Percival Lafer por Pedro Ávila — e vice-versa

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Percival Lafer & Pedro Ávila

10 jun 2025

Acima: Retrato de Pedro Ávila (Aalvo Gallery) e Percival Lafer (ETEL Design), 2025. © Gianfranco Vacani

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Na estreia da seção “Designer por designer”, Percival Lafer, ícone do design modernista, e Pedro Ávila, nome em ascensão do design contemporâneo, entrevistam um ao outro. “Designer por designer” é um desdobramento da série “Artista por artista” realizada entre Lucia Laguna e Laís Amaral e Diambe e Lidia Lisbôa.


Pedro Ávila fez sua estreia na SP-Arte neste ano, apresentando um projeto solo pela Aalvo Gallery. A exposição destacou peças inéditas que marcam um novo desenvolvimento em seu trabalho, como esculturas, e uma retrospectiva de criações dos últimos quatro anos, incluindo o banco “Itamar”, inspirado nas linhas do Palácio Itamaraty, de Oscar Niemeyer, sede do Ministério das Relações Exteriores em Brasília, além de mesas laterais esculpidas em pedra e luminárias.


Em 2023, Ávila realizou uma reedição da poltrona “Pony”, criada por Percival Lafer em 1984. Primeira colaboração entre eles, o projeto estabeleceu um diálogo entre diferentes gerações do design brasileiro.

Percival Lafer, poltrona “Pony”, 1987. © "Percival Lafer: design, indústria e mercado", 2018

Percival Lafer, poltrona “Pony”, 1987. © "Percival Lafer: design, indústria e mercado", 2018

Pedro Ávila, reedição da  poltrona “Pony”, de Percival Lafer, 2023. © Cortesia Aalvo Gallery

Pedro Ávila, reedição da poltrona “Pony”, de Percival Lafer, 2023. © Cortesia Aalvo Gallery

Eu sempre fui obcecado em criar detalhes construtivos inusitados. E evitar o lugar comum, copiar

— Percival Lafer

Na entrevista, Lafer respondeu às perguntas de Ávila sobre as principais características de sua obra, suas aspirações e um conselho que gostaria de ter recebido quando jovem. Enquanto isso, Ávila falou a Lafer sobre referências, carreira, o peso de gerações passadas e planos para o futuro.


Percival Lafer, designer e arquiteto brasileiro que faz parte da coleção ETEL, é conhecido por seu trabalho inovador no design de móveis desde a década de 1960. Com uma abordagem que alia conforto, funcionalidade e estética moderna, destacou-se pelo uso criativo de materiais como madeira, couro e estruturas metálicas. Suas peças, especialmente poltronas e sofás, tornaram-se ícones do design brasileiro e são valorizadas internacionalmente tanto pelo estilo marcante quanto pela qualidade artesanal.


Pedro Ávila, representado pela Aalvo Gallery, designer brasileiro nascido em Brasília e radicado em São Paulo, tem uma obra que transita entre o design e a arte contemporânea. Formado em design industrial, iniciou sua trajetória no mercado de mobiliário em 2015, e, a partir de 2021, passou a desenvolver trabalhos autorais voltados para o mercado de colecionáveis, que exploram técnicas como entalhe em madeira, modelagem 3D, fundição de metais, usinagem em pedra e moldes de fibras.

Retrato de Percival Lafer, 2025. © Gianfranco Vacani

Retrato de Percival Lafer, 2025. © Gianfranco Vacani

Retrato de Pedro Ávila, 2025. © Gianfranco Vacani

Retrato de Pedro Ávila, 2025. © Gianfranco Vacani

Pedro Ávila para Percival Lafer


PA - Quais são as características do seu trabalho que o tornam imediatamente reconhecível (aquelas que fazem com que, ao bater o olho, as pessoas identifiquem sua assinatura e estilo)?


PL - Eu sempre fui obcecado em criar detalhes construtivos inusitados. E evitar o lugar-comum, copiar. Creio que essa característica acabou influenciando fortemente o resultado final do produto.

Percival Lafer, poltrona "PL115". © Ruy Teixeira/Cortesia ETEL, Almeida & Dale e Casa Zalszupin

Percival Lafer, poltrona "PL115". © Ruy Teixeira/Cortesia ETEL, Almeida & Dale e Casa Zalszupin

Percival Lafer, poltrona "PL51". © Ramanaik Bueno/Cortesia ETEL

Percival Lafer, poltrona "PL51". © Ramanaik Bueno/Cortesia ETEL

PA - Depois de tudo o que você construiu, quais são as suas aspirações hoje?


PL - ⁠⁠Minha aspiração continua a mesma de sempre: criar produtos industrializáveis.



PA - Que conselho você gostaria de ter recebido quando tinha a minha idade?


PL - ⁠ Identifique sua vocação e foque nela como objetivo prioritário.

Percival Lafer, poltrona "PL87". © Ruy Teixeira/Cortesia ETEL, Almeida & Dale e Casa Zalszupin

Percival Lafer, poltrona "PL87". © Ruy Teixeira/Cortesia ETEL, Almeida & Dale e Casa Zalszupin

Percival Lafer, poltrona "PL01". © Ramanaik Bueno/Cortesia ETEL.

Percival Lafer, poltrona "PL01". © Ramanaik Bueno/Cortesia ETEL.

Percival Lafer para Pedro Ávila


PL - Quais são as fontes de informação que mais contribuíram para estimular o seu interesse pela área do design?


PA - Meu interesse pelo design foi sendo moldado por estímulos muito diversos ao longo dos anos. Na faculdade eu tive um primeiro contato mais sistematizado com a tradição do design brasileiro, o que me marcou muito. Depois, tive acesso ao artesanato e a inventividade dos criadores informais, e acessei uma inteligência prática e simbólica muito brasileira. Mas reconheço que na minha geração, a internet teve um papel determinante, e que foi o principal motor para me incentivar a produzir.


A minha formação de vida não teve um entorno familiar ligado ao universo criativo também, nem vivências marcadas por viagens internacionais. Meu primeiro estímulo estético veio, na verdade, da convivência com a arquitetura modernista de Brasília; o cenário da minha infância, frequentando os edifícios públicos com meus pais, que são ambos funcionários públicos. Mas foi na internet que encontrei acesso a referências, obras e soluções que me ajudaram a expandir o olhar e construir repertório.


E minha vida acadêmica teve seu papel, claro, mas foi a autonomia de pesquisa que a internet proporcionou, que me permitiu um acesso cultural maior. Ao mesmo tempo, sei que existe o risco de repetição: a facilidade de acesso também pode gerar homogeneização. Então procuro fontes de referências além do design, como as artes plásticas. Grande parte do que produzo hoje é atravessado por influências da escultura e das assemblages do pós-modernismo.

Pedro Ávila, banco "Itamar", 2023. © Cortesia Aalvo Gallery

Pedro Ávila, banco "Itamar", 2023. © Cortesia Aalvo Gallery

Pedro Ávila, mesa lateral "Caravo", 2023. © Cortesia Aalvo Gallery

Pedro Ávila, mesa lateral "Caravo", 2023. © Cortesia Aalvo Gallery

Meu primeiro estímulo estético veio da convivência com a arquitetura modernista de Brasília

— Pedro Ávila

PL - A amplitude do mercado oferece hoje, mais do que nunca, uma gama enorme de áreas onde o trabalho dos designers é fundamental. Você foca uma área específica, ou se considera aberto a oportunidades?


PA - Hoje meu foco é voltado para o design colecionável, que me oferece uma maior liberdade criativa e que me permite pensar objetos como manifestações artísticas. Mas continuo aberto a outras frentes. Já trabalhei com produção industrial também e vejo valor nesses diálogos.


Existem limitações evidentes ligadas à escala e à produção artesanal, mas tento transformar isso em potência e explorar justamente aquilo que a indústria não conseguiria replicar, seja por processos, materiais ou pela subjetividade envolvida. O espaço entre o artístico e o utilitário me interessa cada vez mais.

Pedro Ávila, arandela "Vela", 2025, lançada na SP-Arte 2025. © Cortesia Aalvo Gallery

Pedro Ávila, arandela "Vela", 2025, lançada na SP-Arte 2025. © Cortesia Aalvo Gallery

Pedro Ávila, cadeira "Codorna", 2025, lançada na SP-Arte 2025. © Cortesia Aalvo Gallery

Pedro Ávila, cadeira "Codorna", 2025, lançada na SP-Arte 2025. © Cortesia Aalvo Gallery

PL - Qual o peso que o design de gerações passadas tem sobre seu trabalho?


PA - O design brasileiro das últimas décadas tem traçado um caminho de enorme relevância e visibilidade internacional, por sua inventividade, inteligência formal e força poética. É impossível para mim criar sem levar esse legado em consideração. Acho que o que mais me instigou no modernismo, por exemplo, foi o caráter futurista de pensar os móveis vislumbrando a ideia de futuro. Ao mesmo tempo, meu desejo não é o de reproduzir fórmulas consagradas, mas sim de participar da continuidade dessa história à minha maneira, com respeito, e também com liberdade. Tento olhar para esse passado como um solo fértil, e não como uma moldura. Há uma herança poderosa, mas o desafio está em cultivar algo novo a partir dela.

Retrato de Pedro Ávila (Aalvo Gallery) e Percival Lafer (ETEL Design), 2025. © Gianfranco Vacani

Retrato de Pedro Ávila (Aalvo Gallery) e Percival Lafer (ETEL Design), 2025. © Gianfranco Vacani