Capa de "Água batizada" (2016), Negro Leo (Foto: Luiz Zerbini / Rafael Meliga / Divulgação)
Arte e música

A arte dos discos

Giovana Christ
27 abr 2020, 12h33

Mais do que só proteger os vinis, as capas de álbum tem o papel de contar a história por trás das músicas e também vender o trabalho dos músicos. Nas grandes lojas de vinis e CDs, cada vez mais raras nos dias de hoje, a ilustração também era o que chamava atenção para vender (ou não) o álbum.

Ao longo dos anos, diversos artistas foram convidados para criar capas de álbuns, cruzando a linha para as artes visuais. Conversamos com artistas que já fizeram parte do mundo da música, do seu próprio jeito, para podemos entender mais desse fenômeno. Conheça algumas capas de álbum icônicas e aproveite!

Acima: Capa de "Água batizada" (2016), Negro Leo (Foto: Luiz Zerbini / Rafael Meliga / Divulgação)

1973

Secos e molhados

Secos e molhados

 

A produção desta fotografia foi tudo menos glamourosa. Para começo de conversa, o grupo disponibilizou o que seria hoje oitenta reais para o fotógrafo Antônio Carlos Rodrigues, que já havia produzido imagens como o recurso “cabeças na bandeja”. Os músicos relataram congelar na parte de baixo da mesa e suar na cabeça por conta das luzes em cima deles.

Seguindo na linha do não-glamour, a imagem sofreu diversos ataques da censura, já que seu lançamento foi feito durante o período da Ditadura Militar. Estar com as cabeças “decepadas” servidas numa mesa de comida já seria problema suficiente, mas, Ney Matogrosso, parte do Secos e Molhados, disse que tiveram que enfrentar duras críticas por estarem maquiados “parecendo com mulheres”. O músico também disse, ao Canal Brasil, que a capa “tinha esse impacto de uma coisa agressiva, porque era um momento de muita agressividade que a gente vivia, e isso aqui não é manso, isso aqui tinha um subtexto muito sério”.

Na questão técnica, bastou uma mesa com quatro furos para as cabeças, bandejas cortadas na parte de trás para encaixar a cabeça dos músicos e uma lâmpada simples com difusor, conta o fotógrafo responsável por eternizar a capa do álbum no imaginário brasileiro.

Capa de "Secos e Molhados" (1973) (Foto: Antonio Carlos Rodrigues / Divulgação)

Capa de "Secos e Molhados" (1973) (Foto: Antonio Carlos Rodrigues / Divulgação)

1985

Estação da luz

Alceu Valença

 

Ao conhecer profundamente a cidade de Olinda, o músico Alceu Valença acabou formando um grupo de diversos artistas plásticos cujo trabalho ele admira. Para seu álbum Estação da luz, decidiu divulgar o trabalho dos artistas em seu encarte, tanto na capa quanto no interior. Cada colaborador recebeu uma música do cantor para fazer uma pintura baseada na letra da canção, e assim, artistas como Paulo Bruscky, Marcos Amorim, Tiago Amorim, Roberto Lúcio, Sérgio Lemos, Aprígio, Zé Som e Marcos Cordeiro puderam divulgar seu trabalho em um encarte de grande circulação nacional.

Alceu Valença tem sua figura representada em todas as capas de seus álbuns e essa, em específico, foi feita pelo artista (também olindense) Wellington Virgolino, que retratou o pintor “Verão”, uma representação do próprio músico, uma musa inspiradora (que não aparece na capa, mas sim na ilustração completa), e vários cajus do verão pernambucano. “Das minhas capas todas eu participo porque quando eu faço música, eu faço cinema. Quando eu faço cinema, eu faço arte plástica. Quando eu faço arte plástica, eu estou desenhando alguma coisa que está dentro das minhas músicas. A arte está junta”, relata o músico pernambucano.

Capa de "Estação da luz" (1985), Alceu Valença (Foto: Wellington Virgolino / Divulgação)

Capa de "Estação da luz" (1985), Alceu Valença (Foto: Wellington Virgolino / Divulgação)

1986

Vivendo e não aprendendo

Ira!

 

A capa de Vivendo e não aprendendo carrega uma história em quadrinhos elaborada por grandes artistas cujos nomes são atualmente muito conhecidos nas artes visuais. A banda Ira! juntou retratos de cada um dos componentes para montar uma capa mais conceitual do que comercial, visão que a banda sempre tentou levar em suas criações. A imagem de André Jung, a primeira a ser feita, foi de autoria de Ana Ciça. Logo depois, Dora Longo Bahia, fã da banda, entregou o retrato de Edgard Scandurra. Em seguida, Paulo Monteiro e Camila Tajber foram convidados para desenhar Ricardo Gaspa e Nasi, respectivamente.

Em entrevista à SP-Arte, Dora Longo Bahia contou que não fez o desenho com intenção de colocá-lo na capa do álbum, e sim porque era fã da banda, principalmente de Edgard. Algum tempo depois, ficou sabendo que seu retrato ilustraria o álbum do Ira!. “Não foi uma coisa feita para capa de disco. Se eu soubesse, teria feito algo mais legal”, diz Dora.

Todo o encarte foi feito para remeter histórias em quadrinho, antiga paixão do guitarrista Edgard. A tipografia utilizada no interior para as letras das canções é parecida com a dos HQs antigos, e diversas fotos de quadrinhos estão espalhadas entre partituras e músicas.

Capa de "Vivendo e não aprendendo" (1986), Ira! (Foto: Divulgação)

Capa de "Vivendo e não aprendendo" (1986), Ira! (Foto: Divulgação)

1989

O estrangeiro

Caetano Veloso

 

A capa do álbum O estrangeiro é uma maquete concebida pelo cenógrafo carioca Hélio Eichbauer para a peça O rei da vela, de Oswald de Andrade, montada em São Paulo por Zé Celso Martinez Corrêa. A peça foi escrita na época da crise financeira de 1929 e aborda a valorização da indústria na década de 30 e a modernização do país que se estabeleceu com o Governo Vargas.

Eichbauer, além da capa desse álbum, produziu cenário de shows para Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa, Marisa Monte e Adriana Calcanhotto. Foi o responsável pelos cenários do show Ofertório (2019), em que Caetano cantou com seus filhos Moreno, Tom e Zeca.

Capa de "O estrangeiro" (1989), Caetano Veloso (Foto: Helio Eichbauer / Divulgação)

Capa de "O estrangeiro" (1989), Caetano Veloso (Foto: Helio Eichbauer / Divulgação)

1993

O descobrimento do Brasil

Legião Urbana

 

As ideias da capa desse álbum foram trazidas pelo próprio Renato Russo, que queria fazer referência à idade média renascentista, principalmente nas roupas dos integrantes, e contrapor a famosa acidez das músicas do grupo com flores, que nos remetem à coisas alegres.

Flávio Colker, fotógrafo responsável pela capa, conta que “a gente tinha projetos ambiciosos estéticos e eu não dominava muito a técnica de iluminar esses projetos”. A equipe teve que produzir as imagens rapidamente porque foram usadas luzes de teatro dentro do estúdio e o calor produzido por elas fazia com que as flores morressem. Hoje o fotógrafo diz que o correto seria usar um flash, e não luz contínua, para iluminar a cena.

Renato Russo, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos posaram como se fosse um quadro para Colker, lembrando exatamente as pinturas renascentistas de retratos. E assim foi ilustrado um dos últimos álbuns da banda e que emplacou sucessos atemporais como Giz, Vamos fazer um filme e a própria Descobrimento do Brasil.

"O descobrimento do Brasil" (1993), Legião Urbana (Foto: Flavio Colker / Divulgação)

"O descobrimento do Brasil" (1993), Legião Urbana (Foto: Flavio Colker / Divulgação)

2002

Tribalistas

Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte

 

Para Vik Muniz, autor da imagem icônica que representa o álbum Tribalistas, as capas são importantes para anexar uma imagem àquele som. “Aposto que você não consegue desassociar o som. Uma vez que você viu a capa do disco, não é possível imaginar uma outra imagem para aquela música”, diz o artista em entrevista para o Canal Brasil.

A ideia inicial era fazer a foto do conjunto em cordas de violão, que quando soltas formam espirais, mas a arte foi calculada para vinil, e, quando colocada em “tamanho de CD”, não deu o efeito planejado. Muniz então resolveu partir para o que estava acostumado: para desenvolver a imagem, utilizou chocolate, açúcar e terra e formou as imagens de Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, e Marisa Monte.

Capa de "Tribalistas" (2002) (Foto: Vik Muniz / Divulgação)

Capa de "Tribalistas" (2002) (Foto: Vik Muniz / Divulgação)

2014

Convoque seu Buda

Criolo

 

A arte da capa de Convoque seu Buda foi criado em conjunto pelo diretor de arte Denis Cisma, amigo de Criolo, e o designer gráfico Lucas Rampazzo. As ilustrações foram feitas pelo diretor de arte e junto na colagem foram incluídas imagens do banco de obras do Rijksmuseum, na Holanda. A figura central é um oficial da corte da ilha de Java, na Indonésia, retratado em uma imagem de 1820, que Cisma achou parecido com o Criolo.

Rampazzo diz que ouviu as músicas com antecedência mas não foram elas exatamente que inspiraram a criação da capa. “Eu me baseei acho que na ideia central do Convoque o seu Buda. O que é isso? Qual sua fé, qual sua crença? Onde você se apoia nessa realidade que a gente vive?”. O nome do álbum foi escrito para se assimilar às fitas de Bonfim, amuleto típico de Salvador e popular pelo país todo. “Tudo tem um significado ali que dialoga com crenças e fé”.

A tipografia de “Criolo” foi criada para ser algo ao mesmo tempo “brazuca” e que remete à espiritualidade, se inspirando no design nacional, grafite, tags e de letras de caçamba de caminhão. Para Lucas, que também é músico, a parte gráfica é quase tão importante quanto a composição das músicas, mas diz que isso também é difícil para quem está criando “Às vezes é muito pouco você resumir uma imagem digital numa capa de um álbum, porque você gerou várias imagens e ele não tem essa parte física impressa do álbum”.

Capa de "Convoque seu Buda" (2014), Criolo (Foto: Lucas Rampazzo / Denis Cisma / Divulgação)

Capa de "Convoque seu Buda" (2014), Criolo (Foto: Lucas Rampazzo / Denis Cisma / Divulgação)

2016

Água batizada

Negro Leo

 

A capa de Água batizada é um detalhe de uma pintura que Luiz Zerbini estava produzindo para sua exposição na Stephen Friedman Gallery, em Londres. Durante uma visita ao seu atelier, o artista Negro Leo, acompanhado do fotógrafo Rafael Meliga, exploraram as obras que estavam sendo desenvolvidas para ilustrar o álbum lançado em 2016.

“Às vezes você é chamado para fazer capa de discos que você gosta da pessoa, ou o artista te convida porque gosta do seu trabalho mas não necessariamente tem uma ligação direta com o som que o cara faz. No caso do Negro Léo eu fiquei feliz por ele me chamar e por associar a imagem da minha pintura ao som dele”. Zerbini conta ser um admirador do trabalho de Negro Leo, por frequentar a casa de shows Audiorebel, no Rio de Janeiro, onde o músico faz apresentações.

O cantor já tem uma relação profunda com as artes visuais, tendo conduzido o público em uma visita guiada exclusiva à exposição Ex Africa (2018), no CCBB SP, a maior exposição de arte contemporânea africana já feita no país. Essa relação faz ainda mais importante a convocação de um artista contemporâneo para a composição da capa de seu álbum. Para Zerbini, “a função da capa é envolver o vinil com amor e carinho”.

Capa de "Água batizada" (2016), Negro Leo (Foto: Luiz Zerbini / Rafael Meliga / Divulgação)

Capa de "Água batizada" (2016), Negro Leo (Foto: Luiz Zerbini / Rafael Meliga / Divulgação)


Giovana Christ é estudante de jornalismo (ECA–USP), entusiasta do carnaval brasileiro e apaixonada por todos os tipos de manifestações culturais. Faz parte da equipe editorial da SP-Arte.

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