Outras rotas para conhecer a arte brasileira

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Karina Sérgio Gomes

03 jul 2025

Acima: Vista da Ilha do Ferro, em Alagoas, 2023. © Rogério Maranhão

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Quando se pensa em arte brasileira, o olhar quase sempre se volta para São Paulo e Rio de Janeiro. Para quem resolve abandonar a previsível rodovia presidente Dutra (BR-116) e se aventurar por estradas como a BR-153 ou a BR-101, um país inesperado se descortina.


Barcos se transformam em museus flutuantes no Rio São Francisco. Casarões coloniais voltam à vida como residências criativas em Salvador; artistas de todo o país se reúnem para construir um prédio de quatro andares em Florianópolis. Do Norte ao Sul, surgem pólos de projetos coletivos e provocadores.


Para entender esse Brasil, a SP-Arte, que em maio já tinha ido até o Goiás, recalculou suas rotas e conversou com oito agentes culturais de seis estados. Vozes que ajudam a mostrar um panorama da arte fora do eixo Rio-São Paulo.

Vista do Parque Casa do Governador,  em Vila Velha (ES). © Divulgação

Vista do Parque Casa do Governador, em Vila Velha (ES). © Divulgação

Vista da Ilha do Ferro, em Alagoas, 2023. © Rogério Maranhão

Vista da Ilha do Ferro, em Alagoas, 2023. © Rogério Maranhão

Em Belém (PA): verde é a cor mais quente


O colecionador Eduardo Vasconcelos começou a adquirir obras há 14 anos, inicialmente para decorar seu apartamento. “Mas chegou um momento em que não havia mais parede livre”, recorda. Foi quando se deu conta de que havia se tornado, de fato, um colecionador. Hoje ele acumula não só obras, mas também funções no circuito.


Em 2021, apresentou parte de sua coleção apenas com obras de artistas paraenses na mostra “Afetos Múltiplos”, sob curadoria de Vânia Leal. Atualmente é diretor administrativo da Bienal das Amazônias, cuja segunda edição abre em agosto deste ano, com curadoria de Manuela Moscoso. Sob o tema “Verde-Distância”, inspirado no romance “Verde Vagomundo”, de Benedicto Monteiro, a mostra reúne 74 artistas da Pan-Amazônia e do Caribe.

Vista da primeira edição da Bienal das Amazônias, 2023, em Belém (PA). © Ana Dias

Vista da primeira edição da Bienal das Amazônias, 2023, em Belém (PA). © Ana Dias

Retrato de Eduardo Vasconcelos, diretor-administrativo da Bienal das Amazônias. © Divulgação

Retrato de Eduardo Vasconcelos, diretor-administrativo da Bienal das Amazônias. © Divulgação

A primeira edição, em 2023, atraiu muitos visitantes iniciantes no mundo das artes, graças à localização central, próxima ao mercado Ver-o-Peso. “As pessoas passavam, hesitavam: entro ou não? Vencida a dúvida, saíam encantadas”, conta Vasconcelos.


Em paralelo, uma obra de arte navegou pelos rios da Amazônia, por meio da “Bienal das Amazônias sobre as Águas”, projeto vinculado à mostra, assinado pelo artista boliviano Freddy Mamani. Com curadoria de Keyna Eleison, a embarcação promoveu ações educativas com filmes, dança, teatro, gastronomia e rodas de capoeira, em diversas cidades da região onde o transporte atracou.

Vista do barco da Bienal das Amazônias. © Divulgação

Vista do barco da Bienal das Amazônias. © Divulgação

Na Ilha do Ferro (AL): a terceira margem do Rio São Francisco


Os artistas Dalton Costa e Maria Amélia Vieira tinham um sonho ambicioso: colocar Alagoas no mapa das artes brasileiras. “Na época, só se falava de Recife, Fortaleza, Salvador. Ninguém olhava para cá”, lembra Maria Amélia.


O casal, proprietário da Galeria Karandash, dedicada à arte popular, já se interessava pela produção da Ilha do Ferro, povoado ribeirinho no sertão alagoano às margens do São Francisco. Quando começaram a frequentar a região, havia apenas três ou quatro artistas locais. Hoje, em uma comunidade de 500 habitantes, são mais de 200 criadores, número que Maria Amélia vê com orgulho e cautela.

Vista aérea do povoado da Ilha do Ferro, em Alagoas. © Divulgação

Vista aérea do povoado da Ilha do Ferro, em Alagoas. © Divulgação

Retrato de Dalton Costa e Maria Amélia Vieira, da coleção e galeria Karandash. © Divulgação

Retrato de Dalton Costa e Maria Amélia Vieira, da coleção e galeria Karandash. © Divulgação

Em 2008, surgiu a ideia ousada: criar um museu itinerante a bordo de um barco para formar novos artistas na região. Durante anos, a Caravana Karandash levou exposições e oficinas a comunidades entre Alagoas e Sergipe, oferecendo arte onde ela raramente chegava.


Com o crescimento do turismo, o casal convidou cinco chefs para ministrar oficinas gratuitas a 50 moradores, fomentando também a gastronomia local. “No começo, íamos para comprar peças”, conta Maria Amélia. “Mas percebemos que o verdadeiro valor estava nas pessoas.” E é delas — e para elas — que o projeto segue crescendo.

Vista do barco-museu da coleção Karandash. © Divulgação

Vista do barco-museu da coleção Karandash. © Divulgação

Em Salvador (BA): novos espaços e uma cena em expansão


O Brasil nasceu na Bahia. Salvador foi a primeira capital e teve até a primeira rua asfaltada do país, como lembra Carolina de Sá, diretora executiva da Pivô. “Falar do Brasil é falar de Salvador”, resume.


Em 2023, a Pivô desembarcou na cidade, ocupando um casarão histórico que pertenceu ao artista Presciliano Silva, para desenvolver um programa de residências. Já no segundo semestre do ano seguinte, 2024, anunciou a continuidade de suas atividades em parceria com a prefeitura municipal: a ocupação do conjunto de edificações na Ladeira da Misericórdia do fim dos anos de 1980 projetado por Lina Bo Bardi e João Filgueiras Lima (Lelé), em conjunto a Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki. O famoso espaço Coaty já havia sido ativado antes com ocupações temporárias, como em 2016 por Lanussi Pasquali e Joãozito.

Vista da fachada do Pivô em Salvador (BA). © Ricardo Prado

Vista da fachada do Pivô em Salvador (BA). © Ricardo Prado

Retrato de Carolina de Sá, diretora-executiva da Pivô. © Mariana Maltoni

Retrato de Carolina de Sá, diretora-executiva da Pivô. © Mariana Maltoni

“Salvador sempre foi um polo vibrante de produção artística”, afirma o artista Felipe Rezende. Antes da chegada de iniciativas paulistas — como a própria Pivô e as galerias Galatea e Nonada —, a cidade já fervilhava com projetos independentes. Além do mercado aquecido com as galerias Paulo Darzé, precursora da cena artística em Salvador, Alban, Acervo e RV Cultura e Arte.


Tanto Carolina quanto Felipe citam o Acervo da Laje, no Subúrbio Ferroviário; a Pinacoteca do Beiru, de Anderson AC, que aproxima a comunidade das artes visuais; e o Circuito de Arte em Boteco (CAB), criado por Milena Ferreira e Busca, que leva exposições para dentro de bares, rompendo fronteiras tradicionais da arte.


“Essas pessoas criaram possibilidades fora do centro ou do circuito institucional de Salvador, onde se concentram boa parte dos museus”, afirma Felipe. “Essas iniciativas são fundamentais para conspirar outros futuros — e, acima de tudo, outros presentes.”

Felipe Rezende, "O pé de ora-pro-nóbis de Biscoito (Barra Funda)", 2024. © Renato Custodio

Felipe Rezende, "O pé de ora-pro-nóbis de Biscoito (Barra Funda)", 2024. © Renato Custodio

Retrato de Felipe Rezende. © Geovanna Barbosa

Retrato de Felipe Rezende. © Geovanna Barbosa

Iniciativas independentes são fundamentais para conspirar outros futuros — e, acima de tudo, outros presentes


—Artista Felipe Rezende sobre Salvador (BA)

Em Vila Velha (ES): de casa oficial a casa da arte


De residência oficial a parque de esculturas: o antigo espaço político de Vila Velha ganhou nova vida em 2022. Tornou-se o Parque Cultural Casa do Governador, com um jardim onde obras de artistas como Castiel Vitorino Brasileiro, Renato Ren e Geovanni Lima dialogam com o vento do mar. Neste ano, o antigo gabinete do governador deu lugar à Galeria Gabinete, dedicada a obras bidimensionais.


Mesmo com a praia ao lado, o espaço sustenta seu público. “Durante a semana, recebemos cerca de 100 visitantes por dia; nos fins de semana, esse número triplica”, calcula Mirella Schena, diretora artístico-cultural. Para 2025, a meta é ambiciosa: 750 atividades culturais e 120 mil visitantes.

Castiel Vitorino Brasileiro, vista de "Sutilezas do tempo", 2024. A obra integra a coleção do Parque Casa do Governador, em Vila Velha, ES. © Divulgação

Castiel Vitorino Brasileiro, vista de "Sutilezas do tempo", 2024. A obra integra a coleção do Parque Casa do Governador, em Vila Velha, ES. © Divulgação

Vista do Parque Casa do Governador, espaço cultural de Vila Velha. © Divulgação

Vista do Parque Casa do Governador, espaço cultural de Vila Velha. © Divulgação

Do outro lado da Terceira Ponte, Vitória também respira arte. O Museu de Arte do Espírito Santo (MAES) realizou mais de 20 exposições desde 2022 e recebeu mostras itinerantes da Bienal de São Paulo e do Videobrasil. “É um novo ciclo de fomento cultural”, diz Mirella.


Os números confirmam: em 2024, o Espírito Santo captou R$ 52,2 milhões via Lei Rouanet — alta de 15% sobre 2023 e de 667% desde 2017, com 96 projetos aprovados.


Mirella conhece o cenário por dentro e por fora. A capixaba viveu 15 anos em São Paulo antes de voltar. “Ainda precisamos circular; os recursos não estão todos aqui. Mas já não é mais preciso morar fora para produzir e trabalhar com cultura.”

Geovanni Lima, vista de "Círculo Máximo", 2024. A obra integra a coleção do Parque Casa do Governador, em Vila Velha (ES). © Divulgação

Geovanni Lima, vista de "Círculo Máximo", 2024. A obra integra a coleção do Parque Casa do Governador, em Vila Velha (ES). © Divulgação

Retrato de Mirella Schena, diretora artístico-cultural do Parque Casa do Governador, em Vila Velha (ES). © Divulgação

Retrato de Mirella Schena, diretora artístico-cultural do Parque Casa do Governador, em Vila Velha (ES). © Divulgação

Já não é mais preciso morar fora para produzir e trabalhar com cultura


—Diretora artístico-cultural Mirella Schena sobre Vila Velha (ES)

Em Florianópolis (SC): arte, bem-estar e sustentabilidade


Florianópolis sempre teve talento para a arte — e para esquecê-la logo depois. Iniciativas surgem, brilham e desaparecem com a mesma rapidez das marés. Josué Mattos sabe disso. “Quando penso no Veras, temo que o ciclo se repita. Mas o futuro pode ser diferente se aprendermos com o passado”, diz o curador e fundador do Centro Cultural Veras.


A ideia nasceu em 1999, quando Mattos buscou apoio da prefeitura. A resposta? “Cresça e apareça.” Ele cresceu. Duas décadas depois, com apoio de artistas brasileiros, ergueu um prédio de quatro andares, com 1.139 m² dedicados à arte.

Retrato de Josué Mattos, fundador do Centro Cultural Veras em Florianópolis (SC). © Endrigo Righeto

Retrato de Josué Mattos, fundador do Centro Cultural Veras em Florianópolis (SC). © Endrigo Righeto

O Veras exibe obras de artistas locais e também de pesos-pesados, como Regina Silveira, Mônica Nador e Ana Teixeira. Em 2024, apresentou “Rede Fantasma”, primeira individual de Nara Guichon — artista que há três décadas transforma redes de pesca em esculturas e que venceu o mais recente Prêmio PIPA. Até agosto deste ano, abriga ainda a primeira exposição institucional de Gokula Stoffel no Brasil.


Para Mattos, o Veras é mais que um centro de arte: é um manifesto. “A inspiração vem de uma visão milenar da Índia: nenhuma sociedade prospera sem arte, espiritualidade, filosofia e ciência. Aqui, filosofia é sustentabilidade. Não técnica: ética. Sustentar o mundo como um gesto de amizade, de philos, de cuidado com o outro”, conclui.

Vista da exposição "Rede Fantasma", 2024, de Nara Guichon, no Centro Cultural Veras. © Soninha Vill

Vista da exposição "Rede Fantasma", 2024, de Nara Guichon, no Centro Cultural Veras. © Soninha Vill

Em Porto Alegre (RS): a arte ressurge depois das águas


Depois das enchentes de maio de 2024 — que atingiram 478 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul —, Porto Alegre tenta resgatar sua vida cultural. No centro, muitas lojas seguem fechadas, prédios inteiros estão à venda e a paisagem traz uma melancolia visível. “Mas no último fim de semana da Bienal, o centro estava lotado, animadíssimo”, conta a artista Vera Chaves Barcellos, celebrando o retorno das pessoas às ruas.


Entre março e junho de 2025, a cidade recebeu a Bienal do Mercosul. Bruna Fetter, pesquisadora e professora da UFRGS, destaca a importância do evento para o sistema cultural local. “Ver a Bienal ocupar diferentes espaços públicos é uma alegria.” Ela pondera, porém, que o evento não dialogou com a tragédia recente. “Não acho que precisava responder diretamente, mas perdeu uma oportunidade importante de se conectar com o público.”

Vista da 14ª Bienal do Mercosul, 2025, no MARGS, em Porto Alegre (RS). © Thiele Elissa

Vista da 14ª Bienal do Mercosul, 2025, no MARGS, em Porto Alegre (RS). © Thiele Elissa

O circuito cultural foi duramente afetado. “O Museu de Arte do Rio Grande do Sul, nossa principal instituição, ficou alagado por 25 dias. Nos piores momentos, a água chegou a dois metros”, lembra. O Farol Santander e outros espaços, danificados, reabriram para receber a Bienal.


E não é só a grande mostra que movimenta a cena. Os artistas já voltaram a criar e expor em espaços como Remanso, V744 atelier e a Fundação Vera Chaves Barcellos, em Viamão. Na plataforma Nervo Crítico, projeto com alunos da UFRGS que escrevem sobre exposições, o ritmo é intenso: “Tem tanta coisa acontecendo que não damos conta de acompanhar tudo.” A cidade ainda conta com galerias de arte, como a Mamute, que também enriquecem a programação cultural.

Vista da 14ª Bienal do Mercosul, 2025, no MARGS, em Porto Alegre (RS). © Thiele Elissa

Vista da 14ª Bienal do Mercosul, 2025, no MARGS, em Porto Alegre (RS). © Thiele Elissa

Karina Sérgio Gomes atua como jornalista e pesquisadora de artes visuais. Mestre em Artes Visuais e doutoranda em Arte e Educação pelo Instituto de Artes da Unesp, é pesquisadora-bolsista do Instituto de Arte Contemporânea e enciclopedista da Enciclopédia Itaú Cultural. Participou de curadorias no Ateliê 397, no MAM-SP e no CCSP. E já colaborou com Rádio Novelo Apresenta, Folha de S.Paulo, Metrópoles, Estadão, Claudia, Veja SP e Neofeed.