Exposição Diálogos e Transgressões, curadoria de Luciara Ribeiro, no Sesc Santo Amaro. De 18 de novembro de 2017 a 18 de fevereiro de 2018. Foto: Raquel Santos
Reportagem

Onde estão as curadoras negras e indígenas do Brasil?

Barbara Mastrobuono
23 mar 2021, 12h25

Vivemos recentemente uma série de exposições e projetos organizados por instituições artísticas com o objetivo de promover maior ‘diversidade’ racial, de gênero e classe em suas equipes. Apesar das boas intenções, os dados aqui revelam que ainda falta muito para que essas ações interfiram na base e promovam uma mudança real na contratação dos profissionais negros e indígenas nas equipes curatoriais. Quando uma instituição se propõe a ter a luta antirracista como uma de suas bandeiras, é fundamental que ela entenda que isso não diz respeito apenas a pensar as temáticas de suas programações e exposições, mas que inclui manter equipes com significativa presença de profissionais negros e indígenas, onde esses possam ter seus trabalhos reconhecidos e remunerados com valores justos. E que, quando esta e seus curadores, diretores e coordenadores brancos se calam e optam por seguir trabalhando com equipes majoritariamente brancas, corroboram com a manutenção do racismo.

O trecho acima foi escrito pela curadora Luciara Ribeiro, e integra o longo relatório que criou em parceria com a Rede de Pesquisa e Formação em Curadoria de Exposição, o Laboratório de Curadoria de Exposições Bisi Silva, o ProjetoAfro e o coletivo Trabalhadores da Arte, entitulado “Curadorias em disputa: quem são as curadoras e curadores negras, negros e indígenas brasileiros?”. Resultado de uma pesquisa iniciada em 2019, o relatório apresenta um levantamento de curadores negras, negros e indígenas em território brasileiro; as regiões nas quais atuam; em qual regime de trabalho integram o mercado; seu gênero; entre outros dados relevantes.

Entre as coisas explicitadas pela pesquisa de Ribeiro está a contradição entre o discurso de maior “inclusão” promovido pelas instituições culturais e implementado via programações de exposição, e a força de trabalho de tais instituições, que têm grande parte de seu corpo curatorial e diretoria composta por pessoas brancas. A pouca empregabilidade dos curadores negros e indígenas ao longo da história de curadoria no Brasil fica explícito quando vemos, por exemplo, que o Museu de Arte de São Paulo (MASP), fundado em 1947, contratou suas primeiras curadoras negras, Horrana de Kássia e Amanda Carneiro, apenas em 2018, e a primeira curadora indígena, Sandra Benites, somente em 2019, complementa Ribeiro.

Acima: Exposição Diálogos e Transgressões, curadoria de Luciara Ribeiro, no Sesc Santo Amaro. De 18 de novembro de 2017 a 18 de fevereiro de 2018. Foto: Raquel Santos

Pesquisa realizada em colaboração através das redes sociais por Luciara Ribeiro. Colaaboração e designer: Projeto Afro, Guillermina Bustos, Jorge Sepúlveda T., Gabriela Diaz Velasco e equipe de Trabalhadores de Arte.

Pesquisa realizada em colaboração através das redes sociais por Luciara Ribeiro. Colaaboração e designer: Projeto Afro, Guillermina Bustos, Jorge Sepúlveda T., Gabriela Diaz Velasco e equipe de Trabalhadores de Arte.

O relatório pode ser encontrado no site do ProjetoAfro aqui. Como parte do desdobramento da pesquisa de Ribeiro, o portal está desenvolvendo uma série de conversas e perfis que dão destaque aos curadores mapeados, dando continuidade ao trabalho de inserção destes profissionais dentro de um circuito institucionalizado da arte.

 


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Barbara Mastrobuono é editora, tradutora e pesquisadora. Trabalhou em casas editoriais como Editora 34 e Cosac Naify, e atuou como coordenadora editorial da Pinacoteca de São Paulo. Entre os títulos que traduziu estão “Tunga, com texto de Catherine Lampert; “Poesia Viva”, de Paulo Bruscky, com texto de Antonio Sergio Bessa; e “Jogos para atores e não autores”, de Augusto Boal. Defendeu sua dissertação de mestrado pelo departamento de Teoria Literária da USP. Atualmente é editora-chefe da SP-Arte.

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