Lidia Lisbôa por Diambe

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Diambe

07 mai 2025

Acima: Lidia Lisbôa, Sem título (da série Tetas que deram de mamar ao mundo), s.d. Foto: Ana Pigosso / cortesia Almeida & Dale

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Lidia Lisbôa é uma pessoa em quem eu me espelho. Lembro de um dia que estávamos tomando café e ela me disse que seu marido, Henrique, num dia como aquele, estava comendo uma maçã e, para isso, ele tinha arrancado o umbigo da fruta, o que fez ela verter lágrimas com aquele corte umbilical. Eu pensei: “hoje encontrei alguém que saiu do mesmo setor do hospício que eu”.


Temos verdadeira paixão pelo que fazemos e usamos linguagens diversas para expressar a própria vida. Nós trabalhamos com emoção. Sua obra é cheia de tetas, cupinzeiros, cordões umbilicais que se materializam em esculturas, costuras, performances, pinturas e fotografias. Essa entrevista, repleta de histórias pessoais, tenta revelar ao público a artista que existe por trás do fazer da sua obra.

Lidia Lisbôa, Sem título (da série Cupinzeiros), 2022. Foto: Bruno Leão / cortesia Almeida & Dale

Lidia Lisbôa, Sem título (da série Cupinzeiros), 2022. Foto: Bruno Leão / cortesia Almeida & Dale

Lidia Lisbôa, Sem título (da série Cupinzeiros), 2022. Foto: Bruno Leão / cortesia Almeida & Dale

Lidia Lisbôa, Sem título (da série Cupinzeiros), 2022. Foto: Bruno Leão / cortesia Almeida & Dale

Em alguns trabalhos eu fico horas dedicada, e só quando estou prestes a chegar na loucura eu paro. É como se fosse uma droga, mas uma droga boa. Eu amo trabalhar. Não sei que diabo de vício é esse

– Lidia Lisbôa

Diambe - Quando você se percebeu artista? Conte um pouco sobre o primeiro trabalho de arte que você reconhece enquanto obra.


Lidia Lisbôa - Eu me reconheci artista quando tinha seis anos de idade e fiz a cama de campanha do meu tio Paizinho. Era uma cama forrada com folha de feijão guandu, que, aliás, é uma delícia. Coloquei uma florzinha amarela no meio e o meu tio Paizinho disse pra minha mãe que “cuidasse dessa menina, que não fazia parte desse mundo, que era diferente”. E o tio Paizinho me contou essa história mais de trinta anos depois. Ele disse: “agora eu sei quem era aquela menina, aquela menina era uma artista”.

Lidia Lisbôa, Sem título (da série Frutas), 2009. Foto: Filipe Berndt / cortesia Almeida & Dale

Lidia Lisbôa, Sem título (da série Frutas), 2009. Foto: Filipe Berndt / cortesia Almeida & Dale

D - Eu vi a cama do tio Paizinho no Sesc Vila Mariana, na exposição sobre Lélia Gonzalez e as festas populares, com curadoria da Raquel Barreto. O título da obra me intrigou: “Cama de campanha do meu tio Paizinho”. Quem é essa figura que é tio e é pai ao mesmo tempo?


LL - Pois é, rola um babado, mas o que é importante para o trabalho é a cama de campanha que fiz de presente para ele na época. Ali ele percebeu quem eu era. Olha só, que curioso: meu tio nunca tinha visto uma pintura na vida e ele falou para minha mãe que eu era esquisita e eu sempre me lembro disso. O tio Paizinho já virou estrela, mas é o tio que eu mais amo, de quem eu mais tenho boas lembranças.


D - Como essas histórias pessoais entram no seu trabalho? Ou elas não entram?


LL - Entra a lembrança que eu tenho delas. Minha tia Bila fazia um tricô e, nossa, costurava colchas enormes, sabe? Eu olhava aquilo, via todo mundo fazer crochê e queria aprender, mas ninguém me ensinava, eu tinha seis anos. Eu ficava olhando, depois ia tentar fazer eu mesma, nunca desistia, até que aprendi. Antes de ir pra escola, já sabia fazer crochê e tricô. Eu elaboro essas memórias o tempo todo.


Outra, eu tinha muitos botões guardados e pensei: “não vou jogar esses botões fora”. Eu sou apegada. Peguei o arame e comecei a juntar os botões. De repente, eu fiz um volume enorme. Então me veio à memória o umbigo da minha irmã, da Bete, que eu cuidei, o umbigo do meu irmão Márcio, que eu cuidei, o umbigo da minha filha, que eu cuidei. E pensei: “meu Deus, olha só, isso aqui é o cordão umbilical". E assim vieram os meus "Cordões umbilicais". Assim como nasceram as "Tetas que deram de mamar ao mundo" porque eu via as mulheres dando de mamar e, ainda criança, eu observava muito. Até hoje observo.

Lidia Lisbôa, Sem título (da série Casulos), 2021-2023. Foto: Filipe Berndt / cortesia Almeida & Dale

Lidia Lisbôa, Sem título (da série Casulos), 2021-2023. Foto: Filipe Berndt / cortesia Almeida & Dale

D - Os “Cordões umbilicais”, as “Tetas” e os “Cupinzeiros” são três conjuntos de trabalhos seus. O que esses trabalhos têm de parecido e o que têm de diferente?


LL - Tudo parte da mesma obsessão. É o mesmo gesto transformado, de acordo com o material que aparece na minha frente. Por exemplo, um dia apareceu um tecido para mim e eu pensei: “gente, eu tenho que bordar esse tecido” e comecei a bordar. É sempre uma ida e uma volta. É como se eu tivesse um guarda-roupa, ou uma caixa de Pandora. Porque a minha vida é assim. Eu tenho várias referências. São muitas vertentes.


D - Vertentes do quê?


LL - De pessoas, de histórias, de inspiração. Uma vez, por exemplo, eu estava em um bar conversando e, de repente, fiquei em silêncio, e um cara começou a contar a história da vida dele para mim. Pensei: “por que ele está contando essa história para mim?”. Fiquei olhando para a cara dele e falei: “moço, pode falar que eu vou ouvir”. Fui ouvindo, ouvindo, ouvindo, e uma hora eu pensei: “bom, ele precisa parar, como é que eu faço?” Só dei uma concentrada e ele parou. Acabou. O corpo diz tudo e um olhar bem dado desmonta uma pessoa todinha.


D - Esse seu olhar também vem da sua formação de atriz?


LL - O fato de eu ter me formado no teatro me faz usar isso. Certa vez, estava indo para o teatro, não tinha dinheiro nem para pegar ônibus e estava com fome. Peguei a [avenida Professor] Alfonso Bovero e, de repente, encalacrou o trânsito, e buzina, buzina, buzina. Uma mulher meteu a mão na buzina e eu falei: “aconteceu um acidente lá na frente!” e a mulher me respondeu: “vai tomar no seu c*!”. Eu respondi: “eu já estou tomando no c*!” e segui meu fluxo.


Fui segurando a risada, subi a escada da escola, e, quando eu entrei na sala de expressão corporal, eu ria, mas eu ria! Todo mundo ria também e perguntava: “o que foi? Conta que nós queremos saber!” E eu dizia: “não consigo”. Então parei e comecei a contar a história, e todo mundo começou a rir, e a professora Luzia disse: “gente, vocês estão vendo o que é expressão corporal? É isso!” Então veio o tomar no c*, e o tomar no c* voltou.

Lidia Lisbôa, Sem título (da série Cordão umbilical), 2024. Foto: Filipe Berndt / cortesia Almeida & Dale

Lidia Lisbôa, Sem título (da série Cordão umbilical), 2024. Foto: Filipe Berndt / cortesia Almeida & Dale

D - Você vive isso no seu ateliê também? Pergunto isso porque eu vivo. Estou falando dessas emoções guardadas que, às vezes, vazam. Outro dia saí do ateliê para almoçar em um restaurante e no ato de pegar um brócolis para pôr no prato desatei a chorar. Ou então estou ali trabalhando e começo a cantar, rir, dançar, assobiar sem notar. Pra mim são parte do fazer, por mais racional que seja a obra.


LL - Hoje em dia no meu ateliê, eu gosto de ficar em silêncio, às vezes gosto de ver séries de televisão, sou viciada em novela turca. Agora não tem mais novela turca para eu ver, mas conheci uma novela coreana que é tudo de bom. Às vezes, estou trabalhando e acontece uma tragédia, então eu paro. Paro porque é a hora de descansar. É um motorzinho movido a gasolina. Em alguns trabalhos eu fico horas dedicada, e só quando estou prestes a chegar na loucura eu paro. É como se fosse uma droga, mas uma droga boa. Eu amo trabalhar. Eu não sei que diabo de vício é esse.


D - Você tem medo de morrer?


LL - Sim! Tenho medo de morrer e não terminar tudo que eu tenho que fazer. Penso: “eu não quero morrer nem morta, quem dirá viva”. Odeio essa ideia e não sei por que Deus fez isso.


D - Você viaja muito a trabalho, mas você também gosta pessoalmente de viajar? Como essas viagens alimentam sua produção?


LL - Detesto ter que viajar. Henrique, meu parceiro, sempre tem que me convencer. Ele não desiste. Lembro quando a gente começou a viver junto e estávamos numa praia, ele falou: “eu gostaria muito de viajar com você”. Pensei comigo: “Pronto…lá vem”. O que aconteceu? A gente começou a viajar. Nas viagens a gente come, conversa, faço performances, ele me registra, eu entro nos “Casulos”, faço os meus arranjos.

Lidia Lisbôa, Sem título (da série Tetas que deram de mamar ao mundo), 2024. Foto: Julia Thompson / cortesia Almeida & Dale

Lidia Lisbôa, Sem título (da série Tetas que deram de mamar ao mundo), 2024. Foto: Julia Thompson / cortesia Almeida & Dale

D - Como você classifica o seu trabalho?


LL - Eu sou artista de tudo. É abstrato, figurativo, contemporâneo, surreal, porque tem foto, tem performance, pintura, bordado, escultura, tramas. Eu sou virada no Jiraya.


D - Diz algo sobre os projetos de 2025.


LL - Eu vou trabalhar bastante.


D - Saberá?


LL - Saberá.

Olha só, que curioso, meu tio nunca tinha visto uma pintura na vida e ele falou para minha mãe que eu era esquisita e eu sempre me lembro disso

– Lidia Lisbôa

Diambe, Colméia, 2024. Foto: cortesia Simões de Assis

Diambe, Colméia, 2024. Foto: cortesia Simões de Assis

Diambe (Rio de Janeiro, Brasil, 1993) tem representação com a galeria Simões de Assis e é artista, pessoa negra e não binária que vive em São Paulo. Graduou-se em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a Université Sorbonne Nouvelle e obteve mestrado em Artes da Cena na UFRJ. Seu corpo de trabalho é marcado pelo uso de matérias vivas, sendo recorrente o recurso de tecidos, raízes alimentares amefricanas, gravuras e coreografias que relacionam arquiteturas com movimentos espontâneos em elaborações plurais.


A prática de Lidia Lisbôa (Paraná, Brasil, 1970), representada pela galeria Almeida & Dale, desenvolve-se em suportes distintos, sobretudo a escultura, o crochê, em performances e em desenhos. A artista vive e trabalha em São Paulo. Sua pesquisa tem a tessitura de biografias como eixo fundamental, percorrendo os pólos da paisagem, do corpo e da memória ao utilizar matérias nas quais se imprimem o gesto e a mão da artista. Resultado de uma prática artística constante que se mistura à vida, na obra de Lisbôa, a costura e a criação de narrativas se colocam como exercício de construção subjetiva e, portanto, de cura e ressignificação.