina Duncan. Desta última experiência nasceu o TRIA, um clube de colecionadoras que é uma fusão da 01.01 Art Platform com a Garimpório. Nosso aquecimento para a residência contou com talkings que facilitaram o acesso a artistas e colecionadores com o mercado internacional de arte africana e afro diaspórica como o da Camille Ostermann da 1:54 no Capacete; um talking que contou com a Yola Balanga (Angola) e a Sekai Machache ( Zimbabue/ Reino Unido) no Instituto dos Pretos Novos; e nossas conversas na Art Rio, além do evento de abertura em 2019 no Festival dos Espaços de Artistas (Lisboa) com “O grande banquete de extinção da população humana portuguesa OU Plantação de eucaliptos” em parceria com a galeria portuguesa Ilha do Grilo.

Por que vocês preferem usar o termo plataforma ao invés de galeria que é uma palavra mais conhecida pelo mercado de arte?

01.01: ‘Galeria’ tem um tipo de relacionamento que exclui algumas das nossas atuações, que são diversas. Todavia, a ideia de galeria, claro, ajuda a desenvolver e divulgar a produção individual de cada artista que está vinculada a ela.

Enquanto plataforma, podemos abarcar toda a atuação de uma galeria e nos desvincular formalmente das amarras que artistas e galerias podem ter no mercado. Enquanto plataforma, a fluidez na relação com cada artista pode se dar pelo diálogo e interesse de ambas as partes para que a relação se expanda ou comprima de acordo com o que ambas as partes desejem. A conversa é constante, o trabalho é intenso e a troca se difere a partir de interesses espaço-temporais múltiplos. Em cada lugar uma forma de lidar, uma conversa e uma aproximação. Enquanto Plataforma, abrimos o diálogo para trabalhar junto a galerias, como parceiras, agentes de possibilidades.

Como a 01.01 Art Platform encaram a questão do pioneirismo dessa parceria com a SP-Arte?

01.01: A SP-Arte e 01.01 Art Platform só se alimentam. Cada uma pode se ver como possibilidade de expansão em campos diversos. As galerias e colecionadores podem ver mais possibilidades de perceber buracos em suas próprias coleções e na pesquisa para as formações de portfólio específico e global do que se faz no campo da arte.

Esta parceria pode ser o ponta pé intelectual para várias possibilidades de percepção de mercado de arte e seus desdobramentos no campo artístico como um todo. Só expandimos, o que nada mais é que um exercício constante na arte.

Helen Sebidi e liderança do Quilombo Kaonge durante a 'Death & Life Art Residency' (Foto: Natacha Frota)

Helen Sebidi e liderança do Quilombo Kaonge durante a 'Death & Life Art Residency'
(Foto: Natacha Frota)

Que orientações vocês dariam aos colecionadores interessados nas temáticas com os quais a plataforma trabalha, e quais técnicas e linguagens artísticas eles poderiam encontrar no estande virtual da 01.01 Art Platform no SP-Arte Viewing Room?

01.01: A orientação principal da curadoria da 01.01 Art Platform é a de auto percepção. As coleções ditam as datas das obras de arte, as tendências, as verdades no campo da arte. As pessoas do meio que serão estudadas, percebidas e, principalmente, encontradas com cada vez mais facilidade nas pesquisas não só para exposições, mas para livros, investigações de interesse acadêmico, textos, teses, encontros, conceitos, vivências, desenvolvimentos e formulações de cultura e arte de um tempo-espaço. Vale muito ter a ideia do que fica. A escolha do que cairá no ostracismo, no que será mais difícil de ser encontrado. 

É importante entender que o que hoje é tema, amanhã pode fazer parte de uma construção de normalidade da situação em Arte que só as coleções podem dar. E cito no plural: Coleções, por conta de entender a qualidade e a quantidade como parte da formação do que chamamos hoje de humanidade e que tende a mudar constantemente.

Entendo que a questão na arte e não está apartada de todos os campos da vida por simples exercício filosófico (minha formação e caminho) e trabalhos afro-centrados não dão apenas o tema da excentricidade numa coleção, mas a faz mais completa como potência intelectual.

Lembremos que uma coleção é antes de tudo um discurso. O que cada um tem a falar, muito mais que uma questão de gosto é uma questão de profundidade de percepção. “Coleções não dão conta de uma ideia?” perguntamos. Façamos agora o que sempre foi feito e não nos desculpemos pelas ausências por conta da ignorância. Iniciativas como a 01.01 Art Platform trazem não só um cardápio, mas uma potência intelectual de experienciar o que é a pluralidade de verdades, belezas e existências intelectuais negras. Nos últimos anos foram inúmeras as experiências de curadorias em instituições, museus e galerias de produção de artistas africanxs e negrxs afrodiasporicxs no Brasil e no mundo, e muitas delas foram relacionadas aos artistas que integram a plataforma, assim como uma intensa produção crítica sobre suas produções. Além disso, observa-se em caráter global um crescimento exponencial do mercado de arte africana e negra, com o crescimento não somente da participação desses artistas e suas galerias nas grandes feiras internacionais, mas nos eventos realizados no continente africano (esses dados podem ser encontrados do site da plataforma). Há um universo riquíssimo de informações e conteúdos para que colecionadores, curadores e instituições possam conhecer e se aprofundar no assunto. Finalmente, gostaríamos de aproveitar para convidar a todxs a visitarem o estande virtual da plataforma, acompanhar as entrevistas e participar das lives. É um oportunidade de conversarmos melhor sobre os artistas da plataforma e saber mais sobre essa produção que passa pela pintura, fotografia, escultura, instalação, performance, vídeo, entre outras linguagens. O estande virtual contará com perfis biográficos dos artistas, imagens e valores das obras. Merece destaque o artista afro-americano Melvin Edwards, que teve uma individual no Masp em 2018; Sekai Machache; e Moisés Patrício que, em 2019, realizou individual em Nova York.

Thiffany na roda de samba de Dona Dalva durante a 'Death & Life Art Residency' (Foto: 01.01 Art Platform)

Thiffany na roda de samba de Dona Dalva durante a 'Death & Life Art Residency'
(Foto: 01.01 Art Platform)

Em 2014 a curadora Fabiana Lopes publicou um texto intitulado “Arte contemporânea no Brasil: falando das coisas que (não) existem”. Escrito no contexto da SP-Arte daquele ano Fabiana demonstrava como galerias brasileiras desconheciam a produção plástica feminina e negra a ponto de causar espanto em colecionadores estrangeiros. Qual é a situação atualmente e como a plataforma pode fazer ver não apenas a arte afro- brasileira, afro-americana e africana?

01.01: De 2014 para cá houve poucas mudanças, parte das galerias e colecionadores ainda desconhece a produção plástica negro-descendente no país. Nesse sentido tem muito ainda a ser estudado, documentado e escrito para dar conta da complexidade dessa produção. Veja: somos mais de 50% da população brasileira, somos regidos por uma cosmovisão que é atacada de todas as formas, quando não minimizada e menosprezada. É comum nesses ataques a animalização e mistificação; isso porque parte dos colecionadores e instituições culturais ainda buscam o “exótico”, o “artesanal”, o “mítico” e o “tradicional” na produção plástica negro-descendente. Ao fazerem isso, eles não se atentam para a potência da produção negra que envolve uma variedade de temas, entre os quais a sexualidade, o sagrado, a dimensão formal, a ciência e a tecnologia, a crítica urbana etc. A plataforma nasceu do encontro de diversos artistas e intelectuais, como foi dito no começo desta entrevista, e ela criou corpo em redes sociais como o Instagram e no próprio site. Uma das propostas da plataforma é justamente borrar as fronteiras construídas na diáspora africana, redesenhando novas geografias poéticas, plásticas e políticas circulando entre os mundos digital e analógico.

Além do estande na SP-Arte, os fundadores da plataforma Moisés Patrício e Ana Beatriz Almeida vem coordenando, desde 2019, uma residência artística transnacional – África, América e Europa – em Cachoeira na Bahia. Quem são os artistas e porque a escolha da célebre cidade de Cachoeira na Bahia

01.01: A 01.01 Art Platform pretende promover anualmente esta residência de maneira fixa no calendário da arte contemporânea brasileira. Nesta última edição a curadoria e produção executiva foi majoritariamente desenvolvida pela Ana Beatriz Almeida. Também contamos com o apoio da Thayna Trindade, nossa jovem e talentosíssima assistente que nos auxilia na 01.01 Art Platform. A participação de Moisés Patrício como membro das comunidades de matriz africana de terreiro e como artista funcionou como um modo de mediar os contextos africanos e afrodiaspóricos dos integrantes convidados, entre os quais a artista/mestra sul-africana Helen Sebidi e Thulani Rachia, o mestre Kapela Paulo (Angola), Sekai Machache (nascida no Zimbábue, mas criada na Escócia), Sabrina Henry (Inglaterra/Escócia), Alberta Whittle (Escócia), a própria Ana Beatriz (Brasil) e a Yalorixa Adriana Ty Nanã (Brasil) entre outros.

Estamos reescrevendo a história, daí que nos pareceu natural começar pela cidade que foi o maior porto de desembarque de escravizados na América Latina entre os séculos 18 e 19.

Você consegue nos dizer em quais coleções públicas e privadas as obras dos artistas com os quais a plataforma já trabalha podem ser encontradas?

01.01: Estamos em algumas coleções públicas e privadas tanto no contexto nacional quanto internacional, entre as quais as coleções particulares de Fernando Abdalla, Regina Pinho, Lili Safra, Mário Sérgio Bráz e Clarice Tavares. Em Museus privados destaca-se o Museu de Arte de São Paulo (MASP) e, entre as instituições públicas, o Museu Afro Brasil e Pinacoteca do Estado de São Paulo.


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Alexandre Araujo Bispo é doutor e mestre em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). É curador, crítico e educador independente. Co-autor de Cidades sul americanas como arenas culturais (2019); Metrópole: experiência paulistana (2017) e Vida e Grafias: narrativas antropológicas entre biografia e etnografia (2015).

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