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SP-Arte

Audioguia 2021: Artes visuais e o modernismo de 22 Copy

Frederico Coelho
30 Nov 2021, 3:48 pm

Este texto foi escrito por ocasião da SP–Arte 2021 e compõe um dos audioguias produzidos exclusivamente para a Feira. Você pode ouvi-lo aqui:

"Objeto Ativo" (1962), Willys de Castro (Foto: divulgação)

Após o encerramento do Estado Novo em 1945, o Brasil atravessa um relativo período de Democracia que culminou com a eleição de Juscelino Kubitschek para a presidência em 1955. Como símbolo maior dessas transformações, a criação da capital de Brasília definiu um novo olhar projetivo sobre o futuro do país. Foi uma época em que nos vimos, nas palavras de Mário Pedrosa, condenados ao moderno. 

O ideal modernizador do desenvolvimentismo atravessou diversos campos da sociedade, inclusive as artes visuais. Era um momento decisivo em que uma nova geração de artistas e novas instituições dialogavam com vanguardas europeias e norte-americanas, e período da fundação dos Museus de Arte Moderna do Rio de Janeiro e de São Paulo, vetores importantes para que trabalhos internacionais emblemáticos circulassem com mais frequência ou até mesmo pela primeira vez no Brasil, como os de Alexander Calder, Piet Mondrian ou demais artistas ligados a movimentos da arte abstrata europeia. Essa abertura de horizontes causou impacto na formação dos artistas que passam aos poucos a ocupar os novos museus e cadernos de cultura. Nesse cenário, a Bienal de 1951 se torna um espaço definitivo de passagem geracional ao colocar, lado a lado, trabalhos de Di Cavalcanti e Cândido Portinari. 

Essa efervescência cultural e institucional colaborou para que surgissem coletivos de artistas como o grupo Ruptura em São Paulo no ano de 1952, e o grupo Frente do Rio de Janeiro, no ano de 1956. Nomes até então iniciantes e hoje com grande valor histórico, que podem ser vistos na SP-Arte, como Waldemar Cordeiro, Lothar Charoux, Geraldo de Barros, Hermelindo Fiaminghi e Luiz Sacilotto (representantes do grupo de São Paulo) e Abraham Palatnik, Aluísio Carvão, Ivan Serpa, Lygia Pape, Franz Weissman e Décio Vieira (representantes do grupo sediado no Rio) se apresentam com trabalhos que deslocam o apelo figurativo e nacional da arte modernista de gerações anteriores em direção a uma perspectiva mais gráfica, teórica e internacional. 

O tema europeu do primitivismo colonialista francês, a recusa violenta do sistema da arte pelo dadaísmo ou as torções radicais da figuração bidimensional através do cubismo eram referências que a juventude paulista em particular e brasileira em geral apontavam como meta de superação dos padrões vistos então como passadistas, isto é, ligados a uma mentalidade colonial e excessivamente acadêmica na pintura, na escultura ou na arquitetura feitas no país. 

Construção do Congresso Nacional, em Brasília (Foto: Mario Fontenelle)
Abertura da 1ª Bienal com a presença de Francisco Matarazzo Sobrinho (Foto: Fundação Bienal)

Esses dois movimentos, poucos anos depois, desembocaram nos movimentos Concreto e Neoconcreto. A partir da I Exposição de Arte Concreta realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo em 1956, uma nova poesia também de matriz cosmopolita e gráfica passa a se articular com as artes visuais. Junto com um princípio muitas vezes matemático para as formas, a paleta de cores se reduz, o aspecto industrial dos materiais ganha mais força e um pensamento original sobre o espaço bidimensional e o objeto da arte projetam caminhos singulares em artistas como Willys de Castro, Amílcar de Castro e Judith Lauand. 

No final da década, mais precisamente em 1958, o segmento carioca Neoconcreto se afasta dos rígidos princípios do grupo concreto paulista após debates acalorados em veículos de imprensa da época como o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil e o Suplemento de Cultura do Estado de São Paulo. Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, Waldemar Cordeiro e Ferreira Gullar são alguns dos artistas, poetas e críticos que demarcaram as diferenças dos movimentos. 

Iª Exposição de Arte Concreta, MAM São Paulo, 1956 (Foto: divulgação)

Ao propor a sua “teoria do não-objeto”, isto é, uma teoria que falasse de trabalhos que não podiam ser situados nas categorias tradicionais da história da arte, como a pintura ou a escultura, caso dos “Bichos” de Lygia Clark, Gullar mostra que os neoconcretos rompiam com a escola paulista em prol de uma maior liberdade expressiva, incluindo uma visão mais orgânica dos materiais e uma reflexão sobre a participação do espectador nas obras. Essas transformações inauguram um novo momento da arte local que eclodiria na década de 1960 nos trabalhos de Lygia Clark e Hélio Oiticica. Dois artistas que, hoje em dia, são reconhecidos internacionalmente como obras e nomes decisivos da arte contemporânea mundial no século 20, com exposições nos grandes museus do mundo.

Lygia Clark e sua obra "Unidades" na 1ª Exposição Nacional de Arte Neoconcreta, em 1959, no MAM Rio (Foto: divulgação)

Outros criadores fundamentais que tiveram relação independente com os princípios da abstração e geometria foram nomes como Almir Mavignier, Mary Vieira, Antonio Maluf ou Samson Flexor. Mesmo sem se vincularem aos grupos mencionados, seus trabalhos foram centrais para o pensamento tanto pictórico quanto gráfico que se fez no Brasil durante a década de 1950 e além. 

Não se pode deixar de lembrar também que nomes fundamentais das artes visuais brasileiras como Alfredo Volpi, Milton Dacosta e Rubem Valentim são artistas cujos trabalhos desse mesmo período se aproximam de forma autoral das temáticas do abstracionismo e do pensamento enxuto sobre formas e cores na década de 1950. 

Cada um a seu modo, suas obras se apropriaram dos princípios norteadores do construtivismo brasileiro e mundial, porém com abordagens e vocabulários próprios, promovendo uma fusão perfeita entre um pensamento geométrico e temas de matriz brasileira como as casas, ruas e festas populares, retratos, naturezas mortas ou símbolos ligados à diáspora africana no Brasil. 

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