"Caleidoscópio" (1999), Amelia Toledo (Foto: Metrô de São Paulo)
Arte pública

Coleção subterrânea: obras de arte no metrô de São Paulo

SP-Arte
24 jan 2020, 14h38

Existe uma exposição de arte em São Paulo que, diariamente, é mais vista do que todas as exposições de museus, galerias e instituições da cidade juntas. Essa coleção está disponível ao público de segunda a domingo, das 4h40 até pouco depois da meia-noite. Ainda não sabe que acervo aberto é esse? Vale a pena reparar melhor nas estações do metrô de São Paulo, quase um verdadeiro museu público e subterrâneo.

Tudo começou com a instalação de um parque de esculturas na Praça da Sé, reurbanizada para a inauguração da Estação Sé em 1978, quatro anos após as operações do primeiro trecho do eixo norte-sul. A iniciativa inspirou a ocupação das plataformas, mezaninos e passagens do metrô desde então. Aprovadas previamente por uma comissão consultiva de arte, hoje em dia já são 91 obras espalhadas por 37 estações. Os trabalhos variam na escala, nas técnicas, nos temas, e alguns foram projetados especificamente para cada contexto arquitetônico ou urbanístico.

Descubra um pouco mais sobre algumas das obras mais emblemáticas, que inclusive integram com força o imaginário paulistano, e inspire-se para perceber a presença da arte brasileira nos cantos e momentos mais inesperados.

Independentemente da sua rota, a SP-Arte deseja uma boa viagem!

Acima:
"Caleidoscópio" (1999), Amelia Toledo (Foto: Metrô de São Paulo)

"Garatuja" (1978), Marcello Nitsche (Foto: Metrô de São Paulo)

"Garatuja" (1978), Marcello Nitsche (Foto: Metrô de São Paulo)

Estação Sé
Linha 1-Azul e linha 3-Vermelha

Segundo o crítico de arte Mario Schenberg, Marcello Nitsche (1942-2017) foi o mais pop dos artistas brasileiros. Conhecido principalmente pelos trabalhos inspirados na linguagem dos quadrinhos, o artista paulistano também produziu esculturas, algumas infláveis, que alcançam grandes escalas e sugerem elementos gestuais da pintura. É o caso de “Garatuja”, palavra que significa rabisco, uma de suas obras mais famosas e que está instalada há mais de quarenta anos na Estação Sé – portanto, uma das pioneiras da coleção do metrô. O trabalho, feito de ferro e aço, pesa três toneladas e é bastante marcante na estação, pois está na frente dos bloqueios, no mezanino, e pode ser visto pelos transeuntes da praça marco zero da cidade.

"Caleidoscópio" (1999), Amelia Toledo (Foto: Metrô de São Paulo)

"Caleidoscópio" (1999), Amelia Toledo (Foto: Metrô de São Paulo)

Estação Brás
Linha 3-Vermelha e linhas da CPTM

Modificar paisagens sempre foi uma das intenções de Amelia Toledo (1926-2017). Suas obras exploram as potências sensoriais de materiais naturais e industriais, provocando experiências nos espaços onde se instalam, sejam eles a céu aberto ou em galerias e museus. Em “Caleidoscópio”, de 1999, chapas de aço inox de dois metros, curvadas e com diferentes tratamentos, como polimento e pintura, geram um ambiente diferenciado no grande hall de circulação no primeiro piso da Estação Brás. A obra convive com o vai e vem intenso de uma das principais estações da rede metroviária, além de ganhar outros significados em relação ao contexto do bairro da zona central de São Paulo.

"Momento antropofágico com Oswald de Andrade" (1990), Antonio Peticov (Foto: Metrô de São Paulo)

"Momento antropofágico com Oswald de Andrade" (1990), Antonio Peticov (Foto: Metrô de São Paulo)

Estação República
Linha 3-Vermelha e linha 4-Amarela

Antonio Peticov (1946) desenvolve sua pesquisa artística aliando conceitos da óptica e da geometria à sua espiritualidade. Em 1990, o artista instalou na Estação República o mural “Momento Antropofágico com Oswald de Andrade em homenagem ao centenário do escritor. As figuras presentes no painel foram inspiradas em elementos de três livros de Andrade: “O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo”, “Manifesto Antropofágico” e “O Homem do Povo”. Com dezesseis metros de largura, a obra do mezanino, junto aos acessos da Praça da República, combina conceitos de anamorfose e oposições de positivo e negativo: em perspectiva oblíqua, os passageiros podem ver a feição de Oswald se materializar.

"Quatro estações" (1998), Tomie Ohtake (Foto: Metrô de São Paulo)
"Quatro estações" (1998), Tomie Ohtake (Foto: Metrô de São Paulo)

"Quatro estações" (1998), Tomie Ohtake (Foto: Metrô de São Paulo)

"Quatro estações" (1998), Tomie Ohtake (Foto: Metrô de São Paulo)

"Quatro estações" (1998), Tomie Ohtake (Foto: Metrô de São Paulo)

"Quatro estações" (1998), Tomie Ohtake (Foto: Metrô de São Paulo)

Estação Consolação
Linha 2-Verde e linha 4-Amarela

Tomie Ohtake (1913-2015) teve uma das carreiras mais longevas da arte brasileira. A maestria com que equilibrava as cores em pinturas e esculturas, quase sempre pela via da abstração, influenciou toda uma geração de artistas brasileiros e nipo-brasileiros. Ohtake também se dedicou a obras públicas em locais como a Av. 23 de Maio, o Memorial da América Latina e o Auditório Ibirapuera. Na Estação Consolação, os painéis da artista, em frente à plataforma sentido Vila Prudente, retratam as estações do ano – primavera, verão, inverno e outono – por meio de quatro cores principais: verde, amarelo, azul e vermelho. Esse é um dos poucos trabalhos de Tomie Ohtake utilizando a técnica de mosaico, com tésseras de vidro.

Sem título (1998), Alex Flemming (Foto: Metrô de São Paulo)

Sem título (1998), Alex Flemming (Foto: Metrô de São Paulo)

Estação Sumaré
Linha 2-Verde

A obra mais conhecida do artista Alex Flemming (1954) também é uma das mais icônicas da coleção do metrô e da própria paisagem de São Paulo. O trabalho, de 1998, faz conexão com o exterior das plataformas da Estação Sumaré, que é inteiramente visível a partir da avenida de mesmo nome, na Zona Oeste. São 44 retratos de pessoas comuns colados nas paredes de vidro da estação, aludindo a questões de identidade e do respeito às diferenças. Os painéis contêm uma característica marcante das obras de Flemming: a aplicação de palavras impressas em diferentes suportes. Nesse caso, poemas de autores brasileiros, grafados de forma livre e sem alinhamento.

"Figuras" (1992), Lygia Reinach (Foto: Metrô de São Paulo)

"Figuras" (1992), Lygia Reinach (Foto: Metrô de São Paulo)

Estação Ana Rosa
Linha 1-Azul e linha 2-Verde

As peças de cerâmica que compõem a obra “Figuras”, 1992, de Lygia Reinach (1933), possuem uma ligação especial com o Metrô que vai além de sua instalação na estação Ana Rosa: o barro de sua confecção, queimado a 1260 graus, veio das próprias crateras de obras do subterrâneo. Uma das interpretações dos espectadores relatadas pela artista é a de que a obra – um conjunto de oitenta peças com cerca de 1,70 de altura – representa os passageiros do Metrô. Reinach sempre trabalhou com escultura de forma seriada, e também tem outra obra pública importante, chamada “Colar”, instalada no Parque da Luz, composta por quatrocentas bolas de cerâmica.

"Construção de São Paulo" (1998), Maria Bonomi (Foto: Metrô de São Paulo)
"Construção de São Paulo" (1998), Maria Bonomi (Foto: Metrô de São Paulo)

"Construção de São Paulo" (1998), Maria Bonomi (Foto: Metrô de São Paulo)

"Construção de São Paulo" (1998), Maria Bonomi (Foto: Metrô de São Paulo)

Estação Jardim São Paulo
Linha 1-Azul

A obra “Construção de São Paulo”, 1998, da artista ítalo-brasileira Maria Bonomi (1935), é composta por dois cubos: o primeiro retrata o delineamento paisagístico da cidade, enquanto o segundo transmite o resultado destas transformações por meio de placas de concreto justapostas e recortes geométricos. Na Estação Luz, especificamente na conexão entre a Linha 1-Azul e a CPTM, é possível encontrar “Epopeia Paulista”, outro painel de Bonomi. A artista experimentou diversas técnicas ao longo de sua trajetória, mas ficou principalmente reconhecida por seu trabalho como figurinista e cenografista para peças e trupes teatrais ao longo dos anos 1960, sendo grande parceira do diretor Antunes Filho.

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