Guilherme Teixeira, Gabriella Garcia e Lola Maria transportando a obra "This Dream Might Fade Away", 2019 (Foto: Felipe Barsuglia)
Entrevista

Conversa com Guilherme Teixeira

Barbara Mastrobuono
10 jun 2020, 8h

Guilherme Teixeira é um dos jovens curadores independentes que marcam a cena de São Paulo. Com passagem por galerias e instituições como o Centro Cultural São Paulo, chama a atenção o seu estilo característico de curadoria, no qual investiga a construção próxima junto dos artistas e destrincha os tradicionais espaços expositivos. Não é raro que os desdobramentos de sua pesquisa tomem o formato de uma festa – como é o caso do coletivo Escuro, do qual é idealizador junto com Leticia Santos e Mayara Wui, e que explora a música eletrônica afro-diaspórica – ou de uma exposição-relâmpago de duração de um dia, com textos críticos impressos sobre imãs de geladeira ou tijolos. Conversamos um pouco com Teixeira sobre seus pensamentos curatoriais e quais as urgências que enfrentamos neste momento.

Acima: Guilherme Teixeira, Gabriella Garcia e Lola Maria transportando a obra "This Dream Might Fade Away", 2019 (Foto: Felipe Barsuglia)

O que fez você se interessar por curadoria? Você pode contar um pouco sobre o seu trajeto?

Guilherme Teixeira: Com toda certeza o que alimentou meu desejo de trabalhar com curadoria é a potência que ela tem em propor espaços de discussão e ruptura. Eu cresci na Freguesia do Ó, Zona Norte de São Paulo, e meu contato durante a formação básica com museus e instituições culturais no geral sempre foi muito escasso, como ainda é para muitos jovens que estão nas periferias da cidade ou nos bairros mais afastados do centro. Foi só a partir de 2012, com meu ingresso na graduação de Linguística pela USP, que as relações possíveis que a arte poderia propor se apresentaram para mim. Alinhando isso a uma certa voracidade teórica que possuo, o lugar crítico de pensar arte se mostrou como o único possível para habitar, o único onde enxergava o meu corpo existindo, a única possibilidade que me atravessava e me impelia à escrita, algo extremamente caro para mim.

Daí em diante, decidi mudar o rumo da minha graduação e ingressar no curso de Artes Visuais da UNESP, em 2016. Já no primeiro semestre consegui um estágio junto à Curadoria de Artes do Centro Cultural São Paulo (CCSP), onde trabalhei por dois anos, e desde então minha prática tem se voltado para pensar onde habita a curadoria e as possibilidades outras que ela propõe para além dos estereótipos com os quais estamos acostumados, assim como sobre as questões que ela enuncia enquanto prática.

Vista da exposição "O grande susto" (2019) Curadoria de Guilherme Teixeira (Foto: Guilherme Garofalo)
Trabalho de Janina Mcquoid na exposição "O grande susto" (Foto: Guilherme Garofalo)

Vista da exposição "O grande susto" (2019)
Curadoria de Guilherme Teixeira
(Foto: Guilherme Garofalo)

Trabalho de Janina Mcquoid na exposição "O grande susto"
(Foto: Guilherme Garofalo)

Algo que chama a atenção em suas curadorias é a quebra com aquilo que institucionalmente, ou tradicionalmente, conhecemos por curadoria no Brasil. Existe uma busca de soluções curatoriais e expográficas que vão além de um pensamento tradicional de exposição. Você pode elaborar um pouco sobre isso? Se puder, conte um
pouco dos diversos tipo de projetos que você toca.

GT: Um exemplo que me ocorre da potência de se pensar outros modos de construção curatorial é a exposição “Começo de século”, uma proposta curatorial de Germano Dushá na qual colaborei como assistente de curadoria. Um happening incomum, do formato em si ao modo como construímos o texto a quatro mãos, que ocorreu na madrugada de uma terça-feira de novembro de 2019 na Galeria Jaqueline Martins em São Paulo, da meia-noite às três horas da manhã. O evento consistiu de um encadeamento de ações, performances e trabalhos que construíam um ato único sobre as possibilidades do momento em que vivemos.

Em discussão posterior com um curador de uma grande instituição de São Paulo a respeito dessa ação, ele me disse como havia enxergado diversos problemas na proposta, e que o modo como falávamos sobre corpo ali não era nada novo, e sim repetitivo. Isso me deixou pensando muito sobre como as instituições e toda uma geração pensa o lugar das corpas em uma exposição, principalmente quando falamos sobre corpas pretas, periféricas e transvestigêneres. Qual é a régua que os espaços tradicionais desenvolveram, e ainda aplicam, para definir a validade de uma corpa em sua ação artística? Qual é esse cânone que dita onde está ou não a potência dessa corpa? Uma corpa só pode existir no espaço de uma galeria se for para servir o propósito histórico que aquela instituição possui? Ela não pode enunciar a si mesma?

Deyson Gilbert "Braile" 2019 Performance na exposição "Começo de século" (Foto: Alexandre Furcolin) Juliana Frontin "Insônia" 2019 Performance sonora na exposição "Começo de século" (Foto: Alexandre Furcolin)

Deyson Gilbert
"Braile" 2019
Performance na exposição "Começo de século"
(Foto: Alexandre Furcolin)


Juliana Frontin
"Insônia" 2019
Performance sonora na exposição "Começo de século"
(Foto: Alexandre Furcolin)

MEXA (Yasmin Bispo e Anita Silvia) Sem título 2019 Performance na exposição "Começo de século" (Foto: Alexandre Furcolin)

MEXA (Yasmin Bispo e Anita Silvia)
Sem título 2019
Performance na exposição "Começo de século"
(Foto: Alexandre Furcolin)

Uma das coisas que sempre me incomodou em relação à curadoria é essa demanda de ser a reprodução exaustiva de um exercício acadêmico não-acessível. Quando falamos em instituições ou espaços tradicionais de exposição, sempre tomam como ponto de partida comum diversas pré-noções da necessidade de um fôlego acadêmico, que muitas vezes não se percebe operando como mecanismo de enforcamento e cerceamento das poéticas que o ato curatorial pode proporcionar.

Creio que a curadoria deva ser um espaço de proposição aberto. É mais imperativo do que nunca que a juventude preta e periférica assuma esta posição: muito do lugar de repensar as práticas hoje nasce da necessidade de assumir o controle dos discursos sobre aquilo que nos rodeia e que nos forma, e entender a prática em si como podendo operar espaços de rompimento radical.

Vista da exposição "Parabéns" Curadoria de Guilherme Teixeira (Foto: Ana Pigosso)

Vista da exposição "Parabéns"
Curadoria de Guilherme Teixeira
(Foto: Ana Pigosso)

Montagem do trabalho "Metragem" (2019), de Pedro Ermel (Foto: Ana Pigosso)
Vista da exposição "Parabéns" (Foto: Felipe Basuglia)

Montagem do trabalho "Metragem" (2019), de Pedro Ermel
(Foto: Ana Pigosso)

Vista da exposição "Parabéns"
(Foto: Felipe Basuglia)

A efemeridade chama bastante atenção nos seus projetos. De onde vem o ímpeto de realizar exposições com um dia de duração, como a “Parabéns” e “O grande susto”?

GT: A efemeridade nasce de um exercício de adaptação às condições precárias de acesso à construção, divulgação e articulação de exposições de jovens artistas hoje. Ao mesmo tempo, também entendo ela como resposta a uma saturação maior que perpassa as ideias de eventos de arte – principalmente em cidades como São Paulo -, operando como um momento condensado de respiro, concentrando o público e também possibilitando aproximar trabalhos e artistas que não estariam lado a lado em exposições mais longas ou em instituições, abrindo assim espaço para permutações infinitas de conceito e afeto. Cria-se a possibilidade das relações conceituais serem estabelecidas a revelia de uma agenda institucional externa, que orquestra pontos de flexão entre a poética e o discurso de artistas muitas vezes com intuitos outros… 

Outra questão que me anima muito em trabalhar neste formato é o fato que ele permite ao artista propor trabalhos (como foi o caso de muitas das propostas na exposição “Parabéns”) que seriam inviáveis se o período expositivo fosse mais longo que um dia. Por exemplo, o trabalho “Metragem” de Pedro Ermel, onde o artista criava um grid no chão da exposição utilizando um pão de metro, desses de padaria, como régua. Esse lugar de habilitar a existência de trabalhos de arte que possam tomar o espaço, se fazer nele e desexistir nele também, sem que sejam categorizados enquanto ação, para mim é uma reflexão importantíssima. Pensar sobre o tempo de vida dos trabalhos em relação ao tempo de vida de uma exposição, e como isso se opera.

Exposição realizada na sobreloja do Edifício Tinguá em 2019.

Exposição realizada no Espaço.CC em 2019.

Trabalhos da CLUBE e Cleo Dobberthin na exposição "O grande susto" (Foto: Guilherme Garofalo)

Trabalhos da CLUBE e Cleo Dobberthin na exposição "O grande susto"
(Foto: Guilherme Garofalo)

Trabalhos de Gabriella Garcia na exposição "O grande susto" (Foto: Guilherme Garofalo)

Trabalhos de Gabriella Garcia na exposição "O grande susto"
(Foto: Guilherme Garofalo)

Seus projetos seguem uma lógica extremamente integrada: podemos ver como um determinado raciocínio atravessa desde o conceito da exposição até o seu design, que é implementado na expografia e na reprodução do texto curatorial. Penso, por exemplo, na reprodução do texto curatorial de “O grande susto” em um tijolo, onde, além de evocar o gesto material do impacto do tijolo você também abraça o eventual esfacelamento do texto, que com o tempo se torna ilegível. Ou seja, o texto se torna fisicamente parte da exposição, não apenas conceitualmente, mas valendo quase como uma obra em si mesmo. Pode falar um pouco sobre essa lógica integrada?

GT: Eu acredito que a exposição não existe no espaço, mas com o espaço, e que os trabalhos consequentemente não existem na curadoria, mas com a curadoria. Pensar os modos que essa relação se efetiva é múltiplo, mas passa por dois pontos imprescindíveis: primeiro o texto, e segundo como a proposta curatorial se dá no espaço. Em ambos pontos, o design se torna uma peça fundamental para efetivação do que é enunciado. 

Já há um tempo venho pensado essa relação com meu amigo e parceiro de trabalho Will Cega, refletindo sobre esses pontos de contato. Para nós, o tornar físico do texto curatorial é imprescindível. A exposição “O grande susto” falava sobre o lugar específico que existe entre o discurso escultórico e a arquitetura, e a solução de utilizar um tijolo como suporte para o texto veio da possibilidade do discurso se aliar, e assinalar, esse espaço entre a construção e a ruína. A materialidade do tijolo também se torna essencial quando pensamos no que se leva de uma exposição: estamos mais do que acostumados com a planificação de um discurso e pesquisa, movimento muito comum que reduz essas duas instâncias importantíssimas a algo que vai ficar esquecido no fundo da sua bolsa após a visita a um espaço expositivo. Esse se tornar físico e o peso do tijolo operam aí: no incômodo que acompanha o visitante após ele ir a uma exposição.

Texto curatorial impresso sobre tijolo "O grande susto" (Foto: Guilherme Garofalo)
Texto curatorial impresso sobre saco plástico "Começo de século" (Foto: Mateus Acioli)

Texto curatorial impresso sobre tijolo
"O grande susto"
(Foto: Guilherme Garofalo)

Texto curatorial impresso sobre saco plástico
"Começo de século"
(Foto: Mateus Acioli)

Paredão (desmontagem) por Alexandre Furcolin-2
Desmontagem e vista da exposição "Paredão" Curadoria de Guilherme Teixeira Centro Cultural São Paulo, 2017 (Fotos: Alexandre Furcolin)

Desmontagem e vista da exposição "Paredão"
Curadoria de Guilherme Teixeira
Centro Cultural São Paulo, 2017
(Fotos: Alexandre Furcolin)

Como você enxerga o fato de ter uma produção quase ininterrupta, que está sempre driblando entraves institucionais? Me parece que, quando o mundo da arte impõe barreiras para impedir o avanço de novos projetos, você consegue repensar essas barreiras de forma a dar ainda mais força para seus trabalhos.

GT: Na verdade, essa “liberdade” toda é uma bela faca de dois gumes: ao mesmo tempo que opera na cumplicidade entre curador e artistas, reitera um regime de precariedade muito difundido no trato com jovens propositores. Muitas das exposições que fiz não tiveram verba alguma, ou se teve saiu de vaquinhas com os artistas e venda de cerveja nas aberturas. Sei que isso não é nada novo, mas é decepcionante ver que ainda hoje o espaço para proposições e circulação sejam tão restritos. O “se virar” é sempre bem-vindo, mas ele não pode ser a tônica dos modos como construímos, propomos e possibilitamos a produção atual. 

Por isso, compreender as iniciativas independentes e fomentá-las é imperativo para aqueles que detêm o capital econômico e cultural. A necessidade de “driblar entraves institucionais” deve ser sim apontada como um movimento de precarização que só se acirra, e até mesmo romantiza, ações de subsistência de discursos fora das linhas de “interesse” institucional. A metafórica faca de dois gumes é impedida de ser instrumentalizada, aos moldes de uma faca vietnamita, na demonstração da potência dos cortes severos que a criação pode infligir no tecido de um sistema.

"Parabéns", Guilherme Teixeira (Foto: Felipe Barsuglia)
Guilherme Teixeira (Foto: Alexandre Furcolin)

"Parabéns", Guilherme Teixeira (Foto: Felipe Barsuglia)

Guilherme Teixeira
(Foto: Alexandre Furcolin)

Você recentemente fundou, em parceria com o designer Will Cega, um jornal de crítica de arte chamado “O Turvo”. Pode contar um pouco sobre esse projeto?

GT: “O Turvo” é um projeto que eu e o Will Cega viemos desenvolvendo há mais ou menos um ano, mas que só se fez possível dentro das adversidades recentes. Nossa intenção inicial era construir um espaço que intentasse contra a erosão da imaginação política e poética no hoje, construir um lugar onde a crítica possa se alinhar a questões poéticas e propor discussões de fôlego sem ter de se ater cegamente a um discurso acadêmico.

O jornal é bimestral, e apresenta temas inerentes à construção dessas imaginações. O design, encabeçado pelo estúdio AÇO.ORG (de Alexandre Ruda e Willian Cega), é também uma parte essencial da proposta. Queríamos, desde o início, que o formato físico da publicação ressoasse o tema que ela aborda, trazendo à tona a discussão sobre função da forma nos modos como lidamos com objetos. Para a primeira edição, “Confinamento e colapso”, convidamos diversos artistas, críticos, escritores e pensadores para falar de um lugar próprio sobre como questões relativas à pandemia os estavam afetando. O jornal, em formato tabloide, apresenta na sua diagramação um movimento de encerrar os textos, poemas e imagens que se apresentam ali, buscando assim ecoar as ideias que norteiam a temática da edição.

Para a segunda edição, “Regimes de conexão”, fizemos uma chamada aberta para propostas que discutem os modos como nos conectávamos ontem e nos conectamos hoje. Ela traz na sua materialidade uma denúncia do futuro evolutivo dos nossos polegares, reproduzindo um “scroll infinito” aos moldes de uma folha de fax, construindo uma leitura vertical paralela a uma programação que ocorre também no site. Essa segunda edição está em processo de finalização, e deverá ser lançada até o fim de junho.

Pensando em modos de expandir o jornal enquanto plataforma, iniciamos o espaço À Residência, inaugurado pela artista e escritora Ana Matheus Abbade, no qual, ao longo de três edições, um artista ou escritor desenvolve um projeto ocupando uma das páginas da publicação.

Para a terceira edição vamos abordar o tema “Quando corpos erodem”, trazendo discussões sobre as políticas que se reproduzem sobre nossas corpas e nossos desejos, além de reflexões sobre o regime necropolítico no qual nos vemos cada vez mais afogados.

Jornal "O Turvo" (Imagem cortesia de AÇO.ORG)
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Jornal "O Turvo"
(Imagem cortesia de AÇO.ORG)

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Por último, pode falar um pouco sobre de onde tira inspirações e referências, e como você sente que isso impacta sua prática?

GT: Acredito ser urgente a criação de espaços que proponham uma abertura sensível sobre como intermediamos a existência. Agora mais do que nunca se faz necessário pensar ações que discorram sobre esse mundo que há muito convulsiona, sobre a ressignificação das imagens que nos são dadas e dos espasmos que tudo isso produz.

Vejo diversas instâncias como esta se reproduzindo hoje, e gostaria de ressaltar elas como inspirações que mostram que não estamos sozinhos no conjeturar das possibilidades do amanhã. Iniciativas como a curadoria de Paulete Lindacelva “Outros fins que não a morte” (2020), as publicações e o blog da editora GLAC, o MJOURNAL de Igi Ayedun, a articulação nacional das mulheres do Trovoa, os diálogos apresentados por outres curadores como Carollina Lauriano, Diane Lima, Hélio Menezes e Leandro Muniz, as ações diretas na rua como as de No Martins neste último domingo, a pesquisa de artistes como Juliana dos Santos, Castiel Vitorino Brasileiro, Raylander Martís, Aggrippina Manhattan, as ações socioeculturais da Casa Chama e a difusão de arte tranvestigênere da festival Marsha! e do MEXA, entre tantas outras ações, enfim… a lista vai longe e acho que dobraria o tamanho dessa conversa se fosse desenvolver ela aqui, mas trago esses poucos exemplos para falar sobre como, mesmo em meio aos embates e violências que assolam nossas corpas diariamente, somos capazes de estruturar pontos de divergência que apontem para outros ontem, hoje e amanhã possíveis.

07 de junho 2020.


liki

Barbara Mastrobuono é editora, tradutora e pesquisadora. Trabalhou em casas editoriais como Editora 34 e Cosac Naify, e atuou como coordenadora editorial da Pinacoteca de São Paulo. Entre os títulos que traduziu estão “Tunga, com texto de Catherine Lampert; “Poesia Viva”, de Paulo Bruscky, com texto de Antonio Sergio Bessa; e “Jogos para atores e não autores”, de Augusto Boal. Defendeu sua dissertação de mestrado pelo departamento de Teoria Literária da Universidade de São Paulo, e conta com textos publicados em revistas de conteúdo cultural como a Amarello. Atualmente é editora-chefe da SP-Arte.

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