Heranças e horizontes: memória e reinvenção na cena artística de Salvador

cover image

Thais Darzé

07 ago 2025

Acima: Rubem Valentim, série “Templo de Oxalá”, Galeria Mercado. © Thais Darzé

e-mail icone-mail icon

Nos últimos anos, a cena das artes visuais em Salvador tem atravessado um período de efervescência e retomada cultural, inaugurando um novo capítulo na história da cidade e reafirmando sua vocação como polo de criação, experimentação e circulação artística.


Se, por um lado, a capital baiana sempre foi reverenciada por sua força simbólica — enraizada na ancestralidade negra, no sincretismo religioso e na riqueza das expressões populares —, por outro, tem agora se reposicionado com vigor no circuito nacional e internacional das artes visuais.

Vista de “Sonia Gomes — Barroco, mesmo” no Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC-BA). © Thais Darzé

Vista de “Sonia Gomes — Barroco, mesmo” no Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC-BA). © Thais Darzé

Novos espaços surgem, exposições de relevância se multiplicam e redes de articulação vêm tensionando e transformando o campo artístico, impulsionadas por uma perspectiva negra, periférica e decolonial.


Essa virada cultural é movida por uma confluência de forças: políticas públicas mais assertivas (ainda que fragmentadas e em constante disputa), o protagonismo de uma nova geração de artistas e curadores negros, o fortalecimento de iniciativas autônomas e uma revalorização da arte contemporânea produzida no Nordeste — especialmente na Bahia — em um contexto de crítica ao eixo hegemônico Rio-São Paulo.

A cena das artes visuais em Salvador tem atravessado um período de efervescência e retomada cultural

— Thais Darzé

Vista de “Okòtò: espiral da evolução”, de Goya Lopes, no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA). © Thais Darzé

Vista de “Okòtò: espiral da evolução”, de Goya Lopes, no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA). © Thais Darzé

Exposições e eventos marcantes: um novo tempo curatorial


Diversas exposições realizadas nos últimos anos atestam o vigor da cena artística soteropolitana. “Encruzilhada”, apresentada em 2022 no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), com curadoria de Daniel Rangel e Ayrson Heráclito, lançou um olhar contundente sobre as presenças espirituais e cosmológicas nas artes visuais negras contemporâneas.


Segundo o então diretor do MAM-BA, Pola Ribeiro, essa mostra integrou uma tríade emblemática de exposições realizadas após a reabertura do museu, em agosto de 2021, marcando um discurso unificado de consciência e luta pela arte. A sequência teve início com “O museu de Dona Lina” (2021-2022), seguida por “Encruzilhada” (2022) culminando em “Utopias e distopias” (2022).

Vista de “Dona Fulô e outras joias negras” no Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC-BA). © Thais Darzé

Vista de “Dona Fulô e outras joias negras” no Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC-BA). © Thais Darzé

Outro espaço que ressurgiu com força no circuito foi o Solar Ferrão, edifício histórico cravado no coração do Pelourinho. Em julho de 2023, recebeu a exposição “Brasil futuro: as formas da democracia”, com curadoria de Lilia Schwarcz, Paulo Vieira e Rogério Carvalho.


Em abril de 2024, o espaço foi tomado por “Hãhãw: arte indígena antirracista”, reunindo 26 artistas de diversos povos — Pataxó, Tupinambá, Karapotó, entre outros — sob curadoria de Yacunã Tuxá e Ziel Karapotó. Logo em seguida, entre agosto e setembro de 2024, o Solar recebeu a itinerância da mostra “Favela em fluxo”, organizada pelo Museu das Favelas e com curadoria de Rebecca França, José Eduardo Ferreira, Leonardo Moraes e Aline Bispo.

Acervo da Laje no Subúrbio Ferroviário de Salvador. © Thais Darzé

Acervo da Laje no Subúrbio Ferroviário de Salvador. © Thais Darzé

Outro marco decisivo foi a transformação do Palacete das Artes em Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC-BA), em setembro de 2023. Mais do que uma mudança de nome, a transição implicou uma reformulação conceitual profunda, reposicionando a instituição como espaço dedicado à arte contemporânea e às novas linguagens artísticas. Desde então, o museu vem se afirmando como um dos polos mais vibrantes da cena cultural soteropolitana. Atualmente, a instituição exibe a individual “Sonia Gomes — Barroco, mesmo”, sua primeira exposição institucional na Bahia.


Após três anos de portas fechadas, o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab) também retornou ao circuito, devolvendo à cidade — e ao país — um dos espaços mais emblemáticos dedicados à valorização da história, da memória e da produção cultural negra. A reabertura foi marcada pela mostra “Um defeito de cor”, entre novembro de 2023 e março de 2024, inspirada no romance histórico de Ana Maria Gonçalves.

Vista de “Raízes: começo, meio e começo” no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab). © Thais Darzé

Vista de “Raízes: começo, meio e começo” no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab). © Thais Darzé

Novos equipamentos culturais e espaços independentes

Essa ebulição cultural também se manifesta na abertura de novos espaços culturais e galerias comerciais que desafiam o histórico déficit de infraestrutura voltada às artes visuais em Salvador. A cidade vive um momento de expansão significativa de seus equipamentos culturais, marcado não apenas pela reabertura do Muncab, mas também pela inauguração de iniciativas como a Galeria Mercado, inaugurada em 2024, sob minha curadoria, e a Casa das Histórias de Salvador, ambas localizadas no bairro do Comércio.


Instalada no subsolo do icônico Mercado Modelo, a Galeria Mercado abriga um acervo permanente com obras de artistas fundamentais para a arte brasileira, como Mário Cravo Jr., Vinicius S.A. e Rubem Valentim. O conjunto escultórico de Valentim, exposto no espaço, constitui um gesto simbólico e reparador, ao finalmente reconhecer a relevância do artista soteropolitano que, até então, não tinha obras públicas em sua cidade natal.

Vista de “Almoço na Relva”, de Martin Lanezan, na galeria Bianca Boeckel. © Divulgação/cortesia galeria Bianca Boeckel

Vista de “Almoço na Relva”, de Martin Lanezan, na galeria Bianca Boeckel. © Divulgação/cortesia galeria Bianca Boeckel

No setor privado, em novembro de 2022, a tradicional Paulo Darzé Galeria inaugurou um novo espaço expositivo voltado para artistas jovens e emergentes, injetando frescor e renovação em uma instituição com mais de quatro décadas de trajetória. Em 2024 e neste ano, destacam-se também as inaugurações das filiais das galerias Galatea (SP), Nonada (RJ) e Bianca Boeckel (SP), todas no centro de Salvador, além da abertura da galeria Ernesto Bitencourt, nova iniciativa baiana sediada no centro histórico.


Impossível não mencionar o Acervo da Laje — casa, escola e museu situado no Subúrbio Ferroviário — que, nos últimos anos, tem se consolidado como uma das iniciativas culturais mais potentes e autênticas da cidade. Fundado por José Eduardo Ferreira Santos e Vilma Santos, o projeto tornou-se referência por valorizar a produção artística das periferias, reunindo obras, objetos e memórias que expressam o cotidiano, a ancestralidade e a resistência das comunidades suburbanas.

Instalação de Regina Silveira na fachada da Galatea Salvador durante a exposição “Tramadas”. © Paola y Renato/cortesia Galatea

Instalação de Regina Silveira na fachada da Galatea Salvador durante a exposição “Tramadas”. © Paola y Renato/cortesia Galatea

Salvador revela que o futuro da arte é também negro, feminino, periférico — e radicalmente vivo

— Thais Darzé

Protagonismo negro e virada decolonial

Se há um eixo central para compreender a virada em curso na cena cultural de Salvador, ele está no fortalecimento do protagonismo negro nas artes visuais. A cidade tem assistido ao florescimento de uma geração de artistas, curadores e pesquisadores que desafiam narrativas coloniais e desestabilizam as estruturas racistas que historicamente sustentaram o sistema da arte.


Nomes como Nádia Taquary, Rebeca Carapiá, J. Cunha, Goya Lopes, Milena Ferreira, Jeisieke de Lundu, Márcio Vasconcelos e Almir Lemos, ao lado de curadores baianos como Ayrson Heráclito, Marcelo Campos, Daniel Rangel e João Victor Guimarães, compõem um mosaico pulsante de vozes que tensionam os limites da representação, da autoria e do pertencimento. Trata-se de uma mudança de paradigma que transforma não só o lugar da arte, mas também quem tem o direito de narrá-la.

Vista de “Desfrutar do Tambor”, de Guilherme Almeida, na galeria Paulo Darzé. © Thais Darzé

Vista de “Desfrutar do Tambor”, de Guilherme Almeida, na galeria Paulo Darzé. © Thais Darzé

Tensões e desafios

Apesar dos avanços, é fundamental reconhecer as tensões e os desafios que ainda atravessam a cena soteropolitana. A instabilidade institucional, a ausência de políticas públicas de fomento consistentes, a precariedade das estruturas museológicas e a desigualdade de acesso aos circuitos de legitimação seguem como obstáculos relevantes. Muitos espaços ainda sobrevivem graças ao esforço individual de artistas, curadores e produtores culturais, enquanto a profissionalização do setor enfrenta entraves estruturais recorrentes.


Ainda assim, a cena das artes visuais em Salvador tem passado, nos últimos anos, por uma reconfiguração potente — marcada por insurgências estéticas, protagonismos negros e a retomada dos museus e das galerias como territórios de disputa simbólica e política. A cidade reivindica, com ímpeto renovado, seu lugar como farol da produção artística brasileira — não apenas por sua história, mas por sua capacidade de reinvenção diante da adversidade. Esse momento não deve ser lido como um “boom” passageiro, mas como o resultado de uma luta contínua por espaço, visibilidade e dignidade criativa. Em um país que ainda busca se reconciliar com suas identidades plurais, Salvador revela, com eloquência, que o futuro da arte é também negro, feminino, periférico e radicalmente vivo.

Thais Darzé é pesquisadora de arte afro-brasileira, curadora independente e diretora da Paulo Darzé Galeria. Revisão de texto: Richard Sanches.