Bienal do Mercosul e a vertigem do pós-humano

Yan Catuaba
16 mai 2025
Acima: Yunchul Kim, “Dust of Suns II", 2022, no Farol Santander. Foto: Thiele Elissa. © Bienal do Mercosul
14ª Bienal do Mercosul tenta flagrar os “estalos” de transformação de uma era de metamorfoses aceleradas
Um ser híbrido está sendo gestado nas entranhas de Porto Alegre. Seus tecidos, órgãos e sistemas, de natureza orgânica e mecatrônica, afloram por meio de estalos na 14ª Bienal do Mercosul, em cartaz até 01 de junho. Sua imagem vai surgindo conforme os visitantes se deslocam pelas obras dos 77 artistas espalhados pelos dezoito núcleos da exposição, que vão da orla do Guaíba a cidades da região metropolitana.
Denominados “estalos”, seguindo o título geral da mostra, os espaços escolhidos pelo time curatorial liderado por Raphael Fonseca e formado por Tiago Sant’Ana, Yina Jiménez Suriel e Fernanda Medeiros acabam por alterar, de certa forma, a cartografia da cidade ao serem cuidadosamente renomeados com frases em tom poético — um primeiro ato de transformação de uma bienal que se propõe a discutir processos de metamorfoses e transmutações.

Darks Miranda, vista da instalação na Fundação Iberê Camargo. Foto: Thiele Elissa. © Bienal do Mercosul
A mostra demonstra como os novos tempos necessitam de referenciais do passado e a eles se fundem, resultando em formações culturais também híbridas
É com a escultura “Dust of Suns II”, de Yunchul Kim (Coréia do Sul, 1970), que a criatura adquire uma espécie de coração. Localizada na entrada do Farol Santander (“uma televisão fora do ar chiando de madrugada na sala”), a obra bombeia um líquido viscoso desenvolvido a partir de pedras minerais. Fiações acopladas a placas de alumínio cumprem o papel das artérias e transportam o fluido vital ao restante do corpo.

Yunchul Kim, “Dust of Suns II", 2022, no Farol Santander. Foto: Thiele Elissa. © Bienal do Mercosul
No mesmo núcleo — cuja renomeação parece aludir à abertura do romance cyberpunk Neuromancer (1984) —, desabrocha o que seria a carne deste ser. No vídeo do coletivo New Red Order (Ojibway e Tlingit/EUA, 2016), seus tecidos muscular e adiposo se expandem e fagocitam esculturas de James Earle Fraser, símbolos da dominação colonial nos EUA, transformando-as em peças de carne que se desintegram e destroem traços de um imaginário imperialista.

New Red Order, still do vídeo “Culture Capture: Crimes Against Reality", 2020, no Farol Santander. Foto: Thiele Elissa. © Bienal do Mercosul
Já o ente de aparência alienígena que protagoniza “echoes of a wet finger”, vídeo de Vitória Cribb (Brasil, 1996), faz emergir uma das faces do organismo fabricado pela bienal. Ambientada em um interior doméstico, a vida cotidiana de uma personagem cercada de indagações existenciais inicia uma metamorfose após o encontro com uma lagartixa mutante. A ficha técnica sinaliza que a obra pode causar desconforto, assim como, em outros espaços, é comum o aviso de que luzes podem desencadear crises em pessoas fotossensíveis.

Vitória Cribb, still do filme “echoes of a wet finger", 2024-2025, no Farol Santander. Foto: Thiele Elissa. © Bienal do Mercosul
A exposição captura o que seria um estalo de transformação de uma certa noção de humanidade para aquilo que filósofos e antropólogos como Donna Haraway e seus seguidores descreveram como “ciborgue” ou “pós-humano”
O apelo ao monstruoso e à estética grotesca, também presente em recentes produções hollywoodianas, parece fornecer um diagnóstico do estado de espírito de nosso tempo, por mais que não seja uma novidade e nem se restrinja a ele. Já a cautela em relação às luzes ressoa um modo de vida pautado em conexões hiper estimulantes, presentes, por exemplo, no uso de aparelhos eletrônicos. E é assim que a exposição captura o que seria um estalo de transformação de uma certa noção de humanidade para aquilo que filósofos e antropólogos como Donna Haraway e seus seguidores descreveram como “ciborgue” ou “pós-humano”.

Kira Xonorika, still do vídeo “Trickster”, 2025, no Espaço Força e Luz (“o dilatar das pupilas"). Foto: Thiele Elissa. © Bienal do Mercosul
A ideia de humano enquanto um ser híbrido, incluindo sua necessidade de fusão a objetos para potencializar capacidades corpóreas, está no centro das esculturas de Berenice Olmedo (México, 1987), também no Farol Santander. Nelas, humanóides feitos de plástico, resina e metal, produzidos com resíduos de peças ortopédicas usadas no Centro de Reabilitação e Inclusão Infantil Teleton (CRIT), sugerem que o corpo não se resume apenas a carne e osso, mas também a instrumentos e objetos fabricados artificialmente.

Berenice Olmedo, vista da instalação no Farol Santander. Foto: Thiele Elissa. © Bienal do Mercosul
A infinidade de coisas e equipamentos que se ligam ao que seria o corpo ciborgue é apresentada por Randolpho Lamonier (Brasil, 1988) em uma sala inteira do MAC RS (“um estalo que parece um asterisco, bem esparramado”). A obra reveste o ambiente com uma luz neon vermelha e peças que vão de brinquedos, pelúcias, cartazes e embalagens de fast foods a televisores que exibem desenhos, telejornais e filmes. Nas paredes, há um texto autobiográfico que associa sua trajetória de vida a acontecimentos da história ocidental. Neste trabalho, Lamonier demonstra como objetos da cultura de massas podem atuar como extensões de nossos corpos, enfatizando como suas diferentes combinações constroem múltiplas identidades e narrativas de si.

Randolpho Lamonier, instalação multimídia no MAC RS. Foto: Thiele Elissa. © Bienal do Mercosul
O intenso afluxo de produtos, serviços e bens em escala industrial global que caracteriza a vida contemporânea é também motivo na obra “Dumping Core”, de Gretchen Bender (EUA, 1951-2004), exibida no MARGS (“o deslizar dos grãos de areia no fundo de uma ampulheta”). Em uma sala escura, treze monitores bombardeiam o público com imagens televisivas saturadas, enquanto uma trilha sonora de música techno, robótica e repetitiva preenche o espaço. Datada dos anos 1980, a obra preconiza este modo de ser ancorado na dependência eletrônica e cibernética. Com essa instalação, a bienal flagra o estalo transformador que teria conduzido o mundo à hiperconectividade que conhecemos hoje, uma era digital de metamorfoses aceleradas.

Gretchen Bender, “Dumping Core", 1984, no MARGS. Foto: Thiele Elissa. © Bienal do Mercosul
Se por vezes a consciência desta passagem para uma nova era é abordada pela mostra de maneira pessimista e melancólica na figura do esqueleto (como nos trabalhos de Özgür Kar, Turquia, 1992, e Li Yong Xiang, China, 1991), a exposição não deixa de considerar a força e a persistência da ancestralidade e da tradição nas questões do agora. Pelo contrário, demonstra como os novos tempos necessitam de referenciais do passado e a eles se fundem, resultando em formações culturais também híbridas.

Özgür Kar, série “Storage Drama”, 2021. © Thiele Elissa/Bienal do Mercosul

Li Yong Xiang detalhe da instalação na Fundação Iberê Camargo. Foto: Thiele Elissa. © Bienal do Mercosul
Nas fotografias de Lorenzo Beust (Brasil, 1997), no MAC RS, por exemplo, elementos da iconografia e da identidade gaúchas, como o cavalo e a vaca, são usados para referenciar processos de transformação do rural para o urbano. Modificadas digitalmente, as imagens percorrem características tradicionais da cultura do laço nos pampas sulistas, porém agora com seres equinos metamorfoseados em corpos fluorescentes e mecânicos.

Lorenzo Beust, série “Mecânica", no MAC RS. Foto: Thiele Elissa. © Bienal do Mercosul
A imprescindibilidade do passado para o estalo que irrompe como presente e futuro é mais uma vez captada na instalação "Carnaval na Bienal", que Froiid (Brasil, 1986) exibe no MARGS. Em diálogo com uma pintura de Heitor dos Prazeres (Brasil, 19889-1966), o artista preenche as paredes com páginas de cadernos de partituras, nas quais intervém com figuras carnavalescas que remetem ao vocabulário visual de dos Prazeres. No centro da sala, o artista insere um monitor que apresenta as variações das batidas, do compasso e do volume de um frevo que parece agitar as personagens dançantes.

Froiid, “Carnavais na Bienal”, 2025, no MARGS. Foto: Thiele Elissa. © Bienal do Mercosul

Heitor dos Prazeres, “Frevo”, 1964, no MARGS. Foto: Thiele Elissa. © Bienal do Mercosul
Por fim, com as telas de Santiago Yahuarcani (Cocama/Uitoto/Peru, 1960), liderança indígena da nação Uitoto, do norte da Amazônia, que ocupa uma das galerias da Fundação Iberê Camargo (“em um estalar de dedos, você acordará de um sono profundo"), a criatura manifesta uma aparência típica de entidades da floresta. Feitas com llanchama, casca de uma árvore amazônica, as pinturas sintetizam crenças e relatos orais transmitidos por antepassados da comunidade do artista. No entanto, no contexto da 14ª Bienal do Mercosul, mostra radical e intensa em suas premissas e elaborações simbólicas a respeito de transformações em curso na condição humana, as figuras de Yahuarcani ganham novos sentidos, condensando a imagem de algo novo: um ser pós-humano em mutação vertiginosa.

Santiago Yahuarcani, obra na Fundação Iberê Camargo. Foto: Thiele Elissa. © Bienal do Mercosul
Yan Catuaba atua na equipe de Comunicação da SP-Arte. É bacharel e licenciado em História pela USP e pesquisador nas áreas de Cultura Material e Cultura Visual.