“Aceite de piedra [Óleo de pedra]” (2014) 11' 45” HD vídeo a cores 16:9 Câmera: Daniel Thissen (Foto: Cortesia da artista)
Artigo

Ximena Garrido-Lecca: Óleo de pedra

Gabriel Bogossian
12 fev 2020, 13h43

Poucas substâncias marcam tanto o mundo em que vivemos quanto o petróleo. Matéria-prima de plásticos, do asfalto e de combustíveis, ele está presente em uma infinidade de outros produtos do cotidiano e é nossa principal fonte de energia; sua importância estratégica motiva de guerras a golpes de Estado, ajudando a moldar o mundo também em sua dimensão geopolítica. Pela capacidade de combinar poder político e econômico, com suas grandes empresas, enormes somas de dinheiro e a escala internacional de suas transações, o mundo do petróleo foi pano de fundo para “Petrolio”, o romance inacabado de Pier Paolo Pasolini onde o poeta e cineasta italiano constrói uma poderosa alegoria da política italiana no pós-guerra.

Lobitos, no Peru, é um desses lugares moldados pela história dessa matéria-prima. Localizada próxima à fronteira com o Equador, no norte do país, a cidade é famosa no circuito do surfe como um dos melhores pontos do Peru para a prática da atividade. Em um mercado historicamente dominado por uma subsidiária da norte-americana Standard Oil Company, de John D. Rockefeller, Lobitos chegou a fornecer mais de 20% do petróleo peruano nas primeiras décadas do século 20. A empresa responsável pelo feito, no entanto, não era peruana, mas inglesa. Com ações na bolsa de Londres, a Lobitos Oilfields Limited havia criado na região uma espécie de enclave britânico, com casas vitorianas, estradas, hospitais e o primeiro cinema do país. A sofisticação era tal que o lugar se tornara ponto de parada para navios estrangeiros a caminho do Chile e da Argentina.

Acima: “Aceite de piedra [Óleo de pedra]” (2014) 11' 45” HD vídeo a cores 16:9 Câmera: Daniel Thissen (Foto: Cortesia da artista)

“Aceite de piedra [Óleo de pedra]” (2014) 11' 45” HD vídeo a cores 16:9 Câmera: Daniel Thissen (Foto: Cortesia da artista)

“Aceite de piedra [Óleo de pedra]” (2014) 11' 45” HD vídeo a cores 16:9 Câmera: Daniel Thissen (Foto: Cortesia da artista)

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O golpe militar de Juan Velasco Alvarado, em outubro de 1968, inaugurou um novo capítulo na história dessa que é a indústria petrolífera mais antiga da América Latina. O governo nacionalizou a produção em todo o país e Lobitos se tornou sede para uma base do exército, construída ali. Alguns anos mais tarde, contudo, os militares deixam a região, e aos poucos o lugar vai ganhando a forma que o caracteriza atualmente: uma série de espaços abandonados e ruínas, em que se sobrepõem a presença militar e inglesa, além de vários dos equipamentos usados para a extração do petróleo. Esse conjunto é cenário para uma cidade em que pescadores e oleiros, os únicos que permaneceram, recebem com alguma infraestrutura os surfistas, e onde operam ainda hoje petrolíferas transnacionais.

“Aceite de piedra”, vídeo em dois canais que Ximena Garrido-Lecca vai apresentar no setor Solo da SP-Arte, toma partido dos ecos passados no presente de Lobitos. O título da obra – “Óleo de pedra” – é uma tradução literal de “petróleo” para o espanhol, mas seu olhar recai primeiro sobre os moradores, testemunhas das transformações vividas ao longo das décadas na cidade, e o trabalho que executam: são suas mãos que se movem e agem sobre o peixe, a trama das redes de pesca e o barro. As ruínas da cidade inglesa e militar, que surgem em seguida no outro canal da obra, destacam-se ao mesmo tempo frágeis e trágicas contra o deserto e o céu azul. O progresso desfila seus escombros – continua de pé, conservada e pintada, somente a igreja –, mas a vida e o movimento, ao menos no vídeo que vemos, permanecem no trabalho manual.

“Aceite de piedra [Óleo de pedra]” (2014) 11' 45” HD vídeo a cores 16:9 Câmera: Daniel Thissen (Foto: Cortesia da artista)

“Aceite de piedra [Óleo de pedra]” (2014) 11' 45” HD vídeo a cores 16:9 Câmera: Daniel Thissen (Foto: Cortesia da artista)

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Como se buscando indicar a passagem do tempo e a relação entre as diferentes estruturas, conforme o vídeo avança, o registro das casas e instalações militares abandonadas é substituído pelo aparato industrial usado na extração do petróleo, com canos e tubos enferrujados contra o deserto; máquinas ainda trabalham ali, enquanto, no outro canal do vídeo, o trabalho dos pescadores dá lugar ao dos oleiros. Fica evidente, aí, certa equivalência entre o gesto industrial e o artesanal: trata-se, em ambos os casos, de transformar a matéria extraída da natureza, ainda que em escalas bastante distintas. O belo paralelismo entre os canos e tubulações e a olaria, onde se molda, sem torno, o barro em vasos, ressalta a diferença de escala técnica, mas também humaniza de algum modo o trabalho maquínico.

O partido de Garrido-Lecca recai sobre o trabalho manual; é por ele que “Aceite de piedra” começa e acaba, assinalando a sua permanência no tempo e a permanência daquelas pessoas em Lobitos; é, enfim, a ele e à sua gestualidade cheia de vida que a obra faz o elogio. Como em outras exposições da artista, o vídeo está associado a um trabalho escultórico que faz ressoar o universo do elemento audiovisual. “Conversion System”, conjunto de esculturas composto por tubos de barro e aço, evoca os sistemas de conversão de substâncias como a destilação do petróleo, em uma espécie de releitura manual do maquinário industrial. A escala das peças – todas têm cerca de 1 metro de altura – as destaca no espaço, ressaltando a limpidez formal do conjunto, enquanto a combinação dos materiais parece buscar uma síntese entre a tradição vernácula da cerâmica da cidade e o aparato da indústria.

Essa aproximação algo sintética não deixa de pôr em evidência o ônus do progresso, que se contrapõe à proteção do meio ambiente e aos modos de vida tradicionais. Como em outras de suas obras, Ximena Garrido-Lecca assinala aqui a dimensão às vezes devastadora do avanço econômico, cujo repertório técnico altera seu entorno de maneiras muito mais radicais que métodos produtivos baseados na manualidade. Enquanto vivemos transformações profundas no mundo do trabalho, às vezes descritas como um processo homogêneo, é mais uma vez o pensamento artístico que articula, na sutileza de suas elaborações poéticas, não uma resistência impossível, mas a dúvida sobre sua pertinência e seu sentido unívoco.

"Conversion System V" (2019), Ximena Garrido-Lecca. Cerâmica e aço 109 x 58 x 26 cm (Foto: 80m2 Livia Benevides)
"Conversion System XIII" (2019), Ximena Garrido-Lecca. Cerâmica e aço 109 x 58 x 26 cm (Foto: 80m2 Livia Benevides)

"Conversion System V" (2019), Ximena Garrido-Lecca. Cerâmica e aço 109 x 58 x 26 cm (Foto: 80m2 Livia Benevides)

"Conversion System XIII" (2019), Ximena Garrido-Lecca. Cerâmica e aço 109 x 58 x 26 cm (Foto: 80m2 Livia Benevides)

"Conversion System XI" (2019), Ximena Garrido-Lecca. Cerâmica e aço 75 x 70 x 60 cm (Foto: 80m2 Livia Benevides)

"Conversion System XI" (2019), Ximena Garrido-Lecca. Cerâmica e aço 75 x 70 x 60 cm (Foto: 80m2 Livia Benevides)


Gabriel Bogossian é curador convidado da 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, além de editor e tradutor independente. Foi curador das exposições “Alma de bronze” (Ocupação 9 de Julho, 2018), “Minerva Cuervas: dissidência” (Galpão VB, 2018), “O museu inexistente n. 1” (Funarte, 2017) e “Cruzeiro do sul” (Paço das Artes, 2015), entre outras. Colabora com as revistas Artelogie e BRAVO!, e foi responsável pelas traduções de “Americanismo” e “Fordismo”, de Antonio Gramsci (ed. Hedra, 2008), e “Caos calmo”, de Sandro Veronesi (Ed. Rocco, 2007).

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