Frame do vídeo Jonathas de Andrade, "O Levante", 2012-2014.
Entrevista

Jogo, potência e reinvenção

Gabriela Longman / Yan Catuaba
19 out 2022, 15h22

Atravessada pelas relações cotidianas de alteridade, a produção visual de Jonathas de Andrade completa 15 anos. Nascido em Maceió e radicado no Recife, o artista desenvolveu um repertório de instalações que têm no jogo entre palavra e imagem um de seus principais estratagemas e no erotismo um de seus grandes componentes – um “tempero”, como ele define, usado em obras que falam sobre política, urbanidade e desigualdade social.

Em 2016 sua videoinstalação O Peixe tornou-se uma das obras mais comentadas da 32ª Bienal de São Paulo e ajudou a projetar sua carreira internacionalmente. Este ano, seu nome foi escolhido para a representação nacional na 59ª  Bienal de Veneza, onde assina até novembro a exposição Com o coração saindo pela boca no Pavilhão do Brasil.

Para quem está ou vem a São Paulo, a Estação Pinacoteca recebe neste momento “Jonathas de Andrade: o Rebote do Bote”, abrangente mostra com curadoria de Ana Maria Maia que reúne trabalhos como recenseamento moral da cidade do recife (2008), Ressaca Tropical (2009) e Educação para Adultos (2010), além de obras apresentadas pela primeira vez no Brasil. Foi no quarto andar da Estação, em meio a um giro pelo espaço expositivo, que o artista recebeu a equipe editorial da SP–Arte para uma conversa sobre visualidade, poética e política. A seguir, os melhores trechos:

Acima: Frame do vídeo Jonathas de Andrade, "O Levante", 2012-2014.

Jonathas de Andrade, "Pedidos despidos", da série "Achados e Perdidos", 2022.

Jonathas de Andrade, "Pedidos despidos", da série "Achados e Perdidos", 2022.

“É sobre erotismo? Não só. É sobre política? Não só. É sobre identidade? Não só.”

Gabriela Longman: A exposição O Rebote do bote marca seus 15 anos de trajetória. Poderia começar falando um pouco desse título?  

Jonathas de Andrade:  O Rebote do bote fala sobre o bote – que é o ir pro mundo com impulso, com a libído, com o desejo, com a fome de mundo –  e o rebote, que é o retorno do mundo que traz suas próprias questões, seus próprios entendimentos, suas próprias urgências que eu mesmo tenho que rever, assimilar e responder a partir desse retorno do mundo. É um título da [curadora] Ana Maria Maia que responde a todo esse processo de revisão que a mostra traz.

Eu falo desde o Nordeste, eu respondo a questões e sensações sobre o que é ser brasileiro, lanço e trabalho as minhas próprias contradições. O jogo, o pretexto, a sobreposição de assuntos, a ambiguidade… São aspectos que me acompanham ao longo da minha produção em obras que, na verdade, são muito diversas. Passam por uma revisão do modernismo, por um olhar sobre a arquitetura, sobre a potência da ruína, sobre a cidade que está em transformação e que é ao mesmo tempo desamparo e nostalgia, potência e reinvenção. E tudo isso ecoa questões classistas que na verdade são um lastro insuperável da colonização. A partir de como o Nordeste, enquanto região identitária, o trabalho fala sobre como reorganizar sociedades que naturalizam perversamente o privilégio e o desprivilégio, as diferenças sociais… 

 

Gabriela Longman: Bicentenário da Independência, centenário da Semana de 22 e uma das eleições mais conturbadas da nossa história… Como que foi para você montar essa exposição num ano como 2022?

Jonathas de Andrade:  É um ano crucial e, para a história do Brasil, é um momento de se revirar do avesso. Eu acho que meu trabalho tenta sempre revisar processos da história que não foram superados, não foram esquecidos. Estamos falando de um Brasil que é marcado pela colonialidade, pela invasão de uma terra nativa e por um projeto de escravidão que ecoa até hoje. 

Meus projetos de algum jeito acontecem nesse cenário, eles partem para o mundo em busca de relações e encontros:  os carroceiros, os homens que eu convido para fotografar no meio da rua, as mulheres de Tejucupapo que fazem teatro sobre um episódio histórico em que as mulheres do território derrotaram os holandeses invasores. Enfim, estes contatos a partir das obras (os próprios pescadores de O peixe) me colocam num processo de negociação e de encontro que eu acho que é muito poderoso

Fazer essa revisão agora que eu estou com quarenta anos, quinze de trajetória, tem sido muito forte. Nesse Brasil tão polarizado e com tantos desafios a serem refeitos e retomados, temos um ano crucial, um ano em que é preciso, coletivamente, articular uma nova resposta para retomar as rédeas das narrativas que nos interessam nesse país. 

Gabriela Longman:  Representar o Brasil na Bienal de Veneza, um espaço com uma dimensão geopolítica forte… 

Jonathas de Andrade: A Bienal de Veneza é uma exposição em um espaço público oficial. A gente vive anos  intensos com certo cheiro do passado, de autoritarismo, de censura, de dissolução de bases da cultura.  Tudo isso tem um certo sabor e cheiro da própria ditadura que a gente viveu.  Eu apresento um projeto que se chama Com o coração saindo pela boca, entendendo que falar da linguagem como metáfora do coletivo, de um corpo que, coletivamente, está oprimido, esmagado, maltratado e asfixiado pelo presente. Esse retorno do autoritarismo me fez tentar trabalhar com metáforas poderosas que falam sobre o absurdo, mas com alegorias que lembram carnaval: momentos de catarses coletivas que tentam reequilibrar um tanto a passagem dos anos, seu peso para esse corpo coletivo.

Jonathas de Andrade, "Decalque Estilhaço", 2022.

Jonathas de Andrade, "Decalque Estilhaço", 2022.

Gabriela Longman:  Como é que você começou na sua carreira como artista e a partir de qual momento você se entendeu nesse lugar?

Jonathas de Andrade: Eu nasci em Maceió e queria ser artista desde a infância. Acho que vários interesses dispersos nas artes foram se costurando ao longo do tempo  nesse lugar que se apresentou para mim como arte contemporânea. Na maneira como eu levo os meus projetos, eu acho que eu consigo ser um pouco historiador, escritor, fotógrafo, cineasta, contador de histórias, sabe? Trabalhando um pouco com a matéria, com a forma, com o visual, com o espaço, com a arquitetura.
Minha formação foi inicialmente para o Direito, então tem toda uma experiência em relação a ler um pouco o mundo com um olhar social, um olhar sobre política… Depois foi para Comunicação, que me ajudou a pensar como transmitir, como transformar a imagem, como articular esse desejo sobre a imagem. Eu acho que foi com essa formação e com essa experiência mais espalhada que eu fui entendendo o meu próprio agir artístico, que surgiu com vários projetos que estão nessa mostra: o Ressaca Tropical, o Recenseamento Moral da Cidade do Recife… 

 

Gabriela Longman: A gente tem visto certa estigmatização do Nordeste. Você já sofreu preconceito por ser nordestino, isso já apareceu na sua vida?

Jonathas de Andrade: Sim. Acho que essa é uma realidade de quem experimenta esse trânsito nas dinâmicas Nordeste-Sul, Norte-Sul. É claro que isso pode ser vivido com mais ou menos intensidade a partir da experiência de classe. Eu falo de questões e problemas que eu muitas vezes não experimentei diretamente: a experiência da fome, do não ter moradia, de não ter saúde, não ter saneamento básico… É uma realidade muito grande. Eu falo sobre questões que tocam nesse desamparo, que é a marca de um Brasil excludente. Acho que falar de preconceito é complexo e se ramifica em diversos aspectos da história, tem várias sutilezas. Então sim, eu experimentei, mas sei claramente que a experiência da exclusão é muito mais radical para quem não teve acesso a cultura, trabalho, oportunidades, e isso vale para a maior parte do nosso país.

Detalhes de Jonathas de Andrade, "Teatro das Heroínas de Tejucupapo", 2022.
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Detalhes de Jonathas de Andrade, "Teatro das Heroínas de Tejucupapo", 2022.

“O cenário que a gente tem hoje é desolador e acho que a responsabilidade de colecionadores que são socialmente engajados é criar oportunidades para além da venda e da compra de obras”

Gabriela Longman: A fotografia tem um papel central na sua produção, ao mesmo tempo em que é impossível classificar você como um fotógrafo. Faz sentido?

Jonathas de Andrade: Faz muito sentido. A fotografia é minha ferramenta mais utilizada mas eu não sou um fotógrafo de formação, assim como eu trabalho com filmes e não sou um cineasta de formação, mas esse diletantismo me permite navegar com mais ou menos proximidade, entrar nas tipologias e comentar as próprias categorias de imagem, as categorias do fazer. Justamente por não ser fotógrafo, tento levar a fotografia para além da impressão, do papel fine art, então ao longo do meu trabalho ela já foi para serigrafia na madeira, já ganhou espaço com impressões em papelão ou dimensões escultóricas. 

 

Gabriela Longman:  Você tem nomes que são referência na sua prática?  Quem são seus mestres? 

Jonathas de Andrade: Eu sou um colecionador de quinquilharias, de livros, de revistas. Eu acho que o cinema foi uma fonte de inspiração, assim como o design gráfico. Tem um erotismo muito marcado no Alair Gomes que não é tão frequente assim na história da arte, mas faço também um comentário social. Eu não queria que o erotismo fosse sobre o erotismo. Eu queria que ele fosse uma espécie de temperatura, quase que um tempero para os trabalhos. Assim como na vida, o erotismo nos atravessa enquanto a gente vive tantas outras coisas. Eu achava muito importante que as obras comentassem o mundo atravessadas por uma força erótica, por uma espécie de libido e, com isso, desconcertasse as categorias. Sobre o que que é aquele trabalho? É sobre erotismo? Não só. É sobre política? Não só. É sobre identidade? Não só. A relação texto e imagem também é algo pelo qual eu sempre fui fascinado. Articular texto e imagem cria uma faísca que é muito explosiva e que ao mesmo tempo testa para quem está lendo se aquilo é sobre o que parece estar dizendo. Essa tensão me interessa: gerar dúvida, gerar desconfiança no sentido mais poético. Eu gosto dos trabalhos que têm sobreposição de assuntos, assim como a vida que é plural, múltipla, tudo parece escapar e falar sobre muitas coisas ao mesmo tempo.

 

Gabriela Longman:  Como é sua relação com o mercado de arte?

Jonathas de Andrade: A existência do mercado de arte e de um sistema de colecionadores e museus permitiu a minha profissionalização como artista. Ao mesmo tempo em que sou crítico, tenho muito respeito por essas estruturas de colecionadores e colecionadoras que fazem a história da arte brasileira se sustentar ao longo do tempo e que permitem que artistas possam viver profissionalmente. Quando eu decidi ser artista, eu acreditava que isso pudesse ter prazo de validade e que eu talvez tivesse que levar aquilo como um diletantismo, como uma atividade secundária a uma outra que de fato pagaria minhas contas. A solidez desse mercado de arte brasileiro é que faz o sistema das artes no Brasil ser algo possível, ainda que seja um sistema também alimentado e cheio de contradições. Eu enxergo isso, mas reconheço a importância. Foi uma surpresa descobrir que meu trabalho tinha uma escuta possível para as instituições e dentro do próprio colecionismo. 

Jonathas de Andrade, "Tejucupapo: Teatro das heroínas e Batalha de todo dia", 2022.

Jonathas de Andrade, "Tejucupapo: Teatro das heroínas e Batalha de todo dia", 2022.

Gabriela Longman:  Que dicas você dá para um artista que está começando hoje?

Jonathas de Andrade: Pensar num artista que  está começando hoje me faz pensar que eu comecei num momento diferente, com uma política de editais, de incentivos públicos, de bolsas, coisas que não existem no Brasil atual. Se eu nascesse artista no Brasil atual talvez eu não tivesse conseguido desenvolver minha própria poética. Para os novos artistas é um grande desafio não responder ao mercado, não fazer exatamente o que é consumido, focar no que imagina ser sua própria verdade, cavar sua própria poesia. Eu precisei enviar meu trabalho a muitos editais, receber muitos nãos e receber um ou outro sim que pode me manter motivado e com um mínimo de condições para pagar meu material, pagar meu aluguel e sair de uma vida mais estudantil para ensaiar meus primeiros passos enquanto artista.  Fazer essa jornada sem incentivos, num Brasil mais austero é muito difícil. 
O cenário que a gente tem hoje é desolador e acho que a responsabilidade de colecionadores que são socialmente engajados é criar oportunidades para além da venda e da compra de obras. Se a gente não tem governos e situações estatais e institucionais capazes de cumprir seu papel que venham colecionadores capazes de partilhar sua capacidade e responsabilidade de incentivar a cultura e a arte brasileira e criar iniciativas que possam ser sim voltadas para jovens artistas, para jovens escritores, críticos de arte que sejam de formação e menos de aquisição. Essa é uma mensagem que eu queria ver nesse Brasil do presente que aponta para o futuro.

 

Gabriela Longman:  Para encerrar: o que  te dá um nó na garganta? 

Jonathas de Andrade: O que me dá uma gastura, um nó na garganta e um nó no peito é ver tantos corações de pedra gerirem nosso destino. Acho que a gente precisa, coletivamente, apontar para um Brasil que olhe para inclusão social, para a cultura, que olhe para a garantia dos direitos humanos, o respeito às minorias, segurança alimentar, educação. Enfim, que gente voltar a ter um projeto que olhe para o básico, que é tão urgente para um país que tem capacidade de crescer como o nosso. 


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Gabriela Longman é jornalista, pesquisadora e mestre em Arte e Linguagem pela EHESS-Paris.


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Yan Catuaba é estagiário na equipe editorial da SP–Arte. Realiza graduação em História pela Universidade de São Paulo e pesquisa nas áreas de História da Cultura Material e Visual no Museu do Ipiranga.

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