"Tan Tan Bo" (2001), Takashi Murakami (Foto: ©2001 Takashi Murakami/Kaikai Kiki Co., Ltd.)
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As camadas de Takashi Murakami, fenômeno artístico japonês

Giovana Christ
12 Dec 2019, 12:02 pm

No meio da sala expositiva, uma escultura hiperrealista de um homem asiático, em tamanho real, recebe os visitantes. A expressão é difícil de ser decifrada e o sinal feito com as mãos remete a algo religioso, mas, ao chegar perto da figura, é impossível não notar seus enormes pés com unhas esverdeadas que lembram um monstro de histórias infantis e tiram a realidade da cena. Seu rosto está dividido ao meio, como se tivesse em camadas, e é possível ver a carne por trás da pele. Quando você menos espera, a escultura começa a mexer a boca, revirar os olhos e reproduzir uma espécie de mantra, assustando os menos preparados. É assim que o artista japonês Takashi Murakami se apresenta para o público, através do autorretrato “Murakami Arhat Robot”.

Realizada pelo Instituto Tomie Ohtake, “Murakami por Murakami” é a primeira exposição individual do multiartista japonês Takashi Murakami na América Latina. O estilo inconfundível do artista o lançou como um fenômeno mundial que extrapolou o campo artístico. Sua prática acabou atraída pelo mundo do entretenimento e da moda, firmando parcerias com grandes marcas, como Louis Vuitton, e com músicos, como Kanye West, Pharrell Williams e Billie Eilish.

O Instituto repete a parceria com o curador islandês Gunnar B. Kvaran, diretor do Astrup Fearnley Museum of Modern Art, em Oslo, que já desembarcou outras exposições do museu norueguês para cá, como “Imagine Brazil” (2015) e “O céu ainda é azul, você sabe…” (2017), sobre a carreira da artista Yoko Ono. Murakami, que começou a estudar arte para se tornar animador, é apresentado com 35 obras, entre elas pinturas, painéis e algumas esculturas.

"Murakami Arhat Robot" (2015), Takashi Murakami (Foto: Cortesia do artista e PERROTIN ©2015 Takashi Murakami/Kaikai Kiki Co., Ltd.)

DOB

Por ser um artista muito próximo ao mercado e inspirado pela arte da animação, Murakami criou alguns personagens para chamar de seus, como DOB, o primogênito. Ele foi retratado pela primeira vez em “DOB Genesis: Reboot” (1993) – presente na exposição –, uma pintura predominantemente azul escura com um pequeno DOB dourado no centro. Desde então, DOB é representado em escalas gigantescas nas obras seguintes, apresentando características bizarras, expressões medonhas e aparecendo nas mais diversas obras e contextos criados pelo artista. Aquele mini DOB, envolto em um azul (cor de tinta importante no Nihongá, estilo de pintura tradicional japonesa), deixa de ser único e precioso para se espalhar por produtos reproduzidos inúmeras vezes no meio comercial.

É impossível não notar a semelhança do personagem com o Mickey Mouse, da Disney, o que pode ter sido intencional: “A princípio, DOB foi interpretado como um ator que expunha e criticava a sociedade de consumo. Como um ícone ou logotipo maleável e móvel, DOB funciona dentro da lógica de um produto de cunho capitalista e funciona como representante de nossa compulsão avassaladora por consumir bens que vão desde pinturas e esculturas até balões e outros itens”, explica o texto da exposição. Ilustrando esse conceito, ao lado de “DOB Genesis: Reboot”, a curadoria expõe uma camiseta na qual o personagem aparece estampado.

Ao longo dos anos, o personagem foi evoluindo e tomando diversas formas, conforme a fase de produção de Murakami. Em “Tan Tan Bo” (2001), parte de “Murakami por Murakami”, DOB se transforma em outra criatura, com traços macabros, mas mantendo o nome escrito nas orelhas e características básicas.

Por mais que DOB apareça ilustrado em inúmeras obras de Murakami, o personagem mais distribuído pelo meio comercial é Kaikai Kiki, flor inspirada no kawaii e presente em estampas até mesmo nos painéis do artista. O elemento está presente sobretudo em suas esculturas.

"Ataque transcendente a um redemoinho" (2017), Takashi Murakami (Foto: © 2017 Takashi Murakami/Kaikai Kiki Co., Ltd.)

Superflat

Em um manifesto publicado em 2001, Takashi Murakami criou e definiu o conceito de superflat (superplano, em português), desafiando elementos tradicionais da arte japonesa, como a questão da profundidade, e aludindo à estrutura social mais plana que o país desenvolveu depois da Segunda Guerra Mundial, por conta da forte influência norte-americana que tomou o país (e o mundo), que gerou a perda de várias tradições japonesas. “Murakami questiona a ideia de arte como algo elevado e separado da cultura popular, produzindo obras de arte inspiradas em quadrinhos e desenhos animados”, segundo o texto da exposição. 

Sua teoria também corrobora no sentido comercial de suas obras, pois o conceito de planificação entre alta e baixa arte o permite incluir objetos do cotidiano como bonecos, almofadas e bolsas, dando importância a itens mais comuns do cotidiano.

Vários lados de Murakami

As salas se dividem em três momentos da carreira prolífica de Murakami, “buscando divulgar a figura mítica desse artista e a contemporaneidade de sua produção”, conforme o texto da exposição. Na primeira, estão expostas as obras do artista que rememoram o Nihongá, estilo de pintura tradicional japonesa, foco dos estudos de Murakami, incorporando elementos do pop ocidental, oriental e técnicas de produção diversas. Segundo Luana Fortes, do núcleo de pesquisa e curadoria do Instituto, “tem dois momentos na produção dele: esse primeiro que tem muito a dizer sobre a tradição japonesa, sobre a cultura otaku e a cultura kawaii e um segundo, que diz muito sobre um período mais recente, depois do desastre de Fukushima“.

A obra “Ataque transcendente a um redemoinho” (2017), um expoente do superflat, espalha, num painel de 3×10 metros, figuras que parecem com animais, formas humanas, cerejeiras e um dragão, personagem central da obra. Todos os elementos flutuam em ondas coloridas pintadas sobre a textura de fundo e são incrementado com folhas de ouro e prata. O trabalho é um forte modelo de como o artista incorpora as tradições pictóricas da cultura nipônica. Nela, é possível perceber referências, por exemplo, à obra “A grande onda de Kanagawa” (1829–1832), de Katsushika Hokusai, possivelmente a obra de arte oriental que mais influenciou o ocidente no passado. No caso do Nihongá, suas características principais se expressam, por exemplo, através das formas curvas, do apreço a materiais valiosos como a folha de ouro, e das cores.

"A grande onda de Kanagawa" (1829–1832), Katsushika Hokusai (Foto: Reading Public Museum / Divulgação)

“Com esse conceito, Murakami identifica qualidades formais de superfície na arte japonesa, assim como expansões na noção de um achatamento ou planificação cultural fundamental e de desintegração”, conforme texto da exposição. Ao lado da obra, encontram-se os rascunhos de planejamento da tela com observações detalhadas do próprio Murakami e de seus colaboradores.

Entre as grandes salas do andar superior do Instituto, três esculturas douradas e extremamente brilhantes chamam a atenção do espectador já da entrada, marcando o “cantinho da selfie”. Nelas, é explorado o conceito japonês kawaii, adjetivo que significa fofo, adorável — e o artista não deixa a desejar nessa referência. Em dois autorretratos com seus bichinhos de estimação e uma representação de sua personagem Kaikai Kiki, as esculturas evocam uma vontade quase incontrolável de abraçar os objetos dourados.

Outra sala reúne a mais recente fase das produções do artista. Depois dos desastres ambientais de 2011 no Japão, seu país natal, Murakami decidiu por focar suas criações em temas mais espirituais, a maioria deles ligado ao zen-budismo. Dessa nova temática na produção, surgiu a escultura hiperrealista “Murakami Arhat Robot” citada no começo do texto, que apresenta o artista como um arhat. Conforme o texto da exposição, arhats são pessoas iluminadas que, apesar de terem alcançado o nirvana do budismo, permanecem no mundo para disseminar os ensinamentos de Buda.

Na continuidade da sala, as obras de Murakami variam de representações de objetos do budismo. “Criar um termo para designar o próprio trabalho dele vem muito desse lugar de não querer se encaixar em determinados movimentos, em determinadas qualificações que já foram definidas principalmente pelo ocidente”, fala Luana Fortes.

A exposição fica em cartaz de 3 de dezembro de 2019 até 15 de março de 2020, no Instituto Tomie Ohtake (Av. Brigadeiro Faria Lima, 201).


Giovana Christ is a journalism student at ECA – USP, a Brazilian carnival enthusiast and passionate about all types of cultural events. She is part of the editorial team at SP-Arte.

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