"Torradeira" (2000), León Ferrari (Foto: Galeria Nara Roesler)
Análise

León Ferrari: arte e imaginário familiar

Florência Ferrari
12 fev 2020, 14h57

Um dos traços mais memoráveis da personalidade de León era a serenidade e clareza com que defendia sua ética: inabalável conjunto de ideias baseado na justiça social, na liberdade e na alegria de viver.

A história da vida de León, aquela que flutua no imaginário familiar, constituída de cacos de conversas, recortes de narrativas, trechos de textos, e tintas ficcionais somadas pela subjetividade de cada um, foi pontuada por tragédias pessoais, pequenas conquistas, muita resistência e, só lá no finzinho, um estrondoso sucesso, que jogou luz a tudo o que veio antes.

Filho do arquiteto e panoramista italiano Augusto C. Ferrari, León nasceu em 3 de setembro de 1920, em Buenos Aires. Formou-se engenheiro químico e abriu a Tantal, uma pequena indústria química de tântalo – um sólido metálico de cor prateada, macio, dúctil, raro, hoje muito utilizado em componentes eletrônicos.

A primeira história que marcou esse núcleo familiar aconteceu quando León estava na casa dos trinta anos. Em 1952, casado com Alicia e com três filhos, Mariali de três anos de idade, Pablo, dois, e Ariel sem completar um ano, se viram diante da meningite da filha mais velha. A medicina na Argentina só dispunha de um medicamento tentativo para a doença, pouco eficaz e com danosos efeitos colaterais. León se desdobrou em pesquisas, ligações internacionais, consultas a especialistas. A menina piorou. León descobriu uma clínica em Florença que havia colhido bons resultados com um novo tratamento. A menina recebeu a extrema unção no hospital. Ainda assim, com passagem paga por um conjunto de amigos abastados, viajou de avião, com uma enfermeira, e Mariali estirada num cesto. A tripulação e os passageiros do voo se comoveram a ponto de o piloto pedir autorização para desviar e, em vez de Piza, pousar diretamente em Florença. Mariali foi salva. O efeito do medicamento argentino no entanto deixou-a surda para sempre. Passado mais de um ano de tratamento, Alicia voltou com ela para Buenos Aires, onde a esperavam os outros dois filhos que tinham ficado com os avós. León permaneceu mais um ano na Itália. Em Roma, num ateliê no Trastevere, começou a fazer peças de cerâmica. Suas primeiras obras são de 1954.

Acima: "Torradeira" (2000), León Ferrari (Foto: Galeria Nara Roesler)

"Quadro escrito" (1984), León Ferrari (Foto: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras)

"Quadro escrito" (1984), León Ferrari (Foto: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras)

De volta a Buenos Aires, em paralelo com sua atividade como químico, León começou a fazer esculturas de metal (explorando certamente seu conhecimento de liga metálica) e, não muito tempo depois, manuscritos com sua inconfundível caligrafia, um deles descrevendo “o quadro que ele pintaria caso pudesse pintar” (Quadro escrito). Esta foi, segundo Andrea Giunta, pesquisadora que mais se dedicou a sua carreira, uma obra pioneira de arte conceitual em todo o mundo. Foi por meados dos anos 1960 que apareceram suas primeiras produções abertamente políticas. A civilização ocidental e cristã, sua obra icônica, de maior repercussão internacional até hoje, com sucessivas e renovadas camadas de sentido, entre elas a do 11 de Setembro, trilhou o caminho de sua crítica política aos Estados Unidos e ao poder tirano de modo geral, e, por outro lado, ao Cristianismo, uma religião que ele conhecia pelas entranhas no tempo da escola de padres e da vivência com o pai arquiteto e pintor de afrescos de igrejas. Com tranquilidade, um pouco de deboche mas sempre com firmeza, ele respondia ao assombro de uma neta de, ponha lá, 8 anos de idade, ao ver mini cristos de plástico numa frigideira ou uma gaiola de pombas cagando numa representação do Juízo Final de Michelangelo: essas são apenas sugestões para pensar no que o Cristianismo vem fazendo com milhões de pessoas na terra, em cruzadas que dividem o mundo entre “nós” e “eles”, e que apoiaram regimes tirânicos, como o nazismo e boa parte das ditaduras latino-americanas. Quantas vezes terá repetido que o discurso de Jesus Cristo “Quem não está comigo está contra mim” inflamava a divisão da humanidade, e era a razão de tantos massacres?

E eis que essa política intransigente, que caracteriza os regimes autoritários e não menos a ditadura argentina que eclode em 1976, atinge o seio familiar, numa nova tragédia, desta vez irreversível. O golpe foi em março de 1976. A família se exila no Brasil. Ariel, o caçula, decide ficar. León e Alicia, meu pai Pablo, minha mãe Patricia comigo no colo aos 6 meses, minha tia Mariali e o marido e minha prima de um ano, chegam em São Vicente; pouco tempo depois o casal se muda para São Paulo, num apartamento na Rua Maria Figueiredo. O silêncio sobre o paradeiro de Ariel – que durou quatorze meses até que é finalmente declarado desaparecido– resultou numa série de quadros obsessivos de León, os Errores. São quadros de dois metros de largura por um de altura, em que ele traça linhas sinuosas de ponta a ponta. Ver essas obras através da lente familiar sempre travou a minha garganta: se eu me dispusesse a seguir cada curva seria obrigada a permanecer muito tempo diante daquele quadro refazendo a meditação de León, uma experiência visual e temporal de angústia e beleza. Alicia e León passaram quinze anos em São Paulo, criaram, como em Buenos Aires, um sólido grupo de amigos, entre os quais os sempre presentes Aracy Amaral, Regina Silveira, Alex Flemming, Guto Lacaz, Carmela Gross, Marcelo Niestche, Hudinilson e tantos outros. Em 1990, voltaram a Buenos Aires.

Com todo o sentimento de injustiça e sede de denúncia, e com toda a sisudez e determinação que suas volumosas sobrancelhas expressavam, León era vivaz, despudorado e extremamente jovial, até os 92 anos de idade, quando adoeceu. Ria mostrando para suas netas adolescentes as colagens do kama-sutra sobre imagens religiosas, ou passando os dedos nos brailes com textos de Borges sobre as tetinhas de uma modelo de Man Ray. O erotismo certamente atravessou não só sua obra como sua vida pessoal, para sofrimento de minha avó e sorte nossa, a geração que bebeu desse ambiente libertário.

Na exposição Meta Arquivos, com curadoria e pesquisa de Ana Pato, no Sesc Belezinho em 2019, foi exposta a carta de León de setembro de 1978 para uma amiga em Madri que eviscera seu estado de espírito no momento em que recebe a notícia definitiva.

"A civilização ocidental e cristã" (1965), León Ferrari (Foto: Galeria Nara Roesler)

"A civilização ocidental e cristã" (1965), León Ferrari (Foto: Galeria Nara Roesler)

Integridade e picardia se entrelaçaram em sua vida e em sua obra. A anedota com os papas é talvez a que mais chame a atenção hoje. León a certa altura ficou tido como um idoso repetitivo: “León, larga dessa coisa com a Igreja”, diziam alguns amigos próximos. Mas ele era teimoso. Em 1997 escreveu uma carta ao papa João Paulo II, em que ele lembra que, com o final do milênio e o possível Apocalipse, boa parte da humanidade está sujeita, segundo o Evangelho, a um inferno interminável, e solicita a anulação do Juízo Final e da imortalidade. A carta é assinada pelo CIHABAPAI (Clube os ímpios, hereges, apóstatas, blasfemos, ateus, pagãos, agnósticos e infiéis), subscrita por uma quantidade moderada de artistas, intelectuais e ativistas. Sem resposta, um nova carta é enviada em 2001, agora lançando mão da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948: se a tortura já foi oficialmente abolida na terra, solicita-se a abolição do Inferno, que nada mais é do que a promessa de tortura eterna. Corta. 2004. Centro Cultural Recoleta em Buenos Aires abre uma retrospectiva do artista, que completava 84 anos. León era um artista muito conhecido no meio, mas com pouca projeção internacional. A retrospectiva passava por toda sua obra, as cerâmicas, as esculturas metálicas e os carimbos do período brasileiro, as caligrafias, os quadros e desenhos, as instalações com brinquedos, os brailes. Uma das salas, “Infernos”, tinha uma série de ironias: cristos e nossas senhoras em torradeiras, frigideiras, liquidificadores; León chamava a atenção de um modo lúdico para os tipos de tortura proporcionados pelo discurso de ódio cristão. A exposição se transformou numa metaperformance quando um grupo religioso radical invadiu a sala e destruiu uma das obras. A comunidade religiosa pressionou o fechamento da exposição, até que o então cardeal Bergoglio solicitou e conseguiu a clausura da exposição. O efeito foi contrário, a entrada da exposição foi tomada por movimentos por liberdade de expressão, artistas, intelectuais, professores, e ganhou uma repercussão midiática incalculável. Uma liminar garantiu a reabertura. A visitação, que era de uma exposição normal, logo se tornou massiva, e filas se acumularam por todo o período até o final da mostra. Daí, aos 84 anos, León se tornou uma celebridade na Argentina, e sua obra foi adquirida por museus em todo o mundo: MoMA, Tate, Reina Sofia; ganhou o Leão de Ouro em Veneza. Anos depois, já velhinho e doente, pouco antes de morrer, em 2013 teve a notícia de que Bergoglio havia se tornado papa, o papa Francisco. Liguei pra ele na hora, e ele já estava comemorando a coincidência: abramos uma champanhe!

Viva León!


florencia

Florência Ferrari é antropóloga e editora. Co-fundou a editora UBU, onde coordena linhas como a coleção Exit. É autora dos livros “Casas do Brasil – barraca cigana” (2012, Museu da Casa Brasileira), “Escrituras da imagem” (2005, Edusp) e “Palavra cigana – seis contos nômades” (2005, Cosac Naify).

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