Online viewing room no site da Zipper Galeria (Foto: Reprodução Zipper Galeria)
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O distanciamento social e o impacto nos processos digitais no mercado de arte

Caio Blanco
25 mar 2020, 17h48

A disseminação a passos largos da COVID-19, neste começo conturbado de 2020, obrigou o mundo inteiro a uma brusca desaceleração. Países inteiros fecharam as suas fronteiras, companhias aéreas cancelaram voos, governos baixaram decretos para o fechamento de serviços não essenciais e a população foi forçada ao isolamento: todas medidas necessárias na tentativa de achatar a curva de contágio do novo vírus e evitar o colapso generalizado dos sistemas de saúde. 

O distanciamento social, embora medida poderosa na luta contra o novo coronavírus, irá trazer impactos profundamente negativos para a economia mundial. Anger Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, ou clube dos países ricos), afirmou recentemente em entrevista à BBC que o impacto econômico atual já é maior do que a crise financeira de 2008. De acordo com ele, um crescimento econômico global de 1,5% este ano já parece ser um cenário otimista demais. Para o Brasil, a situação não é diferente: segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas, o PIB brasileiro pode recuar até 4,4% em 2020.

Com as expectativas econômicas desabando ao redor do mundo e um custo previsto de mais de US$ 2 trilhões de dólares à economia global, a pandemia tem assustado todos os setores do mercado que, rapidamente, buscam formas criativas de manter seus negócios ativos e minimamente saudáveis durante esta crise. 

O mercado de arte, historicamente baseado nas relações pessoais e presenciais, passa a enfrentar grandes desafios: feiras de arte internacionais canceladas, exposições adiadas e uma retração da atividade dos colecionadores são algumas das dificuldades enfrentadas por galerias. 

Para todos os verticais de negócios – e entre todas as alternativas sendo colocadas em teste para driblar a presente crise –, uma estratégia parece ser o denominador comum: a digitalização dos processos. Academias têm liberado treinos em formato digital para seus alunos, negócios de varejo têm fomentado ainda mais as compras online através de promoções e isenção de taxa de entrega, e escolas de idiomas disponibilizam hoje suas aulas via internet.

A pandemia tem assustado todos os setores do mercado que, rapidamente, buscam formas criativas de manter seus negócios ativos.

Acima: Online viewing room no site da Zipper Galeria (Foto: Reprodução Zipper Galeria)

Online viewing room "Museu de novidades", individual de Marcelo Tinoco, no site da Zipper Galeria (Foto: Reprodução Zipper Galeria)

Online viewing room "Museu de novidades", individual de Marcelo Tinoco, no site da Zipper Galeria (Foto: Reprodução Zipper Galeria)

Em um mundo de distanciamento social, em que todos estão separados fisicamente e unidos apenas pelo elo de conexão à internet de suas casas, parece mesmo ser a saída mais óbvia que as empresas que ainda não haviam se rendido ao universo da digitalização passem a investir nessa seara. 

De acordo com o relatório da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), em parceria com o Movimento Compre & Confie, desde o dia 24 de fevereiro até o dia 18 de março, houve um aumento de 111% nas compras online da categoria saúde, alta de 83% em beleza e perfumaria, e um aumento de 80% nas compras de supermercados, tudo isso quando comparado a um período semelhante de 2019 – de 25 de fevereiro a 20 de março. 

Fato é que o mercado de arte sempre operou de forma autônoma e única em relação ao processo de digitalização. Muito embora tenhamos visto crescer o empenho de galerias de arte e de casas de leilão nas jornadas digitais – principalmente quando se trata de artistas emergentes e que apelam a um público mais jovem –, muitos agentes da arte estabelecidos ainda resistem em se entregar completamente ao online. 

Mesmo com certa resistência, a última barreira do mercado de arte a caminho da digitalização precisará ser rompida para a sua sobrevivência.

A nova dinâmica imposta pela COVID-19 talvez esteja prestes a mudar este cenário contínuo de resistência: de acordo com dados preliminares do online viewing room da Art Basel Hong Kong º a alternativa virtual encampada pela feira após o cancelamento do evento – grandes galerias como Hauser & Wirth, David Zwirner e Gagosian reportaram vendas robustas a preços altos. Além disso, galerias menores puderam utilizar o espaço como uma oportunidade de explorar o conceito de uma online viewing room e de se conectar com novos compradores em potencial. Marc Spiegler, diretor da Art Basel, atestou que “embora nada possa realmente substituir a experiência de uma feira de arte física, os colecionadores ao redor do mundo também ficaram muito animados de encontrar todas as mais de 2 mil obras de arte em um único espaço digital”. 

Isso parece demonstrar que, mesmo com certa resistência, a última barreira do mercado de arte a caminho da digitalização precisará ser rompida para a sua própria sobrevivência: com colecionadores estabelecidos e potenciais compradores impedidos de viajar, todos em quarentena, não parece haver outra saída a não ser investir nas negociações de obras de arte pela internet. E não há nenhum problema nisso: incluir procedimentos virtuais nos negócios da arte não significa exterminar o contato interpessoal ou a necessidade dos relacionamentos duradouros, que sempre foram a marca registrada da área. Significa apenas expandir as possibilidades de negociação, fornecer novas alternativas ao colecionismo e inserir-se em um processo orgânico pelo qual, hoje, o mundo inteiro passa.

Online viewing room "On Painting", no site da David Zwirner (Vídeo: Reprodução David Zwirner)

Online viewing room "On Painting", no site da David Zwirner

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Caio Blanco é o especialista de marketing digital da SP-Arte. Bacharel em Direito pela USP e com mestrado em Marketing pela University of Leeds, do Reino Unido, passou por empresas como Google e Socialbakers. Lidera, também, as estratégias de relacionamento com nossas galerias-parceiras.

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