"O triunfo da cor – O pós-impressionismo" (2016), CCBB SP e RJ (detalhe). Foto: Divulgação Expomus.
Interview

A sociedade brasileira precisa ser convencida de que museu é uma instituição de futuro

Yasmin Abdalla
11 Mar 2021, 2:12 pm

Doutora em Museologia, Maria Ignez Mantovani Franco já integrou a diretoria do Conselho Internacional de Museus (ICOM) e, há quarenta anos, fundou a Expomus, uma das principais referências brasileiras no desenvolvimento de projetos de natureza museológica. “O nosso trabalho tem como missão a ampliação do conhecimento, por meio de múltiplas leituras dos vestígios materiais e imateriais da sociedade, em suas diversas dinâmicas colaborativas.”

Para comemorar o mês dedicado às múltiplas potências femininas, convidamos Maria Ignez para refletir sobre a situação das políticas públicas culturais e museológicas no país, experiências institucionais que devemos ficar de olho, como anda a profissionalização do setor, e, claro, o impacto da pandemia em tudo isso. Sobre modelos de financiamento e aproximação com o público, ela afirma: “A sociedade brasileira precisa ser convencida de que museu é uma instituição de futuro”. Confira a entrevista na íntegra.

Vista da exposição "Frans Krajcberg: Natura" (2008). Oca, São Paulo. Foto: Divulgação Expomus.
Exposição dos painéis "Guerra e Paz", de Candido Portinari. Belo Horizonte (2013). Foto: Divulgação Expomus.

YASMIN ABDALLA : Você poderia contar um pouco sobre sua trajetória profissional e acadêmica? Quais conselhos daria a outras pessoas que ingressam no campo museológico?

MARIA IGNEZ MANTOVANI FRANCO : Sou graduada em Comunicação Social – Relações Públicas, pela FAAP, e tive o privilégio de me especializar em Museologia nos anos 1980, tendo como mentores grandes ícones do campo museal brasileiro, como Pietro Maria Bardi e Waldisa Rússio Guarnieri. Posteriormente, fui aceita para cursar o doutorado direto na FFLCH/USP, tendo como orientador o grande historiador e pensador brasileiro Nicolau Sevcenko. Concluí meu doutorado em Museologia, em 2009, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa, em Portugal.

Minha trajetória profissional sempre foi ligada ao campo da cultura. Iniciei minha experiência profissional na então Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, que foi sem dúvida uma grande escola, e selou definitivamente meu interesse e engajamento com a causa e as políticas públicas da cultura. Muito jovem, tive o privilégio de trabalhar com dois secretários que marcaram profundamente meu olhar crítico sobre o campo artístico e o meu desenvolvimento profissional: José Mindlin e Max Feffer. Com menos de 30 anos, tendo concluído a especialização em Museologia, já coordenava um amplo programa de Dinamização dos Museus do Estado de São Paulo, englobando os da capital e do interior. Neste período, em conjunto com Sonia Guarita, desenvolvemos o Sistema de Museus do Estado de São Paulo (1995), que inspirou a seguir o Sistema Nacional de Museus, junto ao então Ministério da Cultura, e se tornou elo fundamental das políticas públicas do setor museal, até hoje.

Em 1981, ainda em conjunto com Sonia Guarita, vislumbramos que seria possível criar uma empresa brasileira para o desenvolvimento de projetos museológicos. Assim nasceu a Expomus, que se tornou o meu grande palco de experiências e vivências profissionais, no Brasil e no exterior, nestas quatro décadas.

Para quem ingressa na área de museus, sugiro inicialmente uma imersão completa no campo. A Museologia é uma atmosfera de conhecimento tão múltipla e ao mesmo tempo tão singular que é preciso conhecer e dominar minimamente o espectro geral, para depois se definir por uma ou mais especialidades. Outro ponto relevante é que, contrariando o senso comum, o campo não se restringe apenas ao universo da arte. Portanto, se faz imperativo olhar também para as demais esferas do conhecimento, buscando sinapses de sentido transdisciplinares. As descobertas serão certamente incríveis e, via de regra, levam a escolhas por vezes afastadas ou complementares às tendências e opções pessoais de origem.

"Paris – Impressionismo e modernidade" (2012–2013). CCBB SP e RJ. Foto: Divulgação Expomus.

YA : Qual sua avaliação sobre o atual cenário de políticas públicas para o setor da cultura e da museologia no Brasil?

MIMF : O cenário de políticas públicas para o setor da cultura no Brasil aparenta estar momentaneamente turvo. As políticas não estão claras e deixaram de ser aplicadas de forma sistemática e ampla. Nas últimas décadas, registramos avanços significativos em diferentes direções, em escala crescente, e sentíamos um real vigor do campo cultural. Observava-se um crescimento da qualificação profissional em distintos setores. Destacavam-se as melhorias quanto à governança e estratégias de planejamento, gestão e sustentabilidade das instituições culturais. Mais do que tudo, fortaleciam-se os diálogos crescentes entre a cultura, a educação, a ciência, a tecnologia e a inovação, o que nos permitia vislumbrar uma teia sólida de articulação entre saberes, que certamente redundaria em um futuro bastante promissor para a cultura brasileira. A cultura era moeda de elevada representação brasileira no exterior, sendo respeitada por diferentes instituições e organizações internacionais, tendo o Itamaraty e suas representações como eixo de articulação dos projetos bilaterais. 

No Brasil, pesquisas amplas e sistemáticas sobre o valor e o papel da cultura e seus segmentos passaram a ser realizadas a partir de convênios e parcerias institucionais; revelaram indicadores socioeconômicos promissores do setor cultural em relação à economia brasileira. Os resultados positivos das políticas públicas de cultura passaram a ser dimensionados como lastro de oportunidades de transformação e inclusão social, mitigando séculos de desigualdades e vulnerabilidades sociais, preconceitos raciais e desequilíbrio de oportunidades.

Exposição "Cerrado – Uma janela para o planeta" (2014). CCBB Brasília. Foto: Divulgação Expomus.

A partir de 2020, com o advento do cenário pandêmico em escala global, a cultura brasileira sofreu acentuada reversão simbólica e econômica. Espera-se que, em futuro próximo, possamos ter indicadores adicionais sobre o impacto da pandemia no setor cultural. Será vital avaliar o impacto, a assimilação pública e a efetividade das transposições de conteúdos e linguagens artísticas para o mundo digital. Da mesma forma, será importante dimensionar a amplitude do benefício trazido pelo auxílio emergencial aos trabalhadores da cultura, assim como os resultados concretos da aplicação da Lei Aldir Blanc por regiões, estados e municípios brasileiros, setores da cultura, natureza de projetos e performance de artistas e demais produtores de cultura.

Com relação à Museologia, eu diria que este conjunto de inflexões observadas com relação ao cenário das políticas públicas da cultura igualmente se aplicam ao campo museal, porém com algumas especificidades. No âmbito federal, precisamos estar atentos ao investimento financeiro e de recursos humanos nos museus nacionais. Nos estados e municípios, também merecem atenção os aportes a contratos gerenciados por Organizações Sociais de Cultura. E de forma geral, observar como as instituições museais vão enfrentar as restrições da pandemia e a necessidade de adoção de protocolos sanitários. Em especial, como os museus responderão à necessidade de interação com seus públicos, por meio de diálogos inovadores com parceiros, patrocinadores e stakeholders, capazes de manter os elos de cooperação, mesmo em tempos de distanciamento social.

"Mayas – Revelação de um tempo sem fim" (2014). Oca, São Paulo. Foto: Divulgação Expomus.

YA : Precisamos de mais museus no país? Ou novos modelos de gestão? Que exemplos nacionais e internacionais você acha interessante fomentarmos por aqui?

MIMF : Creio que não se pode falar de necessidade de mais ou menos museus no Brasil, uma vez que a distribuição territorial das instituições reflete as desigualdades econômicas entre as diferentes regiões brasileiras. Eu prefiro considerar lacunas, ou seja, de que natureza de museus o país é carente? Para exemplificar, poderia dizer que o Brasil tem maior carência de museus de ciência do que de museus de arte. Por outro lado, embora não seja óbvio para alguns de nós, o país tem mais museus históricos do que de outras tipologias.

No que tange a modelos de gestão, o Brasil tem inovado nas duas últimas décadas e também tem capacitado suas equipes neste quesito; os museus brasileiros têm apresentado exemplos instigantes de gestão de fontes alternativas e complementares de financiamento, e demonstram preocupação e um crescente interesse em garantir sua sustentabilidade futura. O campo museal brasileiro é bastante articulado nacional e internacionalmente, dialoga constantemente com modelos inovadores e também contribui com experiências bastante criativas que são igualmente apreciadas no âmbito, por exemplo, do Conselho Internacional de Museus (ICOM). 

Exposição de longa duração (2014). Museu da Imigração. Foto: Divulgação Expomus.

Se fosse dar um exemplo de modelo a ser fomentado no Brasil elegeria um pequeno museu em Nova Olinda, no Sertão do Ceará: a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem do Kariri, criada por Alemberg Quindins. É um museu, centro de memória, que é gerido por crianças da região, com a missão de resgatar a cultura local nas áreas de arqueologia, mitologia, artes e comunicação. Os alunos mantêm uma rádio, um canal de TV, uma editora de gibis e acervo audiovisual, entre outros ativos patrimoniais. O museu é um campo de experiência de gestão e liderança para as crianças que nele atuam. Numa apresentação do líder do projeto Alemberg Quindins, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, vi um dos planejamentos estratégicos mais inovadores que conheci na área de museus. Isto evidencia que a inovação em instituições pode estar nos grandes museus internacionais ou em autênticos modelos de pequenos museus, situados em regiões brasileiras distantes, sejam eles indígenas, quilombolas, ou oriundos de comunidades periféricas das grandes cidades.

Voltando para o que seria interessante fomentar no Brasil, creio que a nova legislação de Endowments é uma centelha de futuro bastante promissor para os museus brasileiros. Aprovada em janeiro de 2019, a Lei 13.800/ 2019, que regulamenta a criação e operação dos fundos patrimoniais no Brasil, tem potencialidade para se tornar um caminho seguro de adesão à causa dos museus e a seus principais propósitos institucionais e um elo eficaz para a sustentabilidade futura e alcance da perenidade da organização.

Será preciso que os museus brasileiros estimulem a compreensão desta nova legislação por parte da sociedade brasileira, detectem indivíduos, famílias e organizações com perfil filantrópico, e assegurem os aspectos jurídicos e de governança que garantam solidez à operação presente e futura dos fundos patrimoniais. Dentre os desafios que se apresentarão para a implementação de fundos patrimoniais coletivos, setoriais ou individuais de museus, destaca-se o desenvolvimento de um planejamento estratégico de longo prazo que possa trazer adesão, confiança, transparência e solidez à causa. A sociedade brasileira precisa ser convencida de que museu é uma instituição de futuro.

Exposição de longa duração (2015). Museu de Zoologia da USP. Foto: Divulgação Expomus.

YA : A Expomus é uma empresa que investe na profissionalização do setor cultural, por exemplo, promovendo cursos de gestão em parceria com outras instituições. Como você avalia a profissionalização em gestão cultural e museologia no Brasil? Quais desafios ainda temos pela frente na formação de recursos humanos para o setor?

MIMF : A Expomus é uma empresa que sempre se dedicou à formação profissional, envolvendo uma rede de profissionais que vêm contracenando conosco ao longo de quatro décadas. Este é um grande ativo da empresa, um hub de colaboradores, consultores e parceiros que atuam no Brasil e no exterior. Sempre recebemos da área museológica estímulos para que criássemos um maior número de oportunidades de compartilhamento das expertises que acumulamos em nosso fazer profissional, para além dos seminários, workshops e outras formas de transbordamento de experiências que sempre estiveram presentes em nossos projetos.

Observando o campo museológico, vemos que, na última década, as oportunidades de formação técnica e de graduação se multiplicaram pelos diversos estados e universidades brasileiras, o que foi um ganho bastante sensível para nossa área. No entanto, como a Museologia é uma ciência transdisciplinar, faz-se necessário um investimento maior nas áreas de especialização, MBAs, mestrado e doutorado, para estimular a ampliação do conhecimento profissional em especialidades eleitas. As universidades brasileiras têm se empenhado em expandir e atender as demandas de pós-graduação, muitas vezes encontrando dificuldades para tal.

Ao analisar este amplo cenário, a Expomus avaliou que, para atender a demanda latente que vinha recebendo há um bom tempo, o mais adequado seria entrar de forma mais enfática na forma de um MBA. Foi neste momento que recebemos o convite da Associação Brasileira de Gestão Cultural para realizar o MBA em Gestão de Museus em São Paulo, curso que já se encontrava em sua quinta edição no Rio de Janeiro. A simbiose foi inevitável e imediata, e estamos agora seguindo para a segunda edição paulista e para a ampliação para outros estados brasileiros. 

"O triunfo da cor – O pós-impressionismo" (2016), CCBB SP e RJ. Foto: Divulgação Expomus.

YA : A pandemia foi um momento de grande impacto para produtores e gestores culturais dos mais diversos âmbitos. Quais aprendizados esse período trouxe para a Expomus?

MIMF : A pandemia está sendo um grande aprendizado também para a Expomus, assim como o tem sido para toda a cadeia da cultura. Alguns aprendizados são realmente relevantes, e destaco entre eles:

A descoberta de que é possível ter relações de trabalho híbridas entre o presencial e o virtual. Descobrimos que grande parte dos assuntos poderão ser resolvidos à distância, em reuniões virtuais, o que representará uma economia sensível de gastos com viagens. Pretendemos manter presencialmente as reuniões com clientes, quando necessárias, e as de cunho criativo com parceiros e colaboradores, por parecer mais produtivas. Vivenciamos formas remotas de capacitação durante as aulas on-line do MBA de Gestão em Museus e vislumbramos intensificar os projetos de formação, em diferentes formatos, incluindo professores internacionais da ampla rede que mantemos no exterior.

Constatamos, mais uma vez, a força de nossa rede de colaboradores, parceiros e clientes, pois finalizamos à distância dois grandes projetos de museus, um no Rio de Janeiro e outro em Florianópolis, com pouquíssimos deslocamentos a estas capitais. E aproveitamos o período para intensificar o programa de memória da Expomus, que já se encontrava em curso.

O maior desafio que observamos no período foi a não viabilização das grandes exposições internacionais. Não sofremos cancelamentos por parte dos parceiros estrangeiros, mas o mercado cultural brasileiro está restritivo a investimentos de maior monta. Por outro lado, as incertezas da pandemia não permitem ainda o estabelecimento de planejamento seguro de deslocamento de coleções/acervos, internacionalmente.

Requalificação Museológica (2020). Sítio Roberto Burle Marx, Rio de Janeiro. Foto: Divulgação Expomus.

YA : Em 2021, a Expomus celebra 40 anos de existência. Você poderia nos contar algum dos planos para o futuro? Exposições, entre outros projetos que podemos esperar para os próximos anos?

MIMF : Desde 1981, a Expomus atua em projetos de natureza museológica no âmbito social, cultural, científico, tecnológico e do meio ambiente. O nosso trabalho tem como missão a ampliação do conhecimento, por meio de múltiplas leituras dos vestígios materiais e imateriais da sociedade, em suas diversas dinâmicas colaborativas. Nossas ações sempre privilegiam o diálogo com o outro, o despertar de novos talentos para a cultura, a capacitação continuada de nossos pares e a formação de novos públicos para os museus brasileiros. Acreditamos nas ações colaborativas e inclusivas, operamos em direção à qualidade das relações e das realizações, e fomentamos a descoberta de novas formas sustentáveis de gestão cultural.

Celebraremos os nossos quarenta anos com um programa de comunicação mais ativo pelas redes sociais, desenvolvido sob coordenação de Renata Beltrão, com a participação ativa de nossas equipes. Basicamente iremos relembrar os nossos projetos mais emblemáticos, nacionais e internacionais, celebrar e agradecer nossa equipe, nossos parceiros e colaboradores que conosco construíram e fazem parte desta história, e sobretudo, nos dedicar a repensar o nosso futuro.

Maria Ignez Mantovani Franco. Foto: Markus Garscha.

WhatsApp Image 2020-03-19 at 13.54.38

Yasmin Abdalla holds a degree in Journalism and Social Sciences from the University of São Paulo (USP), with a specialization in Cultural Management (SESC-SP). She has worked for several journalistic media outlets and, since 2016, focuses on communication and production of cultural projects. Currently, she coordinates the areas of communication and content at SP-Arte.

SP–Arte Profile

Create your SP–Arte profile to receive our newsletters, create your own collections and have an enhanced experience of our website