Phillips' exhibition of Passion & Humanity: The Susie Tompkins Buell Collection, April 2019. Image courtesy of Phillips.
Fotografia

A evolução de categorias em casas de leilão: Fotografia

Marina Dias Teixeira
11 mai 2020, 12h02

Ao lado de arte latino-americana e design, a fotografia constitui mais um dos pilares na seleção de obras apresentadas ao público desde os primórdios da SP-Arte. Foi em 2007 que, considerada a relevância do fazer fotográfico no circuito da arte, nasce a SP-Foto, dedicada exclusivamente à linguagem artística. O evento celebra a produção fotográfica moderna e contemporânea, que ocupam posição central em debates, lançamentos e exposições, e se firma no calendário da cidade como o evento mais relevante de fotografia.

A história da fotografia no mercado de arte já tem longa data. Há quase trinta anos no ramo, Christopher Mahoney, Especialista Internacional Sênior e Vice-presidente Sênior da Phillips, terceira entrevistada na série dedicada a casas de leilão internacionais, relembra episódios memoráveis ao longo de sua carreira e compartilha sua paixão por esta linguagem tão querida entre colecionadores.

Como foi a evolução da fotografia na Phillips ao longo dos anos?

Christopher Mahoney: A fotografia sempre foi um campo importante dentro da Phillips. A Phillips tem um número relativamente pequeno de departamentos, portanto, a fotografia é um aspecto importante de nossa identidade e intrínseco à marca da Phillips. Desde o início, focamos em material fotográfico de alta qualidade, em obras individuais e coleções inteiras. Então, começamos já com um nível muito alto de qualidade, e tenho o prazer de dizer que é um nível que continuamos a manter. Acho que há um entendimento entre nossos colecionadores de que, quando o catálogo de fotografias de Phillips chega à sua porta (real ou virtual), eles encontrarão uma seleção bem curada de material de qualidade de toda a história do suporte.

Acima: Phillips' exhibition of Passion & Humanity: The Susie Tompkins Buell Collection, April 2019. Image courtesy of Phillips.

Edward Weston, "Circus Tent", 1924. (Foto: Cortesia Phillips)
Tina Modotti, "Telephone Wires, Mexico", 1925. (Foto: Cortesia Phillips)

Edward Weston, "Circus Tent", 1924.
(Foto: Cortesia Phillips)

Tina Modotti, "Telephone Wires, Mexico", 1925.
(Foto: Cortesia Phillips)

Você poderia compartilhar um episódio memorável na história da categoria em grandes casas de leilão?

CM: Depois de 29 anos no ramo, tenho história demais! O campo dos leilões é empolgante: há as coleções que tentamos adquirir há anos e as coleções – ou peças individuais – que você não sabia que existiam, e que aparecem de repente. Sempre temos que ficar de olho nas coleções que conhecemos e estar preparados para reagir rapidamente quando surgirem coisas inesperadas.

Uma das minhas experiências favoritas na Phillips foi vender a coleção de Susie Tompkins Buell em 2019. Quando eu comecei no campo, nos anos 90, Susie era uma colecionadora lendária, conhecida por competir arduamente em leilão pelas peças raras que atendiam seus altos padrões. Ela comprou fotografias notáveis ​​de Edward Weston e Tina Modotti, e uma série de imagens fenomenais de Dorothea Lange, além de talentos menos conhecidos, como Consuelo Kanaga, e muito mais. Chamar a coleção de “estelar” não faz jus. Em termos de raridade das imagens e da nível das impressões, essa foi realmente uma das principais coleções alocada em mãos particulares.

Em 2018, ficou claro que Susie venderia sua coleção, mas a decisão não foi formalmente tomada até o início de 2019, o que nos deu muito pouco tempo para coletar o material, catalogá-lo e produzir o tipo de catálogo especial que a coleção merecia, a tempo de uma venda em abril. Mas o Departamento de Fotografia da Phillips é uma máquina bem afinada e nos movemos rapidamente. Catalogar, fotografar, pesquisar, escrever, distribuir o catálogo – as semanas passaram como um borrão com mil atividades. Se eu puder falar pelos meus colegas, acho que o que nos levou a atravessar essa montanha de trabalho foi a alegria de lidar com um material tão fino. Por fim, a venda foi um sucesso maravilhoso: estabelecemos novos níveis de preços em leilão para Modotti e Kanaga, quebrando os recordes anteriores e alcançamos preços realmente significativos para Weston, Lange e Imogen Cunningham. Vender esta coleção foi a experiência perfeita para a equipe de Fotografia da Phillips, para a empresa e para colecionadores novos e bem estabelecidos que adicionaram fotos incríveis às suas coleções.

Consuelo Kanaga, "Profile of a Young Girl" da série Tennessee, 1948. (Foto: Cortesia Phillips)

Consuelo Kanaga, "Profile of a Young Girl" da série Tennessee, 1948.
(Foto: Cortesia Phillips)

Ao longo da sua carreira, quais peças alcançaram recordes inesperados de venda em leilão?

CM: Se você observar os melhores preços no campo da fotografia, descobrirá que a única coisa que todas as peças têm em comum é a raridade. Obviamente, existem muitos outros fatores: o fotógrafo; o status de uma imagem na obra do fotógrafo; a qualidade de impressão, condição, proveniência etc. Mas quando uma fotografia verdadeiramente rara ou única é leiloada, as pessoas competem por ela. Portanto, se estamos falando da impressão de sal de Nadar de 1854 que vendemos por US$ 542.500, ou do maciço Sie Kommen (1981) de quatro painéis de Helmut Newton que vendemos por US$ 1.820.000, o fio comum é a raridade. Você simplesmente não encontraria outros exemplos desses trabalhos no mercado. Os colecionadores reconheceram isso e aproveitaram a ocasião.

Quais são seus destaques pessoais para peças pertencentes à categoria?

CM: Costumo ser mais “clássico” em meus gostos, mas isso não significa que sou conservador de forma alguma. Gosto de ver um artista realmente ultrapassar os limites do meio fotográfico e demonstrar como pode ser uma ferramenta flexível e expressiva. Seja László Moholy-Nagy mostrando-nos, na década de 1920, novas maneiras de trabalhar com a luz; ou Man Ray, vendo todos os aspectos do processo fotográfico como algo que pode ser empurrado ou puxado para criar imagens inteiramente novas; ou Dorothea Lange redefinindo a fotografia documental na década de 1930 e expandindo o tipo de histórias que ela pode contar; ou Peter Beard desafiando a ortodoxia da fotografia incorporando colagem, pintura e objetos em suas imagens. Os exemplos são inúmeros. Sou um verdadeiro crente em fotografia – um nerd de fotos de verdade – e estou sempre pronto para ver algo novo, seja dos séculos 19, 20 ou 21.

Nadar e Adrien Tournachon, "Pierrot with Fruit", 1854-55. (Foto: Cortesia Phillips)

Nadar e Adrien Tournachon, "Pierrot with Fruit", 1854-55.
(Foto: Cortesia Phillips)

Quais são os desafios da categoria no mercado de arte?

CM: Eu acho que o maior desafio é encontrar maneiras de obter sucesso em um mercado – e em um mundo – que está mudando constantemente. A Phillips tem uma forte cultura de criatividade e o compromisso de manter nossa abordagem de venda atualizada, seja no contexto de nossos leilões ao vivo, leilões on-line ou vendas privadas. Somos criativos, trabalhamos rapidamente e damos aos nossos clientes – compradores e vendedores – um nível muito alto de atenção. Acho que essas qualidades, todas muito evidentes no Departamento de Fotografia, nos servirão bem quando negociarmos a próxima fase no mundo da arte.

Como é o desempenho da categoria em leilões online?

CM: Nossas vendas on-line têm performado muito bem! A Phillips tem uma iniciativa digital muito robusta há anos, e nossa tecnologia é muito boa e permite aos clientes interagir com especialistas da Phillips e com os trabalhos que vendemos de forma mais completa do que outras casas de leilão. E, ao longo dos anos, descobrimos que o nível de conforto de nossos clientes com interações digitais aumentou continuamente. Na situação atual, nosso foco tem sido muito direcionado para transações on-line, e recentemente desenvolvemos um programa de leilões somente on-line, cobrindo todas as categorias que vendemos, incluindo Fotografias. A resposta foi muito positiva. E, notavelmente, esses leilões on-line estão trazendo para Phillips clientes totalmente novos e que participam com entusiasmo. Então, isso é muito emocionante para nós.

Dorothea Lange, "Migrant Mother, Nipomo, California", 1936. (Foto: Cortesia Phillips)

Dorothea Lange, "Migrant Mother, Nipomo, California", 1936.
(Foto: Cortesia Phillips)

Você escolheria um trabalho disponível na SP-Arte 365?

CM: Eu só posso escolher um? Há tantas peças fortes! É claro que sou seduzido pelo trabalho fotográfico, do qual há uma seleção maravilhosa. Eu realmente fiquei atraído pela imagem das árvores em A exceção à regra, Parque da Cachoeira, RS (2003) de Leopoldo Plentz: uma imagem maravilhosa e misteriosa, e eu adorei a única árvore que se desvia tão expressivamente de seus companheiros. As imagens de Ricardo Sanchez impressas nas cabeças de parafusos de metal na obra Sem título (2019) são completamente novas para mim. Que ideia maravilhosa! Todas as figuras parecem fantasmas dentro de uma metrópole mecanizada. Fiquei intrigado com as paisagens de André Severo. A fotografia de uma paisagem tão vasta em Sem título (2017) necessita uma reprodução impecável do ambiente selvagem. Gosto de como Severo incorporou uma camada sutil de “ruído” visual em suas fotografias. De alguma forma, as torna mais sugestivas e dignas de uma visualização prolongada. E, só para mostrar que nem tudo é sobre fotografia, vou escolher a pintura de Luiz Mauro Ateliê Benjamin Johnston nº1 (2015): uma maravilhosa reprodução monocromática do estúdio da fotógrafa Frances Benjamin Johnston (ok, talvez seja tudo sobre fotografia – para mim, pelo menos!).


SP-Arte 2020

Leopoldo Plentz
“A exceção à regra, Parque da Cachoeira, RS”, 2003

Fotografia
Fotografia: 190 x 150 cm


SP-Foto 2019

André Severo
Sem título, 2017

Fotografia
Fotografia: 270 x 160 cm

© Bolsa de Arte

Luiz Mauro
“Ateliê Benjamin Johnston nº 1”, 2015

Pintura
152 x 112 cm

© Paulo Rezende

Sobre Christopher Mahoney

Especialista Internacional Sênior, Vice-Presidente Sênior, Departamento de Fotografia da Phillips. Christopher Mahoney é um profissional da área de fotografia fine-arte desde 1991 e é um dos principais especialistas na avaliação e venda de fotografias dos séculos 19, 20 e 21. Em suas posições anteriores na Swann Galleries e na Sotheby’s, ele lidou com muitas das fotografias e coleções de fotografias mais importantes a serem leiloadas. Ele foi fundamental na venda em 2014 de 175 Masterworks to Celebrate 175 Years of Photography [175 obras-primas para celebrar 175 anos de fotografia] que, totalizando US$ 21 milhões, detém o recorde de maior sucesso em leilão de fotografias. Após sua saída em 2016 da Sotheby’s, ele trabalhou como consultor particular e assessorou a Phillips nos dois leilões de sucesso Odyssey of Collecting realizados em cima de material da Fundação Joy of Giving Something em 2017. Ele se juntou à Phillips como Especialista Internacional Sênior no Departamento de Fotografia em janeiro de 2018. Ele pesquisou, escreveu sobre e vendeu o trabalho de fotógrafos que registram recordes de leilão como: Edward Weston, Alfred Stieglitz, Man Ray, László Moholy-Nagy, Eugène Cuvelier, Southworth & Hawes, Robert Frank e Robert Mapplethorpe, entre muitos outros. Chris se formou em fotografia pela New York University e continua sendo um fotógrafo ativo.


WhatsApp Image 2020-03-19 at 15.09.01

Marina Dias Teixeira é formada em Estudos de Mídia e Cultura pela Universidade de Arte de Londres (UAL). Já integrou as equipes da Fundação Bienal de São Paulo e Sotheby’s Brasil. Hoje é responsável pela área de relações institucionais da SP-Arte. Em paralelo, pesquisa teorias decoloniais e a produção de artistas afro-diaspóricos no circuito de arte contemporânea, com foco em mulheres negras.

Perfil SP‑Arte

Assine e fique por dentro dos principais acontecimentos do mundo da arte