"Intervenção VI", 1980, 3Nós3
Violência política

Clara Ianni: Não podemos ter medo

Théo-Mario Coppola
30 jun 2020, 16h59

A artista brasileira Clara Ianni enfatiza que a violência histórica se recompõe continuamente nas sociedades contemporâneas. A artista foi criada em uma família politicamente engajada e desenvolveu um interesse precoce por questões políticas relacionadas à história do Brasil e às formas contemporâneas de opressão. Formou-se em artes visuais pela Universidade de São Paulo e em antropologia visual e de mídia pela Freie Universität Berlim. Clara Ianni vive e trabalha em São Paulo e atualmente é representada pela Galeria Vermelho. Sua obra já foi exibida em grandes exposições, como a 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil “Comunidades imaginadas” no Sesc 24 de Maio e “Histórias feministas: artistas depois de 2000” no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Seus trabalhos também foram exibidos internacionalmente: é significante a participação na 10a Bienal de Berlim, em Berlim e em “Brasile. Il coltello nella carne”, com curadoria de Jacopo Crivelli Visconti no PAC, Milão. Clara Ianni foi convidada a participar da próxima Bienal de São Paulo.

A pesquisa de Ianni abrange uma ampla gama de disciplinas, incluindo antropologia, história e ciências políticas. Sua prática é fundamentada em referências precisas à arte moderna, história da arte, estudos pós-coloniais e arquitetura. Seu trabalho examina as consequências da dominação, em particular o racismo, e ecoa as experiências traumáticas de viver em um país fundado em cima de terror e adversidade.

A violência está profundamente enraizada na sociedade brasileira e se torna tangível por meio de várias ações e símbolos políticos. A própria lei desempenha um papel ambíguo nesse cenário. Em 1979, uma lei de anistia foi implementada pela ditadura militar. Esta lei, embora alterada pelo senado em 2014, ainda está em vigor hoje. Ela compele o perdão por crimes e atos de tortura cometidos por agentes do Estado. Também se aplica aos oponentes do regime, e não faz distinção entre os vários atos cometidos. Sua implementação criou uma supervisão geral e impôs o esquecimento entre a população do país. Ao instaurar uma reconciliação fingida, essa lei afetou dramaticamente as representações pessoais e impediu qualquer perspectiva de construção de uma transmissão compartilhada de eventos passados.

Acima: "Intervenção VI", 1980, 3Nós3

A ditadura do Brasil durou de 1964 a 1985. Ver Thomas Skidmore, “The Politics of Military Rule in Brazil, 1964–1985”, Nova York e Oxford: Oxford University Press, 1988. Para uma breve introdução à Lei de Anistia de 1979, consulte https://bit.ly/anistiaWiki (última edição em 1 de janeiro de 2020 às 11:57 UTC). Veja também a entrada Comissão Nacional da Verdade e seu relatório: https://bit.ly/cnvWiki (editado pela última vez em 14 de abril de 2020 às 22:39 UTC).

"Punhos" (2010), Clara Ianni (Foto: Filipe Berndt / Cortesia Galeria Vermelho)

"Punhos" (2010), Clara Ianni (Foto: Filipe Berndt / Cortesia Galeria Vermelho)

"Apelo" (2014), Clara Ianni e Débora Maria da Silva still de vídeo

"Apelo" (2014), Clara Ianni e Débora Maria da Silva
still de vídeo

“Apelo” (2014) foi filmado no cemitério Dom Bosco, em São Paulo, que serviu como vala comum para as vítimas da ditadura. O cemitério permanece em uso hoje e é onde estão enterrados os corpos de indigentes, vítimas do tráfico e vítimas da violência policial e militar atual. Débora Maria da Silva, ativista de direitos humanos, é a narradora do filme. Ela denuncia o anonimato dos enterros e o constante esquecimento: “Lembre-se de que é o nosso sangue que rega esta terra e faz as plantas crescerem. É do nosso sangue que as plantações bebem e que misturam o cimento em cada nova cidade”. O tempo presente surge como um eterno rio Styx, repleto de tristeza. O filme subverte a representação do Brasil como uma terra de abundância e esperança, um estereótipo que sobrevive no país e no exterior. Durante a pesquisa preliminar, Clara Ianni filmou “Mães” (2013), um prequel de “Apelo”. Inserido entre o indivíduo e a história coletiva de milhões de pessoas que sofreram violência durante a ditadura, o trauma persistiu no período democrático.

A repetição é uma figura-chave da vida política brasileira e se aplica tanto a instituições políticas quanto a movimentos alternativos em defesa dos direitos humanos. “Repetições” de Clara Ianni (2018) revisita a peça política “Arena Conta Zumbi”, realizada pelo Teatro de Arena em 1965. Através das memórias de um de seus antigos performers, Izaias Almada, o filme é uma tentativa de experimentar a história por meio da repetição e superar a má representação do sofrimento pela companhia na peça inicial.

Em “Tratado” (2016), ela compõe um estudo de cores baseado em uma paleta de nuances da pele humana. Cada bloco estabelece uma correspondência entre o tom de pele de um dos ministros do Presidente Temer com uma cor monocromática equivalente, refletindo a supremacia branca e masculina de seu gabinete.

O Cemitério Dom Bosco também é conhecido como Cemitério de Perus ou Colina dos Mártires. Informações adicionais podem ser encontradas em https://bit.ly/cemPerWiki (editado pela última vez em 18 de janeiro de 2020 às 00:14 UTC).

O Teatro de Arena foi fundado em São Paulo em 1953 e foi uma das mais importantes companhias de teatro brasileiras nas décadas de 1950 e 1960. A companhia era politicamente engajada e apresentava formas alternativas de produção teatral. Foi fechado em 1972.

Para um exame aprofundado da composição do governo de Michel Temer, consulte também ‘A lot of testosterone and little pigment: Brazil’s old elite deals a blow to diversity’ [Muita testosterona e pouco pigmento: a velha elite do Brasil causa um duro golpe à diversidade] de Jonathan Watts, publicado em The Guardian em 13 de maio de 2016: https://bit.ly/guardianCI

"Tractatus" (2016), Clara Ianni (Foto: Edouard Fraipont / Cortesia Galeria Vermelho)

"Tractatus" (2016), Clara Ianni (Foto: Edouard Fraipont / Cortesia Galeria Vermelho)

"Repetições" (2017-2018), Clara Ianni still de vídeo

"Repetições" (2017-2018), Clara Ianni
still de vídeo

Linhas e planos derivam das principais estéticas e princípios políticos da modernidade. Eles também estão nas raízes da cartografia. Baseado em uma composição de linhas retas que representam fronteiras retilíneas em uma projeção cilíndrica do mundo em 2017, “Retas” (2017) é um mapa mundi impresso, minimalista e abstrato. Tendo a Europa no centro, destaca a construção política da geografia e revela como ela foi historicamente imposta a outros por países dominantes.

“Do figurativismo ao abstracionismo” (2017) investiga o papel político da arte da abstração no século 20, explorando a interferência de manobras políticas, colonialismo e interesses pessoais no campo da arte. O vídeo é uma colagem feita a partir de reproduções de obras de arte que foram exibidas na exposição inaugural do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) em 1949, da qual o título é retirado. As imagens são combinadas com citações diferentes, uma das quais diz respeito às relações diplomáticas e à cooperação cultural entre o Brasil e os EUA: “Não existe uma ponte mais forte entre os povos das Américas do que as forças criativas de nossos tempos, que mais do que nunca são de caráter universal”. Isso vem de uma carta que Nelson Rockefeller dirigiu ao empresário e fundador do MAM-SP, Francisco Matarazzo Sobrinho. A influência de um pequeno grupo de indivíduos privilegiados na definição de políticas culturais e na história da arte nos países modernos é ainda mais gritante.

A abordagem de Clara Ianni à prática artística é radical e demonstra uma análise precisa das desigualdades ativas e estruturas de opressão no Brasil. A ambição política de seu trabalho faz um apelo latente para um futuro de resistência ativa e ação coletiva.

Nelson Rockefeller é conhecido principalmente por servir como vice-presidente dos EUA de dezembro de 1974 a janeiro de 1977. Ele visitava regularmente o Brasil a partir da década de 1930. Entre 1940 e 1944, chefiou o Escritório de Coordenação de Relações Comerciais e Culturais entre as Repúblicas Americanas (OCCCRBAR), posteriormente renomeado para Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos (OCIAA). Como tal, ele supervisionou um programa de cooperação entre os EUA e os países da América do Sul, que incluía cooperação cultural. Rockefeller foi um importante colecionador de arte e patrono. Veja Antonio Pedro Tota, “The Seduction of Brazil: The Americanization of Brazil During World War II”, [A Sedução do Brasil: A Americanização do Brasil Durante a Segunda Guerra Mundial], University of Texas Press: Austin, 2009.

"Do figurativismo ao abstracionismo" (2017), Clara Ianni Exibição como parte da Verbo - Mostra de Performance Arte (2018) na Galeria Vermelho

"Do figurativismo ao abstracionismo" (2017), Clara Ianni
Exibição como parte da Verbo - Mostra de Performance Arte (2018) na Galeria Vermelho


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Théo-Mario Coppola (nascido em 1990 – não-binário – ele) é um curador independente e escritor de arte. Na interseção entre empatia e ativismo, sua prática curatorial se envolve e se molda por meio de pesquisa, o experimental, narrativas e políticas. Théo-Mario Coppola fundou e foi responsável pela curadoria do “Hotel Europa”, uma série anual de exposições e programas (Vilnius, Lituânia em 2017, Bruxelas, Bélgica em 2018 e Tbilisi, Geórgia em 2019). Em 2018, ele curou a terceira edição do festival de artes Nuit Blanche na Villa Medici em Roma, Itália. Théo-Mario Coppola foi nomeado curador da 11ª edição da bienal Momentum, que ocorrerá em 2021 em Moss, Noruega.

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