Boi, introspectiva
José Carlos Boi Cezar Ferreira (Marília, SP, 1944 – São Paulo, SP, 2018) BOI – INTROSPECTIVA José Carlos Cezar Ferreira, Boi, culto, colecionador de palíndromos, trocadilhos e anagramas, que dizia preferir as introspectivas às retrospectivas, era um artista de artistas, cultuado por seus colegas, a maioria inconformado pela pouca atenção dada ao seu trabalho, sobretudo depois que ele se foi, em 2018, problema que agora a Galeria MaPa se dispõe a resolver. Até que enfim, dirá o meio artístico, permanentemente interessado em produções de alta qualidade. Quem conhece o artista correrá até esta exposição; quem ainda não ficará surpreendido pela singularidade de sua linguagem. Boi é um pintor de difícil classificação. Em primeiro lugar, pelas cores vivas, mais que isso, elétricas. Sua paleta era reduzida: vermelho, azul, amarelo, verde, roxo, cores tratadas em sobreposições, gradações e contaminações mútuas. Sua vivacidade é efeito da tensão com fundos escuros, que, em lugar de travá-la, expandi-a. Em segundo lugar pelo tráfego irrequieto entre figuração e abstração, de silhuetas simplificadas de corpos humanos e renques cônicos de copas de árvores, aos triângulos pontiagudos contrapostos ou solenes como pirâmides, às faixas coloridas empilhadas, aos planos de cor turvados, como nuvens escuras se aproximando, como o silêncio fazendo pressentir um ruído baixo. Embora cores, figuras -do corpo à paisagem- e planos geométricos formem um todo indissociável, quem repara em um dos termos não deixa de perceber os outros: para Boi, as cores vinham em primeiro lugar, seu principal interesse, presença tão forte a ponto de fazer crer que o resto era pretexto. Observe: quando se fala em cores primárias a arte moderna acostumou-nos a associá-las com Mondrian, um vício que não foi diminuído nem com a infinidade de cores que compõe o Pantone Color Finder. Pois as primárias obtidas por Boi, são picantes, agudas como certas bebidas energéticas, e isso porque, entre os azuis que ele empregava, estavam o ftalo: entre os vermelhos, o naftol; entre os amarelos, o azo, todos pigmentos pouco densos, finos, cuja aplicação numa passada de pincel não oculta o fundo escuro, enquanto este, ao invés de travar a cor passada por cima, acende-a. Por outro lado, quando não há cor escura servindo de fundo, ou quando ela comparece apenas em alguns setores, caso de Incêndio na Floresta, então o vermelho soma-se ao amarelo numa celebração. A articulação de planos coloridos como pura construção cromática ou como elemento expressivo? Em Boi os dois estão juntos, assim como a gama sutil de gestos empunhando o pincel. E há mais: o desmantelamento da ordem, da organização construída à mão livre, por uma chuva que despenca desde o alto, fios de tinta derramada atendendo à gravidade, procedimento adotado em telas variadas, figurativas e abstratas. Como também a espécie de paisagem obtida por uma sucessão de planos azuis e azuis esverdeados, não concluída ou apenas desfeita por um tumulto de pinceladas. Boi, artista erudito e enigmático como o rosto rosado à frente de um plano azul diagonal, cuja forma amarela que lhe envolve por detrás não sabemos se é cabelo ou lua. Agnaldo Farias

Endereço
R. Costa, 31, galeria MaPa
São Paulo, Brasil - Brasil






























