Takeuchiss. Editorial "Embaúba" (2020) para "Blumenhaus Magazine" (detalhe).
Crítica de arte

A natureza na obra de Takeuchiss

Luciara Ribeiro
19 jan 2021, 10h30

O meu encontro com o trabalho da dupla Takeuchiss é relativamente recente. Ao olhar algumas das imagens realizadas pela dupla, o meu corpo ficou fascinado pelas nuances e cuidados presentes em cada uma das fotografias, em canto da imagem. Retratos únicos. Modelos únicos. Retratos reais.

Duas irmãs gêmeas que decidiram unir-se em um mesmo propósito: produzirem  juntas olhares para o futuro. Compartilhar a vida, as poéticas e as lentes é um ato de coragem. Assumir o trabalho compartilhado requer negociações e a crença em si e no outro. É com esse olhar duplo que as Takeuchiss ampliam e dividem seus desejos, e buscam construir uma fotografia comprometida com o tempo, a vida e o mundo. A dinâmica dos seus corpos e corpas, e sua transformação em imagem é visivelmente uma preocupação. Olhar o mundo integrado é outra.

Acima: Takeuchiss. Editorial "Embaúba" (2020) para "Blumenhaus Magazine" (detalhe).

Takeuchiss, "Lilith" (2017).
Takeuchiss, "Pré-baile para Brechó Replay"(2018).

Takeuchiss, "Lilith" (2017).

Takeuchiss, "Pré-baile para Brechó Replay"(2018).

Na série “Embaúba”, de 2020, as artistas homenageiam uma das poucas espécies de vegetação da Mata Atlântica a chegar aos dias de hoje. Nesse trabalho, a dupla traz referência às matas e florestas nacionais, chamando a atenção para as violentas agressões que têm sofrido. Um pedido de ajuda que vem sendo feito há muitos anos. Só nesses últimos meses, foram inúmeras as notícias de desmatamentos, queimadas, mortes aos defensores e ativistas da chamada natureza. Natureza, o que essa palavra significa hoje?

Takeuchiss. Editorial "Embaúba" (2020) para "Blumenhaus Magazine".

Takeuchiss. Editorial "Embaúba" (2020) para "Blumenhaus Magazine".

Takeuchiss. Editorial "Embaúba" (2020) para "Blumenhaus Magazine".

Takeuchiss. Editorial "Embaúba" (2020) para "Blumenhaus Magazine".

O experimento fotográfico dialoga com ideias como a noção de perspectivismo, cosmologia e cosmovisão, conceitos que pego emprestado da antropologia contemporânea a partir de autores como Eduardo Viveiros de Castro (1996), que pensa a natureza por múltiplas vias. Para o pesquisador, “as categorias de Natureza e Cultura, no pensamento ameríndio, não só não subsumem os mesmos conteúdos, como não possuem o mesmo estatuto de seus análogos ocidentais — elas não designam províncias ontológicas, mas apontam para contextos relacionais, perspectivas móveis, em suma, pontos de vista.”. Ou seja, a compreensão de natureza não é universal e está relacionada ao modo como as distintas sociedades observam o mundo.

Não é de hoje que vemos o pouco respeito a todas as formas de vida que habitam o território chamado Brasil. Inúmeras queimadas têm se alastrado pelos territórios gerando nuvens flutuantes de fumaça. Segundo a pesquisadora Débora Tacana (2020), as nuvens escuras que pairaram pelo Brasil após as queimadas, que fez com que, em uma tarde de agosto de 2019, a chegada da noite fosse antecipada para às 15h, foi a queda do céu. A queda que David Kopenawa (2015) anunciou em seu livro. O céu está caindo. A queda do céu continua ocorrendo. Precisamos nos atentar a isso. Precisamos buscar maneiras de evitá-la. É esse o compromisso de David Kopenawa e Ailton Krenak (2019). Ambos têm alertado o mundo sobre esse enorme perigo. Precisamos evitar a queda do céu e adiar o fim do mundo. Segundo Kopenawa, os Yanomamis são os responsáveis por assegurar que o céu não caia. E talvez pela compreensão dessas urgências que as Takeuchiss tenham buscado em seus novos trabalhos relacionar as diferentes formas de vida em única natureza.

Takeuchiss. Editorial "Embaúba" (2020) para "Blumenhaus Magazine".

Takeuchiss. Editorial "Embaúba" (2020) para "Blumenhaus Magazine".

Em “Embaúba”, Andreia e Nathalia chamam a atenção para isso. Corpos humanos, flores e plantas buscam unidade. A relação que iniciam com esses corpos, ainda separados, dividindo o mesmo estúdio, vai se desdobrando aos poucos  na busca por virar um corpo único, por humano virar planta e planta virar humano. Notamos a retirada do protagonismo do rosto humano e o desdobramento em uma composição de “natureza morta”. Será que a natureza está morta? Com um olhar que aproxima, as fotografias das Takeuchiss trazem novamente a vida da natureza, dando a ela o direito ao auto-retrato. Folhas, frutos, plantas ocupam o primeiro plano da imagem.

Andréia e Nathalia nos convidam a nos preocuparmos com o presente, entendendo o mesmo como um passo para o futuro. Focar de maneira poética as lentes das câmeras e um olhar para esse assunto, faz do trabalho das Takeuchiss mais do que uma fotografias produzidas para ocupar páginas de revista, mas sobre elaborar estéticas visuais que tenham como base o compromisso ético e político com o mundo.


Foto: Jeferson Santos.

Luciara Ribeiro é educadora, pesquisadora e curadora. Interessa-se por questões relacionadas a descolonização da educação e das artes e pelo estudo das artes não ocidentais, em especial as africanas, afro-brasileiras e ameríndias. É mestra em História da Arte pela Universidade de Salamanca (USAL, Espanha, 2018), onde foi bolsista da Fundación Carolina, e pelo Programa de Pós-Graduação em História da Arte da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP, 2019), onde foi bolsista CAPES. É graduada em História da Arte pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP, 2014) com intercâmbio na Universidade de Salamanca (USAL, Espanha, 2012). É técnica em Museologia pela Escola Técnica Estadual de São Paulo (ETEC, 2015). Integrou a equipe de curadoria do Instituto Tomie Ohtake, e atualmente é diretora de conteúdo da Diáspora Galeria.

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