Vista da exposição "FARSA. Língua, fratura, ficção: Brasil-Portugal", Sesc Pompeia (Foto: Ilana Bessler)
REVIEW

Dobre sua língua

Felipe Molitor
23 out 2020, 18h28

“Como mensagens de garrafas lançadas ao mar”. Com essa imagem, a curadora portuguesa Marta Mestre descreve uma das conexões entre as mais de cem obras de arte históricas e contemporâneas exibidas em “FARSA. Língua, fratura, ficção: Brasil-Portugal”, mostra organizada por ela e pela curadora adjunta Pollyanna Quintella, em cartaz no Sesc Pompeia até janeiro. A mesma metáfora de cápsula do tempo caberia para a exposição em si, que estava prevista para abrir no começo de abril e acabou tornando-se uma ponte improvável entre os mundos pré e pós-pandemia. Se toda a calamidade sócio-sanitária ainda não terminou, essa talvez seja uma das poucas exposições da fase de retomada na programação cultural que se ressignifica, em sentido reflexivo e crítico, ao efetivar sua realização. Afinal, não é a linguagem um vírus?

A mostra toma como ponto de partida uma reflexão acerca da suposta unidade linguística que existe entre Brasil e Portugal, mais precisamente sobre como nossa língua está carregada de fissuras que marcam colonialmente nossos corpos. Repleta de jogos, truques, dissimulações e rodopios semânticos, a exposição faz um estudo profundo entre as artes plásticas e a poesia visual aproximando a produção de diversos artistas, principalmente mulheres, que nas décadas de 1960 e 1970 tensionaram linguagens e discursos tradicionais em suas criações, à obras contemporâneas que, de uma forma ou de outra, reelaboram a herança daquelas décadas de ruptura. Como diria Karl Marx, a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. Nesse sentido, o próprio título da exposição pode significar uma encenação, uma armadilha, uma mentira construída a partir das dobras da verdade. “Toda exposição pronta tem qualquer coisa de fake, de encenação, abre e fecha da mesma forma. Quando essa [exposição] abrir, ela não precisará ser igual, ela pode ser um sintoma e demonstrar o corte na realidade que essa pandemia representa”, comentou a curadora em entrevista. 

Acima: Vista da exposição "FARSA. Língua, fratura, ficção: Brasil-Portugal", Sesc Pompeia (Foto: Ilana Bessler)

Vista da exposição "FARSA. Língua, fratura, ficção: Brasil-Portugal", Sesc Pompeia (Foto: Ilana Bessler)

Vista da exposição "FARSA. Língua, fratura, ficção: Brasil-Portugal", Sesc Pompeia (Foto: Ilana Bessler)

Vista da exposição "FARSA. Língua, fratura, ficção: Brasil-Portugal", Sesc Pompeia (Foto: Ilana Bessler)

Vista da exposição "FARSA. Língua, fratura, ficção: Brasil-Portugal", Sesc Pompeia (Foto: Ilana Bessler)

Marta e eu conversamos sobre a exposição no dia 5 de junho, quando o Brasil contabilizava 35 mil mortes pela COVID-19 e assistia ao presidente da república convocando manifestações para um golpe. A mostra estava congelada no processo de montagem, com obras que acabaram impedidas de embarcar e outras que ficaram encaixotadas no espaço expositivo. Àquela altura, apenas especulávamos sobre o que restaria depois da passagem do furacão. A curadora achava que tudo dependeria do tempo de duração da crise: quanto mais rápido passasse, maior a chance de um “retorno ao normal”. De fato, sabemos que os agentes econômicos instauraram “o novo normal” sem que a nossa subjetividade tenha acompanhado o mesmo ritmo de restauração. Agora que está finalmente de portas abertas, “FARSA” conduz sem vergonha as marcas de seu processo.

Um índice significativo disso aparece no momento da visitação em que há uma lacuna: “devido à pandemia de COVID-19, não foi possível manter a obra ‘Maquinim’, de Salette Tavares, no desenho final da exposição”. A estratégia torna visível ao público os desdobramentos internos de uma pesquisa curatorial e sua consequente exibição. Outro aspecto que a curadora aventou foi sobre uma certa nostalgia do corpo – “para todas as artes, o corpo é essencial, são nossos sentidos que nos ligam à realidade da obra de arte, então em um momento em que estamos privados de sentir como sentíamos antes, temos que habituar o corpo para outra condição”. Mesmo que aparentemente pouco na arquitetura da mostra tenha mudado por conta da pandemia, paira no ar uma saudade estranha da espontaneidade que as exposições naquele espaço do Sesc costumam ter com diferentes públicos. E é através dessas outras fraturas agora expostas que visitamos a exposição.

"INCREMENTO EXCREMENTO" (2016), Von Calhau! (Foto: catálogo da mostra)
"Aranha" (1963), Salette Tavares (Foto: catálogo da mostra)

"INCREMENTO EXCREMENTO" (2016), Von Calhau! (Foto: catálogo da mostra)

"Aranha" (1963), Salette Tavares (Foto: catálogo da mostra)

Detalhe de "Farsa" (2019), Renata Lucas (Foto: catálogo da mostra)

Detalhe de "Farsa" (2019), Renata Lucas (Foto: catálogo da mostra)

Frame de "Eat me" (1975), Lygia Pape (Foto: catálogo da mostra)

Frame de "Eat me" (1975), Lygia Pape (Foto: catálogo da mostra)

A mostra compõe-se em três núcleos permeáveis: “Glu Glu”, em alusão a icônica obra de Anna Maria Maiolino, desconstrói a maquinaria da boca, da língua e do ânus; “Outras Galáxias”, que refere-se a uma certa ideia de escapismo e fuga da realidade como maneira de tangenciar mundos latentes; e “Palavras Mil”, em que a linguagem se torna ferramenta de ação social coletiva. A partir desses eixos decorrem os paralelos, por exemplo, entre a Revolução dos Cravos de 1974, em Portugal, a vigência da ditadura civil-militar no Brasil, e a resposta atual ao retorno grotesco de um autoritarismo que se expressa escatologicamente.

Na entrada, depois de uma boa dose de álcool gel, somos recebidos pela instalação de Renata Lucas com o mesmo nome da mostra e que serve de dispositivo para todo o pensamento expositivo. Por entre suas cortinas teatrais, entrevemos uma boca trêmula regurgitante de “Eat me”, vídeo de Lygia Pape de 1973. A partir desse encontro, significantes e significados de todas as obras da exposição podem colidir e coincidir entre si, compondo narrativas plurais sobre si mesma – em “FARSA”, a palavra é matéria torcida como alternativa a discursos hegemônicos. Nessa vertigem estão poesias visuais de artistas como E. M. de Melo e Castro, Von Calhau! e Mariana de Matos, registros performáticos de Gretta Sarfaty e Helena Almeida, estandartes pop de Pietrina Checcacci, imagens de aterrissagens interplanetárias de “Yauti in Heavens”, instalação até então inédita de Regina Vater, o oráculo de Aline Motta, entre muitas outras. Verbetes escritos por poetas como Angélica Freitas e Natasha Felix é que acompanham os trabalhos. Na parte final do percurso, uma enorme caixa de vidro guarda diversas obras de escala menor, como se fosse uma exposição dentro da exposição – ou melhor, operando como uma sinédoque, que toma a parte pelo todo. A “vitrine surrealista” reforça a noção de encenação, e a grande gota de sangue com órgãos de Yuli Yamagata que pende sobre o mostrador arremata a farsa toda. A despeito do desconforto que nossos corpos ainda sentem, não deixa de ser irônico que, numa mostra como essa, somos visitantes que escondem suas bocas e narinas e passeiam mascarados.


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Felipe Molitor é jornalista e crítico de arte, parte da equipe editorial da SP-Arte.

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